

D
esde que NandaTsunami apareceu como uma das vozes mais promissoras do rap feminino, fãs apontam que muitas ideias e posicionamentos trazidos por ela carregam conceitos ligados à psicanálise. Segundo eles, a cantora traz um “olhar terapêutico” em suas letras e isso cria uma conexão especial com garotas, que também estão no processo de cuidar e priorizar a autoestima e a saúde emocional.
A pedidos da CAPRICHO, o psicanalista Kályton Resende analisou ‘Prólogo’, nova música de NandaTsunami, lançada na última semana, que chamou atenção da internet pela sua mensagem poderosa. O especialista explica os trechos em que a cantora fala de projeção e desejo.
Agora, confira a análise do psicanalista sobre a letra de NandaTsunami
“O que eu amei em você era algo que não era seu”
Segundo Kályton, o prólogo de NandaTsunami quer dizer: “Se é pra viver essa vida sozinha como eu vim ao mundo, que seja ao lado de alguém, mas nunca de qualquer um”. Ela começa a letra dizendo que estava chorando e lembrando da pessoa. E aí ela percebe que todo aquele amor era dela, na verdade. “Nós sempre nos apaixonamos por alguma coisa que inventamos do outro e escolhemos, inconscientemente, esse outro que poderia ser qualquer outro, embora nunca seja qualquer um”, explica.
O psicanalista diz também que não nos apaixonamos necessariamente pelo outro inteiro, mas por “retalhos” que identificamos nele e nos quais investimos emocionalmente. “Seja um cabelo, um ombro, uma perna, uma mão, o estilo, a roupa, o jeito de andar ou a voz”, exemplifica.
A cantora, por exemplo, fala que havia alguma coisa no olhar do outro que chamava sua atenção. “Só que era um reflexo e que tinha a ver com a fantasia dela e que ela depositou naquele corpo, por acaso. Inclusive, para fechar com chave de ouro, aquilo que ela amou naquela pessoa talvez nem fosse da pessoa. Era dela.”
O “Sol” como aquilo que ela leva consigo
NandaTsunami traz um metáfora do sol para contar quando a outra pessoa quebra a fantasia e, então, ela percebe que a relação não era a fonte daquilo que havia de bom em sua vida. Era o oposto: era ela quem levava essa luz para a relação.
O psicanalista explica: “É como se ela dissesse: ‘Isso aí que você está chamando de sorte sou eu na sua vida ruim. E ela vai voltar a ser só chuva, porque eu estou levando o sol comigo. Aonde eu for, o sol vai brilhar, porque é de mim. O sol me persegue, é de mim. De você é só chuva. É de você ser isso. Então vai buscar abrigo. Se prepare’.”
A ideia de “hospedeira”
Para Kályton, existe uma diferença entre ser transformado por alguém e simplesmente sugar algo do outro. No primeiro caso, uma relação pode nos apresentar uma ideia, uma possibilidade ou uma maneira de enxergar o mundo que incorporamos e transformamos em algo nosso. É o que ele chama de pegar um “retalho” do encontro e “costurar” em nós.
“Nós somos compostos do outro. Podemos encontrar no outro alguma coisa que antes não estava em nós daquela forma. Uma ideia, um jeito de olhar, uma possibilidade, um pensamento, uma criação. E podemos pegar esse retalho que surgiu naquele encontro e costurar em nós. Aquilo passa a ser nosso também. Isso é bonito”, diz o psicanalista.
No segundo caso, a pessoa apenas consome aquilo que recebe, sem transformar essa experiência em algo próprio. É aí que ele usa a imagem da “hospedeira”. Isso conversa diretamente com o trecho em que a cantora percebe que os planos do outro eram bonitos porque eram, originalmente, os que ela havia escrito.
“A hospedeira vai sugando aquilo que é do outro sem nunca fazer aquilo ser seu, sem produzir nada seu. Ela traga. Ela consome. Ela quer aquilo que vem do outro, mas não cria nada com aquilo“, explica.
“Você vai embora, e eu vou continuar comigo”
Essa parte da letra quebra uma ideia bastante comum sobre términos: a de que precisamos encontrar outra pessoa para voltar a nos sentir completos. O psicanalista chama atenção justamente para isso. A incompletude, na perspectiva psicanalítica apresentada por ele, faz parte da experiência humana. Uma relação não deveria ser entendida como aquilo que finalmente “completa” alguém.
Então, quando a cantora afirma que continuará ali e “inteira”, a interpretação é de que ela não está dizendo “não preciso de ninguém”. Ela está dizendo algo mais próximo de: “não preciso de outra pessoa para me constituir como alguém.”
“É como se a cantora disesse: ‘Eu sinto muito por você ser uma pobre hospedeira, porque você ainda acredita nessa mentira, nessa ilusão da completude. E, em vez de admitir essa incompletude para tornar a vida um pouco mais ensolarada e as noites mais iluminadas, você prefere a repetição da chuva, sem lua e sem sol’”, explica.
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