Homem-Aranha: Um Novo Dia consolida Tom Holland como um ótimo Peter Parker

Tom Holland como Homem-Aranha Sony Pictures/Divulgação

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xiste uma brincadeira antiga entre os fãs do Homem-Aranha de que Tobey Maguire seria o melhor Peter Parker, enquanto Andrew Garfield ocuparia o posto de melhor Homem-Aranha. Depois de quatro filmes como protagonista do Universo Cinematográfico da Marvel, Tom Holland parece finalmente garantir seu lugar nos dois lados dessa história.

Atenção: esta resenha contém spoilers de Homem-Aranha: Um Novo Dia, incluindo revelações sobre a personagem de Sadie Sink e o final do filme.

Homem-Aranha: Um Novo Dia começa exatamente do ponto em que Sem Volta Para Casa deixou o público: Peter está sozinho, esquecido por todos e tentando sobreviver às consequências da própria decisão. MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) seguiram suas vidas sem qualquer lembrança dele e estão se formando na faculdade enquanto o herói transformou o combate ao crime em uma ocupação de tempo integral.

Sua rotina se resume a salvar Nova York, acompanhar escondido as redes sociais dos antigos amigos e levar flores ao túmulo da Tia May. Não existe mais faculdade, vida social ou qualquer plano para o futuro. Peter abandonou completamente a própria identidade para viver apenas como Homem-Aranha e seu corpo começa a cobrar essa escolha.

Quando Peter Parker desaparece

A principal sacada do filme é transformar o conflito emocional do protagonista em algo físico. Peter passa a sofrer um verdadeiro burn-out com fortes dores de cabeça, sentidos aguçados de maneira insuportável e crises de agressividade que não consegue controlar. Seus lançadores mecânicos deixam de funcionar e, pela primeira vez nessa versão do personagem, as teias começam a sair diretamente de seus pulsos.

A referência aos filmes de Tobey Maguire rende alguns momentos divertidos, mas não está ali apenas como fan service. Quanto mais Peter tenta reprimir sua parte humana, mais seu organismo se torna aranha. A transformação funciona como uma representação bastante direta do que acontece quando ele decide ignorar o luto, a solidão e tudo aquilo que sente.

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Com a ajuda de Bruce Banner (Mark Ruffalo), Peter desenvolve uma espécie de regulador para controlar as alterações. O aparelho, porém, também representa sua tentativa de separar duas partes que nunca deveriam ter sido tratadas como inimigas: Peter Parker e Homem-Aranha.

É nesse conflito que Tom Holland encontra sua atuação mais completa como o personagem. Ele ainda entrega o humor, a agilidade e o carisma necessários nas cenas de ação, mas também sustenta um Peter exausto.

Uma nova Jean Grey chega ao cinema

Pois é, a gente avisou que esse texto tinha spoiler! Enquanto tenta controlar o próprio corpo, o herói investiga uma força misteriosa capaz de dominar a mente das pessoas e saltar de uma vítima para outra pelas ruas de Nova York. As sequências em que essa presença atravessa multidões estão entre as mais criativas do filme.

A responsável pelos ataques é Jean Grey, apresentada no MCU com a interpretação de Sadie Sink. Inicialmente, Peter acredita que a mutante está tentando destruir o Departamento de Controle de Danos, instituição que promete acolher e orientar pessoas com habilidades especiais. Como era de se esperar em uma história de origem envolvendo um momento dos X-Men, a verdade é bem menos heroica.

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A trama oferece apenas uma primeira amostra do preconceito que acompanha os mutantes: famílias que rejeitam os próprios filhos, instituições que fingem protegê-los e cientistas que enxergam seus corpos como materiais para testes.  Sadie Sink consegue equilibrar muito bem a raiva e a fragilidade da personagem.

Uma fala de MJ é de partir o coração

No filme, MJ acaba descobrindo a identidade do Homem-Aranha e encontra uma carta que Peter ensaiou entregar a ela durante anos. A conversa entre os dois evita a solução mais fácil. Ela entende que a pessoa que era antes do feitiço amava Peter e construiu diversas lembranças ao lado dele. Mas aquela versão dela não existe mais. A jovem não recupera magicamente seus sentimentos e deixa claro que não pode amar alguém que sequer conhece.

Zendaya conduz a cena sem transformar a personagem em uma pessoa fria ou insensível. MJ reconhece a dor de Peter, mas não abre mão da própria autonomia para aliviar o sofrimento dele. É um momento devastador justamente porque ninguém está errado.

Participações especiais não roubam o filme

Um Novo Dia está cheio de personagens conhecidos, mas consegue evitar que Peter se torne um coadjuvante dentro da própria aventura. Hulk, Justiceiro (Jon Bernthal) e até Yelena Belova (Florence Pugh), em uma participação rápida, surgem como peças da história do Homem-Aranha, e não como propagandas dos próximos lançamentos da Marvel.

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A parceria entre Peter e Frank Castle é especialmente divertida. Holland e Bernthal criam uma dinâmica que mistura desconfiança, implicância e uma inesperada preocupação entre os dois. O Justiceiro permanece ao lado de Peter em um dos pequenos gestos que ajudam a humanizar o personagem sem mudar sua personalidade bruta.

Destin Daniel Cretton também aproveita as características do Homem-Aranha para criar sequências de ação movimentadas e visualmente inventivas. A direção entende que acompanhar o Aranha atravessando a cidade pode ser tão empolgante quanto vê-lo enfrentando um grande adversário.

Mesmo assim, o filme é mais longo do que precisava. O confronto com Hulk, principalmente, surge em um momento no qual a história começa a perder fôlego. O roteiro também é bastante previsível. Desde o início, fica evidente que o Departamento de Controle de Danos não é tão bem-intencionado quanto parece e que Jean possui motivos reais para atacá-lo. As revelações não surpreendem, mas ainda funcionam porque o interesse maior está nas jornadas emocionais de Peter e Jean, e não no mistério.

Peter não precisa escolher entre o homem e a aranha

Na batalha final, o estabilizador de Peter é destruído. Ele precisa fazer aquilo que evitou durante todo o filme: aceitar que Peter Parker e Homem-Aranha são a mesma pessoa. Quando Jean finalmente consegue entrar na mente dele, encontra uma lembrança da Tia May.

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A conversa permite que Peter e Jean reconheçam a própria dor. Os dois perderam pessoas importantes, foram abandonados e tentaram transformar o trauma em combustível para continuar. Isso, claro, não significa que precisam permanecer presos ao pior momento de suas vidas.

Depois de passar anos cercado por bilionários, feiticeiros e diferentes versões de si mesmo, o Homem-Aranha de Tom Holland finalmente ganha uma história que pertence a ele.

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