Rio Branco tem alto risco de estresse hídrico

Foto do Rio Acre em extrema sequidão - Foto: Sérgio Vale

Rio Branco está entre as cidades brasileiras com alto risco de exposição ao estresse hídrico, segundo dados do AdaptaBrasil, plataforma do governo federal que reúne indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas. A informação consta na reportagem de capa da edição de setembro da revista Pesquisa FAPESP, que trata da formação do que cientistas chamam de “super El Niño” e dos desafios das cidades brasileiras para enfrentar eventos extremos.

O indicador considera a disponibilidade, a oferta e a demanda de água. De acordo com a publicação, a capital acreana divide essa condição com outras cidades do Norte e do Centro-Oeste, como Belém, Manaus e Campo Grande. Os dados fazem parte do Painel Cidades, lançado em julho pelo AdaptaBrasil, com informações sobre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade dos 5.570 municípios do país.

O dado se soma à previsão para os próximos meses. Segundo a reportagem, se os padrões dos últimos eventos se repetirem, o El Niño de forte intensidade deve provocar mais chuva no Sul e no Sudeste, enquanto o Norte poderá enfrentar seca. Os efeitos do fenômeno costumam ser sentidos principalmente entre o último trimestre de um ano e o início do ano seguinte.

O histórico reforça o alerta para a região. O El Niño de 1997 e 1998 provocou secas severas na Amazônia e no Nordeste. Em outubro de 2024, o rio Negro, na bacia do Amazonas, atingiu o nível mais baixo da história. Naquele ano, além do El Niño, houve influência do aquecimento do Atlântico Norte tropical. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), esse segundo fenômeno ainda não se confirmou em 2026, o que pode reduzir a gravidade dos impactos.

O primeiro alerta veio no início de junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) anunciou a formação do El Niño. Em julho, a anomalia térmica já havia ultrapassado 2 °C em grande parte da região leste do Pacífico, que banha a América do Sul. Em 13 de agosto, a Noaa informou que há 90% de probabilidade de o fenômeno se tornar “muito forte” e 69% de chance de ser o El Niño mais intenso registrado desde 1950, com aquecimento próximo de 3 °C.

Os eventos mais fortes já documentados ocorreram em 1982 e 1983, 1997 e 1998 e 2015 e 2016. Segundo o programa europeu Copernicus, a temperatura média dos oceanos em julho deste ano, de 20,96 °C, foi a maior das últimas cinco décadas.

“A classificação do El Niño varia entre fraco, moderado, forte e muito forte”, explicou à revista o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Segundo ele, o termo “super El Niño” não faz parte da classificação científica e surge da soma entre o aquecimento do Pacífico e o aquecimento global.

O professor Tercio Ambrizzi, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), alerta para os chamados eventos climáticos compostos, quando diferentes fenômenos ocorrem ao mesmo tempo ou em sequência. “Com a seca, já há o favorecimento de uma onda de calor. Você junta os dois e acontecem simplesmente recordes extremos”, afirmou. Ele cita um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado em junho, que contabilizou mais de 120 mil mortes no Brasil em decorrência de ondas de calor entre 2000 e 2019.

Para o pesquisador, a resposta passa por medidas estruturais. “Armazenar água, particularmente para enfrentar os períodos mais secos, é importante porque, mesmo que a estiagem se prolongue, em algum momento vai chover”, disse.

Além da exposição, o AdaptaBrasil mede a vulnerabilidade dos municípios, ou seja, a capacidade de recuperação após um desastre. São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, por exemplo, têm risco “muito alto” de inundações, mas vulnerabilidade “muito baixa”, por contarem com sistema de saúde mais estruturado e melhor acesso à infraestrutura.

Segundo a reportagem, em outras regiões a resposta a desastres costuma demorar mais por questões estruturais de desigualdade, como distância das rodovias, baixa cobertura de saneamento básico e limitações de renda e acesso à educação. A publicação aponta que essa realidade se repete em muitos municípios do Norte e do Nordeste.

Para Marengo, o fenômeno não pode ser evitado, mas seus efeitos podem ser reduzidos. “Os desastres vêm e não há como parar. Já sabemos quais são as regiões. Podemos gerenciar o risco de desastres gerados pelo El Niño, mas não podemos combater o fenômeno”, afirmou. “O que vemos é que o El Niño deixou de ser só um fenômeno climático. É, também, um fenômeno socioeconômico”, concluiu.

Rebeca Martins

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