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uPaul’s Drag Race UK não vai acabar. Mas isso não significa que os fãs da franquia não tenham motivos para prestar atenção no que está acontecendo no Reino Unido.
Nesta semana, a BBC confirmou que a oitava temporada, atualmente em exibição, será a última de Drag Race UK transmitida pela emissora. Depois disso, a competição continuará sob responsabilidade da World of Wonder, produtora por trás da franquia, e terá como nova casa a plataforma paga WOW Presents Plus.
A mudança acontece em meio a uma grande reorganização financeira da BBC. A companhia pretende economizar £ 500 milhões até 2028 e já anunciou centenas de demissões e cortes em diferentes áreas de sua programação. Nesta semana, o diretor-geral Matt Brittin afirmou que a queda na receita obtida por meio da licença de televisão britânica deixou a empresa com poucas alternativas para equilibrar as contas.
Por isso, oficialmente, a saída do programa é uma decisão financeira. Mas, quando observamos o lugar que Drag Race UK ocupava dentro da BBC e quais outros programas deixaram sua grade recentemente, o assunto ganha uma dimensão maior.
Drag Race UK não foi exatamente um fracasso de audiência
Quando chegou à BBC Three, em 2019, Drag Race UK rapidamente se tornou um dos principais títulos do canal. De acordo com um relatório anual da própria BBC, a primeira temporada acumulou cerca de 15 milhões de solicitações no iPlayer, plataforma de streaming da emissora. Quase dois terços desse consumo vieram de pessoas entre 16 e 34 anos, justamente um público que emissoras tradicionais enfrentam dificuldades para manter próximo da televisão.
O público diminuiu com o passar dos anos, mas a série ainda vinha registrando aproximadamente 1 milhão de espectadores por semana no Reino Unido, segundo números divulgados pela imprensa britânica após o anúncio da saída.
Em termos de tamanho e influência cultural, a BBC ocupa na televisão britânica um espaço que ajuda a entender por que sua participação era tão importante. Existe, porém, uma diferença fundamental em relação a grandes emissoras comerciais: a BBC é uma corporação pública e tem uma missão estabelecida por sua Carta Real de servir diferentes públicos britânicos com informação, educação e entretenimento.
Isso fazia com que Drag Race UK não estivesse disponível apenas para quem já conhecia RuPaul, acompanhava drag queens nas redes sociais ou estava disposto a pagar especificamente por uma plataforma LGBTQ+. O programa estava no BBC Three e no BBC iPlayer, inserido no mesmo ecossistema que séries, documentários, jornalismo, esportes e outras atrações consumidas diariamente por milhões de britânicos.
Pode parecer uma diferença pequena, mas existe uma distância enorme entre encontrar um programa queer ao abrir uma das principais plataformas de televisão do país e precisar procurar e assinar um serviço cuja audiência já tende a conhecer aquele universo.
Drag Race não foi o único programa LGBTQ+ a sair da BBC
É aqui que a discussão fica ainda mais relevante. No começo de 2026, a BBC também decidiu não produzir novas temporadas de I Kissed a Boy e I Kissed a Girl, realities de relacionamento apresentados por Dannii Minogue. O primeiro fez história como o primeiro dating show britânico formado exclusivamente por homens gays, enquanto sua versão com mulheres lésbicas e bissexuais ampliou o formato posteriormente. A emissora também atribuiu as decisões às dificuldades de financiamento.
Individualmente, cada cancelamento pode ser explicado pelos cortes que atingem toda a BBC e não há indicação da emissora de que programas tenham sido retirados do ar por serem LGBTQ+. O efeito conjunto, no entanto, chama atenção: em poucos meses, três dos realities mais explicitamente centrados em pessoas queer deixaram ou estão deixando a programação da BBC.
Isso não significa que a BBC tenha eliminado toda a representação LGBTQ+ de sua programação. A questão é outra: quantos programas de entretenimento de grande alcance ainda terão pessoas queer não apenas como personagens de uma história, mas como centro da própria narrativa?
Em um momento no qual debates sobre os direitos de pessoas LGBTQ+, especialmente da população trans, ocupam cada vez mais espaço na política e na sociedade britânica, essa diminuição também reacendeu no Reino Unido uma discussão antiga. Conteúdos LGBTQ+ continuam sendo tratados pelas grandes empresas de mídia como algo destinado a um público específico, mesmo quando conseguem chegar a milhões de pessoas.
A mudança de casa
A World of Wonder definiu a mudança como o começo de uma nova fase da franquia no Reino Unido. As oito temporadas de Drag Race UK e as três edições de UK vs The World passarão a fazer parte do catálogo britânico da WOW Presents Plus, que já concentra diferentes versões internacionais do reality.
E a produtora já tem planos para o futuro: o primeiro RuPaul’s Drag Race UK All Stars está confirmado para o segundo semestre de 2027, exclusivamente na plataforma. O que se perde é outra coisa.
Durante oito temporadas, alguém podia entrar no iPlayer para assistir a qualquer programa da BBC e acabar conhecendo Bimini, Tia Kofi, Danny Beard, La Voix e dezenas de outras queens. Um adolescente que nunca havia entrado em uma boate gay podia assistir a artistas drag competindo em uma das maiores emissoras de seu país. Uma família que talvez jamais procurasse conteúdo LGBTQ+ por conta própria podia encontrar aquelas histórias na televisão de casa.
E não é porque isso está acontecendo no Reino Unido que o Brasil está distante desse risco. Por aqui, programas e histórias LGBTQ+ também dependem de espaço em grandes emissoras e plataformas para alcançar públicos além da própria comunidade. O caso de Drag Race UK mostra como esse espaço pode diminuir e como conteúdos queer podem acabar cada vez mais restritos a serviços de nicho.
A partir da próxima fase, Drag Race UK continuará vivo. Seu público mais fiel provavelmente também estará lá, mas muita gente deixará de encontrá-lo pelo caminho.
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