O que carro adesivado e bandeiras nas esquinas têm a ver com o nosso futuro?

Foto: Iago Nascimento

O debate político do Acre é uma vergonha. O estado enfrenta desafios imensos, com metade de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza, as maiores taxas de feminicídio e violência doméstica do país, a infraestrutura de estradas e pontes em estado lastimável, a educação andando para trás e a corrupção no setor público em níveis absurdos, como há muito não se via. Para completar, a economia não avança e os jovens, principalmente aqueles com melhor escolaridade e formação, estão, aos montes, rumando para o aeroporto como saída para a falta de perspectiva em sua própria terra. Ou seja, não apenas o presente está complicado como estamos encomendando dificuldades maiores ainda para o futuro. Apesar de tudo isso, o debate na política é sobre quem tem mais estrutura e quem vai ganhar a eleição para governador ou senador, sem qualquer consideração sobre o que realmente importa.

Por que isso é importante? Explico a seguir.

Quem acompanha estas bandas com um mínimo de atenção sabe que aqui importa menos os fatos em si e mais o que está sendo comentado sobre os acontecimentos — a fofoca é o que importa. A rigor, o que dizem jornalistas, políticos e outros conversadores de plantão é o que realmente será levado em consideração pelo cidadão comum na hora de avaliar como está a vida e por onde ela deve seguir. Ou seja, as pessoas, na sua maioria, decidem com base no senso comum. E a necessidade de fazer parte gera aqui um efeito manada absurdamente irresistível.

Isso é tão marcante como característica sociológica do estado que uma das primeiras preocupações de muitos políticos, ao chegarem ao poder, é domar a imprensa — pela subvenção, pelo anúncio oficial ou pelo constrangimento. Quem observa o Acre atentamente conhece os exemplos.

Não estou aqui para dizer como deve ser um debate político decente. Para isso não há fórmula. Mas é evidente que, no ambiente de uma campanha eleitoral geral como essa, em que praticamente todos os cargos públicos que realmente importam estão em disputa, é de se esperar que a imprensa e os candidatos falem sobre aquilo que mexe com o dia a dia do cidadão-eleitor: o preço dos alimentos, o acesso e a qualidade da saúde pública, emprego, educação e creche para as crianças, estradas, ramais, investimentos; enfim, o que importa hoje e para o futuro.

Mais ainda num contexto como o nosso, de mazelas “no balde”, como diz o povo. E ainda assim, o que menos aparece é a realidade da vida sem perspectiva. Os programas de TV, outrora dominantes na comunicação com o povo, são incapazes de gerar debate. As entrevistas, sabatinas e debates com os candidatos, igualmente. Falta tempero: falta conhecimento da realidade, faltam afirmações categóricas e sentenças firmes, apoiadas em dados e indicadores de peso. Sobram achismos, conversa vazia e superficialidades. A começar pelos entrevistadores: chega a dar dó a falta de preparo de parte dos jornalistas escalados, nas sabatinas e debates, para perguntar aos candidatos.

O voto é a ferramenta mais importante da vida democrática. É a expressão por excelência do compartilhamento do poder: num regime moderno, busca transformar em decisão do eleitor e compromisso dos eleitos aquilo que a Polis grega fazia à sua maneira — converter as necessidades, os desejos e as preferências da comunidade em deliberação coletiva.

Por que, então, o debate político não avança para temas e abordagens que melhor traduza as prioridades do Acre neste momento? Onde está o problema? Eu realmente não sei. Talvez anos de estudo possam gerar respostas cientificamente válidas. Por hora, levanto algumas suspeitas. Vamos a elas:

O Acre se desacostumou a fazer debate público. Inexistem programas na TV e no rádio que promovam discussões substantivas sobre temas importantes. A busca pela linguagem comum e superficial impõe severas barreiras à discussão minimamente aprofundada sobre qualquer tema.

A justificativa que sempre aparece é que as pessoas não se interessam por conteúdo; querem somente o que gera distração e prazer. O cidadão tido como mero consumidor deixa de ter importância como sujeito coletivo dotado de direitos e necessidades e, portanto, como destinatário de informações necessárias para o exercício da cidadania;

A emergência de um formato de política baseado na intolerância, em que mais vale calar o oponente, obrigando-o a submeter-se ao grito forte da maioria circunstancial, retira da convivência das pessoas a possibilidade do debate saudável, democrático e civilizatório;

As redes sociais (sempre elas!) com seus algoritmos destinados a criar bolhas informacionais estimulam o sectarismo e a intolerância, num ambiente já dominado por notícias e narrativas falsas. Como o acreano comum tende ao comportamento de manada, de seguir a onda e evitar o conflito aberto, a tendência das pessoas é acomodar-se onde firmou identidade e desenvolveu pertencimento;

Por fim, a ausência de conversas substantivas sobre desafios e soluções públicas deixa as pessoas mais à vontade para as pequenas negociatas do voto de varejo. Negocia-se um privilégio aqui, um favor ali, uns litros de gasolina acolá, uns trocados para o lanche – sem que isso gere qualquer cobrança moral.

Nesse cenário, a convivência social deixou de se basear no saudável exercício do diálogo respeitoso para se tornar um campo de guerra em que a imposição do grito ou a indiferença cínica se sobrepõe à qualidade do argumento. É nesse ambiente que as pessoas são chamadas a decidir sobre o futuro do Acre. E, como podemos ver neste momento, o que menos aparece é debate real e decisão consciente.

Hoje o Acre apresenta os piores indicadores para um jovem viver. Ao mesmo tempo em que, segundo o IBGE, 52% da população acreana tem até 29 anos de idade, o estado apresenta o mais elevado nível de encarceramento de jovens e, pior inda, o quantitativo de adolescentes em medidas socioeducativas é três vezes superior à média nacional – conforme dados do SISDEPEN/CNJ. Quando juntamos a isso o fato de que mais de 30 mil jovens saíram do estado nos últimos cinco anos (estimativas migratórias/IBGE), temos um pequeno quadro das nossas emergências.

O que fazer, então? Não há solução milagrosa, mas há um começo evidente: aos veículos de comunicação, cabe romper com o formato de entrevista morna e promover sabatinas com pauta temática e escrutínio efetivo, pressionando os candidatos para que mostrem o quanto realmente conhecem a realidade do estado, com perguntas firmes e respostas cobradas; às instituições organizadas – OAB, universidades, sindicatos, igrejas -, cabe assumir a promoção de debates; e a nós, eleitores, cabe exigir programa e proposta em vez de nos contentar com manifestações estéreis de “volume de campanha”.

Porque isso, com certeza, importa mais do que saber quem tem mais carro adesivado ou mais gente balançando bandeira na esquina.

Irailton Lima

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