‘Quando votar, faça por você e por mim?’: O pedido de uma jovem de 15 anos

Agência Brasil/Reprodução

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a parede do meu quarto, há uma frase da minha escritora favorita: Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”, de Clarice Lispector. Todas as vezes que a leio em voz alta enquanto me arrumo, penso no que realmente quero e, talvez, em como é finalmente se sentir livre. Se é que somos.

Aos 15 anos, posso ainda não saber definir a liberdade em termos concretos, mas me lembro exatamente de quando a senti. Eu dançava com uma amiga nos bastidores do teatro. Dávamos giros, ríamos e cantávamos Girls Just Want to Have Fun até perder o fôlego.

Quando a música acabou, ela me contou que havia tirado o título de eleitor. Estava feliz e, ao mesmo tempo, assustada. Tinha medo de errar politicamente pela primeira vez, de confiar seus ideais à pessoa errada e passar os quatro anos seguintes com a sensação de ter ajudado a construir um governo capaz de determinar que vida é mais digna do que outra. Ainda sinto o impacto das palavras de alguém que levava aquele ato tão a sério.

De repente, a música que tantas meninas e mulheres cantam como um hino à diversão, aos desejos e aos sonhos ganhou um gosto mais amargo. O gosto de perceber, aos 15 anos, que as mulheres no Brasil não estão apenas se divertindo: estamos carregando o peso de direitos que ainda precisam ser defendidos.

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O voto importa para quem?

Agência Brasil/Reprodução

Como uma jovem ativista pela participação política de meninas e mulheres, já perdi as contas de quantas vezes ouvi que essa luta nem era tão importante assim porque “meninas e mulheres não entendem de política”.

A frase carrega uma contradição. Enquanto nos ensinam sobre os cuidados da casa, da família e até dos namoradinhos na escola, somos incentivadas a cuidar do privado, não do mundo. Nos ensinaram a ser damas de companhia, e não as mulheres que escrevem as leis da própria liberdade.

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Lembro da Barbie da minha infância. Ela era presidente antes mesmo de eu entender o que um presidente fazia. Era cientista antes de eu saber o que era um laboratório. Sempre achei curioso que minhas Barbies ocupassem mais profissões do que muitas mulheres que eu via na política. Na infância, parecia óbvio que poderíamos ser tudo. A adolescência me ensinou que o verdadeiro desafio não era sonhar com esses lugares, mas conseguir chegar até eles.

Quando eu ainda era criança, minha primeira percepção das eleições veio de dentro de casa. Foi quando comecei a entender que minha mãe tinha um papel que ia além do cuidado comigo: suas escolhas também tinham relação com o mundo lá fora. Políticas públicas e decisões de governo poderiam afetar a comida que chegava à nossa mesa, os momentos de lazer que teríamos juntas e até a qualidade de vida da nossa família. Para mim, isso importava. Então, o voto dela importava.

Quando passei a compreender melhor o poder do voto e das nossas escolhas, percebi que a Barbie representava a imaginação dos muitos lugares que poderíamos ocupar. A política, por sua vez, representava a possibilidade de transformar parte dessa imaginação em realidade.

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Para uma mulher que sofre pressão do marido para decidir em quem votar, a política atravessa até o espaço íntimo da casa. Para uma adolescente que falta às aulas porque não consegue comprar absorventes, uma decisão política chega ao próprio corpo.

A pergunta nunca foi se mulheres querem apenas se divertir. A pergunta é: quem decide se elas poderão fazer isso e em quais condições? Essa decisão também passa pelas urnas. E precisa passar por nós.

O voto não garante liberdade sozinho. Mas abrir mão dele significa deixar que outras pessoas participem das decisões sobre quais direitos serão protegidos, ampliados ou questionados. Para quem depende de políticas públicas para estudar, trabalhar, viver sem violência ou exercer seus direitos, o voto nunca foi um detalhe. É uma das formas democráticas de dizer que a vida das mulheres não pode continuar sendo decidida sem elas.

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Para que serve um voto?

Importa, sim, e você precisa saber como votar. Dani Rosa/CAPRICHO

Costumamos dizer que um voto serve para escolher um presidente, governador ou prefeito. Mas, se olharmos com mais atenção, isso é apenas parte de algo muito maior.

Um voto ajuda a definir as políticas que vão determinar se uma criança negra crescerá em uma escola que a acolhe ou em uma que a silencia; se uma pessoa com deficiência encontrará cidades acessíveis ou continuará enfrentando barreiras; se uma mulher indígena terá seus direitos respeitados ou seguirá invisibilizada pelo Estado.

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Também influencia se uma trabalhadora terá transporte público de qualidade para chegar ao emprego; se uma mãe solo terá acesso a políticas que reconheçam suas necessidades; se uma família contará com moradia, saneamento e comida na mesa; e se meninas crescerão acreditando que seus sonhos cabem no mundo ou passarão a vida aprendendo a diminuí-los.

O ato de votar é político, e eu vejo isso todos os dias. Simone de Beauvoir escreveu que “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Por isso, nossa participação nos espaços de decisão também precisa ser defendida.

Desejo àquela amiga e a todas as meninas que votar conscientemente signifique compreender que cada escolha fortalece um projeto de sociedade e que o bem-estar precisa ser coletivo, com os direitos fundamentais garantidos a todas as pessoas. Afinal, não é justo que as mulheres, que representam mais da metade do eleitorado brasileiro, continuem sub-representadas nos espaços em que tantas decisões são tomadas.

No fim, talvez aquela dança fosse também um ensaio sobre Girls Just Want to Have Fun. Um lembrete de que meninas e mulheres nunca quiseram apenas se divertir. Sempre houve, também, um pedido por mais liberdade.

O que você, menina, deseja tem nome. Eu, por exemplo, desejo que mulheres caminhem sem medo de se tornar estatísticas de feminicídio, que meninas estudem sem serem alvo de machismo e que todas nós possamos construir um país onde a felicidade não seja um privilégio individual, mas uma possibilidade coletiva.

Então, vou fazer uma revelação: neste ano, ainda terei apenas 15 anos quando outubro chegar. Podemos fazer um acordo? Quando for a sua vez de ir às urnas, vota por você e por mim? Vota pelo nosso compromisso com a felicidade?

Mari Baptista, 15 anos, é líder da Girl Up Brasil, organização que conecta meninas e incentiva sua atuação como lideranças pela justiça social a partir das próprias vozes.

Ah, aproveite para baixar a “colinha” da CAPRICHO e já vai treinando como votar:

Dani Rosa/CAPRICHO

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