O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma crise bancária que deixou cerca de três milhões de pessoas sem acesso ao dinheiro depositado no Ueno Bank. O político de direita, que governa o país desde 2023, também enfrenta um processo de impeachment por suspeitas de irregularidades envolvendo a instituição financeira.
Apesar do anúncio, Peña continua na Presidência. O Congresso paraguaio suspendeu a sessão que analisava sua renúncia depois que parlamentares governistas deixaram o plenário, provocando falta de quórum. Enquanto isso, o Senado avança no processo que poderá resultar em sua destituição.
Quem é Santiago Peña, presidente do Paraguai?
Santiago Peña Palacios nasceu em Assunção, capital do Paraguai, em 16 de novembro de 1978. Aos 47 anos, é economista, casado com Leticia Ocampo e pai de dois filhos.
Formado em economia pela Universidade Católica de Assunção, possui mestrado em Administração Pública pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Antes de chegar à Presidência, trabalhou no Banco Central do Paraguai e no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Sua carreira política ganhou projeção durante o governo de Horacio Cartes, quando ocupou o cargo de ministro da Fazenda, entre 2015 e 2017.
Peña iniciou sua trajetória partidária no Partido Liberal Radical Autêntico, mas se filiou ao Partido Colorado em 2016. No ano seguinte, tentou disputar a Presidência, mas perdeu as eleições internas da legenda para Mario Abdo Benítez.
Em 2023, conseguiu a indicação do partido e venceu a eleição presidencial, derrotando Efraín Alegre, candidato de uma coalizão de oposição. Seu mandato estava previsto para terminar em 2028.
Santiago Peña é de direita
Peña pertence ao Partido Colorado, legenda conservadora que domina a política paraguaia há décadas. O presidente se identifica com a centro-direita e defende políticas econômicas favoráveis ao investimento privado, à estabilidade fiscal e à atração de empresas estrangeiras.
Em entrevista à revista Veja, em agosto de 2023, ele comentou sua posição política ao falar sobre as diferenças dentro do próprio partido.
“Eu, que sou de centro-direita, fui provavelmente a voz mais crítica a meu antecessor e correligionário Mario Abdo”, afirmou.
Peña também é considerado um aliado político de Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e uma das figuras mais influentes do Partido Colorado.
Apesar de sua orientação conservadora, já defendeu posições mais liberais em questões sociais, incluindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Posteriormente, recuou de algumas dessas declarações diante de críticas de setores conservadores.
Por que o presidente do Paraguai renunciou?
A crise que levou Peña a anunciar sua saída começou com o colapso do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai.
Na terça-feira (3), o Banco Central paraguaio determinou a intervenção na instituição depois de identificar problemas graves de solvência. O banco, que atendia aproximadamente três milhões de clientes, teve suas contas bloqueadas, deixando correntistas e aposentados sem acesso aos recursos.
A instituição também administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, o equivalente a aproximadamente R$ 4,6 bilhões.
O caso atingiu diretamente o presidente porque Peña foi acionista da Ueno Holding, grupo empresarial ligado ao banco. Segundo o próprio mandatário, sua participação foi vendida em março de 2025.
Parlamentares da oposição e integrantes do próprio Partido Colorado passaram a questionar a relação do governo com a instituição financeira.
Entre as acusações apresentadas à Câmara estão possíveis conflitos de interesses, a nomeação de um ex-dirigente do banco para a presidência do Banco Central e a concentração de recursos da Previdência paraguaia no Ueno Bank.
Peña nega ter cometido irregularidades e defende que eventuais responsabilidades sejam apuradas pela Justiça.
Com o agravamento da crise e a abertura do processo de impeachment, o presidente anunciou que deixaria o cargo.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.
Peña também pediu desculpas à população.
“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, declarou.
Na carta enviada ao Congresso, o presidente afirmou que a decisão foi tomada em um dos momentos mais difíceis de sua vida.
“Nenhum cargo é mais importante que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai”, escreveu.
Por que Santiago Peña continua presidente?
A renúncia de Peña ainda precisa ser aceita pelo Congresso para que ele deixe oficialmente a Presidência.
Na quinta-feira, deputados e senadores se reuniram para analisar o pedido, mas a sessão foi suspensa por falta de quórum. Parlamentares governistas abandonaram o plenário, impedindo a continuidade da votação.
Parte dos congressistas, incluindo integrantes da oposição e do próprio partido do presidente, defende que Peña seja destituído por impeachment, em vez de deixar o cargo voluntariamente.
A diferença tem consequências políticas e jurídicas. Pela Constituição paraguaia, ex-presidentes que deixam o cargo em determinadas condições podem assumir a condição de senadores vitalícios. Essa prerrogativa não é concedida a presidentes destituídos por impeachment.
A Câmara dos Deputados aprovou a acusação contra Peña por 78 votos a favor e nenhum contrário. O processo foi encaminhado ao Senado, responsável por decidir se o presidente será destituído.
Em uma publicação no X, Peña afirmou que pretende apresentar sua defesa.
“Farei isso com argumentos e provas, com respeito à Constituição e às instituições da República”, escreveu.
O que acontece agora no Paraguai?
O Senado iniciou a análise do impeachment na noite de quinta-feira. Peña deverá apresentar sua defesa nesta sexta-feira (6), às 10h, no horário de Brasília.
Para que seja destituído, são necessários os votos de dois terços dos 45 senadores.
Além da crise política, o Ministério Público paraguaio abriu uma investigação para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao Ueno Bank.
Caso a renúncia seja aceita ou o impeachment seja aprovado, o vice-presidente Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado, deverá assumir a Presidência.
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