Morre Luiz Carlos Barreto, lendário produtor, diretor e fotógrafo do cinema brasileiro, aos 98 anos

Foto: Divulgação

Morreu nesta quarta-feira (22) o diretor Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos, no Rio de Janeiro. O veterano estava internado no Hospital Copa Star, na Zona Sul carioca.

A informação foi confirmada pelo Copa Star à CNN Brasil. “O Hospital Copa Star lamenta o falecimento do fotógrafo e cineasta Luiz Carlos Barreto e expressa suas condolências à família”, diz a instituição em nota.

Neta do produtor, Helena Barreto comentou à reportagem: “Vovô teve uma vida plena e gigante”.

Neto de Luiz Carlos, Davi Barreto lamentou a morte do avô por meio de uma publicação nas redes sociais.

“De alguma forma, achei que você viveria mais do que todos nós. Ele era um gigante na nossa família e no Brasil, uma verdadeira Estrela Guia na minha vida. Meu Deus, vovô, que saudade”, escreveu o músico.

“Estou com minha família no Brasil em espírito e queria tanto poder chorar a sua perda e celebrar a sua vida com eles neste exato momento. Em breve estarei aí, mas agora está sendo excepcionalmente difícil estar tão longe dessa família incrível”, seguiu.

Luiz Carlos Barreto era casado com a também produtora de cinema Lucy Barreto. Ele teve 3 filhos — Fábio (1957-2019), Paula, e Bruno —, além de 9 netos e 8 bisnetos.

A assessoria de imprensa da família Barreto informou que o velório acontecerá no Palácio da Cidade, no bairro de Botafogo, às 11h. Depois, a cremação será no Memorial do Carmo, no bairro do Caju, somente para a família.

Leia a nota da família do produtor na íntegra:

O país perdeu Barretão. É o mesmo que dizer: o cinema brasileiro perdeu um de seus arquitetos, o mais apaixonado de todos. Mas, cada vez que uma câmera apontar para um pedaço esquecido deste território, haverá um pouco daquele cearense de sorriso largo a dizer que ainda falta muito para a gente conhecer o Brasil por inteiro. Aos 98 anos, o artista que o Brasil aprendeu a admirar no aumentativo, Luiz Carlos Barreto, morreu em decorrência de uma pneumonia, pouco depois das duas da manhã de hoje, no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada por familiares. Ele estava internado desde segunda-feira (20) e vinha com a saúde fragilizada desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante uma visita ao Ceará, seu estado natal, onde receberia uma homenagem.

Deixa a companheira com quem foi casado por setenta e cinco anos, a produtora Lucy Barreto, sua parceira de vida e de cinema; os filhos Paula e Bruno Barreto; netos e uma legião de admiradores. Deixa também uma obra que ajudou a definir a imagem do Brasil dentro e fora do país.

Antes de ser produtor, Barretão foi repórter. Em 1950, começou sua trajetória nos Diários Associados, passando pela revista “A Cigarra” e, depois, por “O Cruzeiro”, onde se tornou um dos grandes nomes do fotojornalismo brasileiro. Correspondente em Paris, formou-se em Letras pela Universidade Sorbonne, e foi na capital francesa que ampliou seu olhar para uma linguagem que mudaria sua vida: o cinema.

Num trabalho para “O Cruzeiro”, acompanhou as filmagens de “Barravento”, de Glauber Rocha. Ali, diante da câmera e da efervescência criativa do Cinema Novo, o jornalismo encontrou a sétima arte. O olhar documental, a inquietação política e a busca por uma representação mais profunda do país passaram a orientar sua trajetória.

Usou a experiência das ruas, das reportagens e das imagens capturadas pelo visor fotográfico para participar de “Assalto ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias, como coautor do roteiro e coprodutor. No ano seguinte, assinou a fotografia e produziu “Vidas Secas”, obra-prima de Nelson Pereira dos Santos, baseada no romance de Graciliano Ramos. A secura da paisagem, a luz brutal do sertão e o realismo das imagens transformaram a fotografia do cinema brasileiro.

Ao lado de Lucy Barreto, construiu a LC Barreto Produções Cinematográficas, uma das empresas mais importantes da história do audiovisual brasileiro, que serviu de escola para uma legião de profissionais das mais variadas gerações. A produtora atravessou décadas de transformações políticas, econômicas e estéticas, ajudando a criar uma filmografia que se confunde com a própria memória do país.

A lista de realizações é uma cartografia do Brasil. O marco zero, “Garrincha, Alegria do Povo” (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, marcou a estreia da empresa. Obras mundialmente aclamadas, como “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, e “Bye Bye, Brasil” (1979), de Cacá Diegues, foram gestadas por ela, em meio a sucessos a granel. O maior de todos: “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, o primogênito de um lar de artistas. Seu público: 10,7 milhões de pagantes. É a quinta maior bilheteria de nossa história nas telas.

Sempre ligado à política cultural, desafiando a hegemonia de mercados estrangeiros sobre nossas telas, Barretão consegue um feito histórico para as Américas: num período de dois anos, emplaca duas indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com “O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto, e “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), também de Bruno Barreto.

Seu nome também foi citado nas telas de Cannes, Berlim e outros grandes festivais do mundo, consolidando uma imagem do Brasil que escapava aos cartões-postais e mergulhava em seus conflitos, suas paisagens e suas diferenças.

Foi por meio da LC que a palavra “Brasis” ganhou dimensão cinematográfica. Barretão filmou o Sul, a Amazônia, os sertões nordestinos, as periferias urbanas, os rios escondidos do Rio de Janeiro, as cidades invisíveis por trás das fachadas famosas. Seu cinema funcionava como uma expedição afetiva pelo território nacional.

“Há antes dos Barretos e depois dos Barretos”, resumiu certa vez Sônia Braga, uma das maiores estrelas brasileiras no exterior, celebrizada como Dona Flor.

Barretão era empresário e artista ao mesmo tempo. Homem de negócios e homem de set. Um estrategista capaz de negociar orçamentos e, minutos depois, discutir enquadramentos, luz e dramaturgia. Um produtor no sentido mais amplo da palavra: aquele que faz nascer.

Sua neta Julia prepara um documentário sobre seu legado, previsto para 2027. Entre os projetos ligados ao nome Barreto está ainda “Deus Ainda É Brasileiro”, canto de despedida de Cacá Diegues (1940–2025), em fase de finalização.

Luiz Carlos Barreto deixa uma filmografia, mas deixa, sobretudo, uma maneira de olhar. A certeza de que o Brasil cabia inteiro numa tela — com suas dores, suas festas, suas contradições, seus sotaques e suas infinitas paisagens humanas.

O velório será realizado nesta quinta-feira (23), das 11h às 14h, no Palácio da Cidade, em Botafogo, e será aberto ao público. O corpo de Luiz Carlos Barreto será cremado em uma cerimônia restrita à família, às 15h30, no Memorial do Carmo, no Caju.

Fonte: CNN

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