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xiste uma diferença importante entre sair de um calendário de moda e conseguir criar um universo próprio fora dele. Na última quinta-feira (17), a LED mostrou que está pronta para a segunda opção. Depois de nove anos desfilando no SPFW (São Paulo Fashion Week), a marca mineira fundada por Célio Dias apresentou, pela primeira vez, uma coleção de forma independente e fez da própria liberdade parte da história que queria contar na passarela.
Para apresentar Baile da Saudade, a LED escolheu como local a União Fraterna, sociedade centenária localizada na Barra Funda, em São Paulo. O salão, fundado originalmente como espaço de encontro e auxílio mútuo de trabalhadores da região, estava longe de funcionar apenas como cenário bonito para fotos, mas como um lugar para celebrar o novo momento da marca, que promete até loja física até o final deste ano em São Paulo.
“Em um momento em que quase toda presença se transforma em notificação, falar de saudade também é falar da vontade de voltar a frequentar os nossos afetos e coisas que são naturalmente nossas, falando em brasileiro”, explicou Cleu Oliver, que divide a direção criativa da LED com Célio Dias, em declaração divulgada pela marca.
Com a presença de crochê, fuxico, patchwork, tramas, franjas, miçangas, bordados e pespontos aparentes, a coleção explora algo que a LED já faz há um tempo: técnicas associadas ao trabalho manual brasileiro. Dessa vez, particularmente à cultura artesanal mineira, foram colocadas ao lado de uma alfaiataria mais urbana, vestidos amplos, microshorts e construções de volume quase esculturais.
“A gente, nesse momento, escolheu falar sobre o que a gente estava com saudade. Eu pessoalmente, precisei muito revisitar esse momento pessoal, de acolhimento e olhar para o passado. Na coleção, a gente fala de saudade, afeto, carinho, por meio de coisas que a gente deixou para trás em algum momento”, aponta Célio. “Por exemplo, trouxemos o patchwork de tecidos coloridos imitando aquelas colchas que temos como tradição em casas do interior, pompons coloridos, e babados que, para mim, lembra muito a minha avó”.
Assim, a marca não tentou traduzir nostalgia simplesmente reproduzindo roupas de décadas passadas, recurso que se tornou quase onipresente na moda nos últimos anos. A memória apareceu principalmente no modo de fazer, longe do industrializado e potencialmente descartável. As listras, algo já esperado da marca, agora chegam com uma inovação: ao invés de estampas e tecidos tracionais, agora foram feitas em jeans.
E toda essa ousadia afetiva também se traduziu na beleza do desfile, assinada por Kátia Celene Araújo, artista nacional da MAC Cosmetics no Brasil. “Nós escolhemos trabalhar a nostalgia com maquiagens que fizeram muito sucesso em décadas específicas, mas que ainda são atemporais. Temos quatro looks, com cores, esfumados, marrons, e texturas para combinar com os tecidos escolhidos pela LED”, contou à CAPRICHO durante cobertura do backstage do desfile.
Nas roupas, os tons naturais, beges e brancos deram espaço para que as texturas assumissem protagonismo; saias de crochê apareceram sobre calças em looks masculinos, enquanto volumes arredondados transformaram quadris e bustos.
Em outros momentos, poás, babados e flores naturais carregadas dentro de bolsas de tecido adicionaram aquela sensação curiosa de reconhecer alguma coisa sem necessariamente saber de onde. E, claro, o coração da LED apareceu em camisas e em um vestido que se transformou no “look surpresa da noite”. Veja abaixo:
Depois de temporadas dominadas pela velocidade das microtendências e por estéticas que nascem, ganham nome e praticamente desaparecem dentro das redes sociais (aham, sabemos bem), o trabalho manual voltou a ocupar um espaço importante. Na LED, porém, ele não aparece apenas como efeito visual ou tendência.
O crochê, por exemplo, já faz parte da identidade da marca. Nesta temporada, foi a marca Círculo que forneceu os fios utilizados nas peças. O desfile também ampliou uma rede de colaborações com outros nomes brasileiros: houve alfaiataria desenvolvida com Vitor Souza, fuxicos de Bira Godoy, experimentações da Retropy e os primeiros sapatos próprios da LED, feitos em parceria com a Dubuy.
Sem precisar dividir atenção com dezenas de outros desfiles durante uma semana de moda, a LED conseguiu transformar a apresentação em algo mais próximo de uma experiência completa. O espaço, a roupa, a trilha e a festa falavam a mesma língua.
E a trilha não economizou na saudade: teve de Tanta Saudade, de Djavan, a Palpite, de Vanessa Rangel. Depois, a bateria da Mocidade Alegre entrou em cena e levou a apresentação definitivamente para o território da festa brasileira. Quando a fila final terminou, o público ainda foi convidado a permanecer ali para uma festa com hits nacionais.
O encerramento também teve Thelma Assis sambando na passarela para apresentar a camiseta do Camarote Bar Brahma para o Carnaval de 2027, criada por Célio Dias e Cleu Oliver. Segundo os estilistas, foram 36 horas desenhando os símbolos brasileiros que compõem a estampa.
O passado que aponta pro futuro
A nostalgia da LED não é silenciosa, minimalista ou sépia. Ela tem crochê, samba, flor, volume, textura e gente reunida em um salão de baile. Em vez de procurar um Brasil idealizado no passado, Célio Dias e Cleu Oliver parecem interessados nas coisas que continuam vivas justamente porque passam de uma pessoa para outra: uma técnica artesanal, uma música, uma roupa feita à mão, uma festa.
Essa conversa, aliás, já vinha sendo construída pela marca. Em seu desfile anterior no SPFW, em outubro de 2025, a LED apresentou o manifesto “Não deixe a moda nacional morrer”, também acompanhado pelo samba e pela percussão. Agora, fora do calendário oficial, a defesa da moda brasileira ganhou uma dimensão menos de manifesto e mais de prática. Sabemos o que é bom, estamos com saudade, e podemos fazer mais.




