“Joga esse lixo”: ex-carcereiro relata ataque a Lula a caminho da prisão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi alvo de ofensas durante um voo de helicóptero da Polícia Federal, em abril de 2018, quando era transportado para a Superintendência da corporação, em Curitiba. O episódio é relatado pelo policial federal Jorge Chastalo Filho no livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula, lançado nesta semana.

Durante os aproximadamente 15 minutos de voo entre o Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, e a sede da PF, pessoas em outras aeronaves utilizaram a frequência de rádio para transmitir mensagens hostis contra o então ex-presidente.

“Joga esse lixo pela janela!” e “Não o soltem nunca mais!” foram algumas das frases ouvidas, segundo o relato publicado pelo UOL, que teve acesso a trechos da obra.

O comandante do helicóptero reagiu às manifestações e pediu respeito ao trabalho da equipe. Uma controladora de voo também advertiu os responsáveis, lembrando que as comunicações eram gravadas e poderiam ser utilizadas para identificá-los.

O episódio já havia sido objeto de uma gravação divulgada em 2018. Na ocasião, a Força Aérea Brasileira (FAB) confirmou a autenticidade do áudio e informou que uma pessoa havia utilizado indevidamente a frequência de rádio. A identidade do responsável não foi divulgada.

Lula chamou Cármen Lúcia de “falsa humilde”, diz livro

A obra também apresenta conversas nas quais Lula teria feito duras críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente após decisões desfavoráveis aos seus pedidos de liberdade.

Segundo Chastalo, o petista demonstrava decepção com Cármen Lúcia, indicada por ele ao Supremo em 2006.

“A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo”, teria afirmado Lula.

O policial relata que o então ex-presidente recordava a conversa que teve com a ministra antes de indicá-la ao tribunal. Na ocasião, Cármen teria mencionado a origem humilde da família, as mãos calejadas do pai e a importância da gratidão.

De acordo com o livro, Lula dizia ter acreditado naquele discurso, mas posteriormente passou a considerar que a ministra não havia correspondido às suas expectativas.

Em outro episódio, o petista teria chamado Cármen Lúcia de “miserável” e afirmado que havia passado uma noite com muita raiva dela.

Fachin e Fux também foram alvos de críticas

O atual presidente do STF, Edson Fachin, também aparece entre os ministros criticados por Lula nas conversas relatadas pelo policial.

Segundo Chastalo, o petista demonstrou irritação depois que Fachin retirou de pauta um pedido de habeas corpus que poderia beneficiar sua situação judicial.

Lula teria chamado o ministro de “filho da puta” e reclamado de seu distanciamento dos movimentos sociais, aos quais Fachin havia sido ligado antes de chegar ao Supremo.

O ministro Luiz Fux também foi mencionado nas conversas. Segundo o livro, Lula disse que nunca havia confiado nele, apesar de Fux frequentar eventos oficiais durante seu governo.

O petista teria descrito o comportamento do ministro como o de um “cachorro pidão” e o chamado de “canalha”.

As críticas a Fux ganharam força após o ministro suspender uma autorização que permitiria a Lula conceder entrevistas à Folha de S.Paulo e ao jornal espanhol El País enquanto estava preso.

As declarações foram divulgadas pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, na quinta-feira (5). Procurados pela reportagem, a assessoria de Lula e o STF não haviam se manifestado até a publicação.

Policial revela como Lula se comportava na prisão

Além das críticas políticas, Chastalo descreve a chegada de Lula à Superintendência da Polícia Federal e a convivência que os dois desenvolveram ao longo dos 580 dias de prisão.

Segundo o agente, o petista chegou à unidade em silêncio e com a “fisionomia abatida”.

“Me senti constrangido com a situação”, escreveu o policial ao recordar os primeiros momentos do então ex-presidente na carceragem.

Chastalo também relata que, antes da chegada de Lula, a equipe da Polícia Federal precisou elaborar diferentes planos de segurança.

“Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”, afirmou.

Com o passar dos meses, a relação entre o policial e o petista se tornou mais próxima. Lula costumava chamá-lo de “querido” e fazia brincadeiras sobre seu cabelo, segundo o livro.

Em uma das conversas, o então ex-presidente demonstrou irritação ao descobrir que seu passaporte havia sido furtado. Para comentar o episódio, comparou o comportamento de algumas pessoas ao de crianças que mostram as boas notas na escola, mas escondem os resultados ruins.

Pão com mortadela e conversas durante o banho de sol

A obra também apresenta detalhes da rotina de Lula, incluindo alimentação, visitas familiares e os períodos em que podia deixar a cela para tomar banho de sol.

Em uma das passagens, Chastalo conta que providenciou um pão francês com mortadela para o petista, que havia demonstrado vontade de comer o alimento.

O policial relata ainda que Lula conversava sobre política, democracia e assuntos familiares durante os momentos em que estavam juntos.

O ex-presidente também solicitou equipamentos para fazer exercícios físicos e acompanhamento médico. Segundo o agente, alguns pedidos dependiam de autorização judicial.

Outro problema enfrentado pela equipe era a presença de drones nas proximidades da Superintendência da PF. As aeronaves eram utilizadas na tentativa de obter imagens de Lula durante o período de prisão, o que levou os policiais a adotar cuidados adicionais com os horários e a segurança.

Livro de ex-carcereiro de Lula teve nova tiragem encomendada

Com 592 páginas, Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula foi publicado pela editora WMF Martins Fontes e organizado em formato de diário.

Chastalo ficou conhecido como “Rodrigo Hilbert da Federal” pela semelhança física com o ator e apresentador.

Segundo a editora, os 5 mil exemplares da tiragem inicial foram distribuídos às livrarias. A procura levou à encomenda de mais 15 mil cópias.

O lançamento foi adiado para depois das eleições presidenciais de 2026, segundo a editora, para evitar que o conteúdo fosse utilizado como instrumento de campanha.

Lula permaneceu preso entre abril de 2018 e novembro de 2019. Ele deixou a carceragem após o STF mudar o entendimento sobre a execução de penas antes do trânsito em julgado. Em 2021, o Supremo anulou suas condenações relacionadas à Operação Lava Jato, ao reconhecer que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos.

Em uma conversa de 75 minutos com o The New York Times, Flávio Bolsonaro negou ter recebido ajuda para deixar o Brasil e voltou a questionar a vitória de Lula. O jornal americano apresentou informações que contrariaram suas declarações e destacou a falta de provas das acusações de fraude eleitoral

Notícias ao Minuto | 03:50 – 06/11/2026

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