‘Hazel Eyes’ mostra Sam Smith cantando um amor que finalmente deu certo

Sam Smith na capa de 'Hazel Eyes' Universal Music/Divulgação


S

am Smith está vivendo uma paixão. Daquele tipo em que basta olhar para os olhos da pessoa amada para enxergar folhas de outono, brisa de verão e flores no inverno. É dessa fase da vida que nasce Hazel Eyes, quinto álbum de estúdio de Sam, lançado nesta sexta-feira (21).

E existe algo genuinamente interessante nisso. Por boa parte da carreira, Sam Smith transformou corações partidos, amores impossíveis e relações desequilibradas em matéria-prima para algumas das maiores sofrências pop da última década.

Agora, pela primeira vez, o ponto de partida é um amor correspondido. O disco acompanha os primeiros anos do relacionamento com o estilista Christian Cowan — sim, o dono dos olhos cor de avelã do título — e começa com uma música cuja primeira metade foi escrita antes mesmo do primeiro encontro do casal.

O problema é que estar feliz no amor talvez seja ótimo para a vida pessoal, mas não garante automaticamente 12 músicas inesquecíveis.

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Depois de Gloria, de 2023, com os hits dançantes Unholy, I’m Not Here to Make Friends e uma estética deliberadamente extravagante, Sam faz quase um movimento de 180 graus. Hazel Eyes é violão, cordas, piano, baixo, guitarra, sopros e, principalmente, muito coro.

Sam buscou uma produção mais orgânica, trabalhou com uma equipe recorrente ao longo do projeto e, pela primeira vez, também assumiu crédito na coprodução. Em entrevista ao The Guardian, contou ainda que queria deixar de se preocupar tanto com looks e manter o comercial longe da música.

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E talvez aí esteja tanto a maior qualidade quanto a principal fragilidade de Hazel Eyes: é um disco extremamente seguro da própria identidade. Só que nem sempre essa identidade resulta em algo tão interessante assim.

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“Everlasting Love” abre o disco com Sam estendendo a mão para alguém preso dentro da própria cabeça e fazendo um convite para que essa pessoa se permita viver aquele amor. É bonita, elegante e bem cantada, mas não deixa tanta coisa para trás quando termina.

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A faixa-título resolve melhor essa proposta. Hazel Eyes cresce aos poucos, encontra um refrão realmente bonito. É Sam Smith fazendo aquilo que sabe fazer quase assustadoramente bem: transformar uma declaração romântica simples em algo que soa como se aquela pessoa fosse a única criatura viva disponível na Terra. A imagem poderia facilmente escorregar para o cafona, mas a melodia e, principalmente, a voz carregam a música.

Aliás, esse é um ponto que atravessa o álbum inteiro: a voz de Sam Smith continua absurda. Cristalina nos momentos mais delicados, enorme quando os arranjos crescem e suficientemente expressiva para fazer algumas composições menos inspiradas parecerem mais importantes do que realmente são. Isso acontece, por exemplo, em “Moondance”, parceria com Feist.

My Guy, por outro lado, tem muito mais personalidade. Sam canta sobre descobrir um amor tão seguro que finalmente passa a entender para que servia o coração. É fofinha, cresce com o coral na medida certa e já pode entrar na playlist de casamentos gays ao redor do mundo.

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A partir de When He’s Gone, porém, o romance entra em uma região menos ensolarada. A música fala da dependência e do medo de perder alguém quando a relação começa a machucar, enquanto Thief parte para a traição, o perdão e a desconfiança.

Love Is a Stillness, com pouco mais de dois minutos, funciona quase como um respiro no meio do álbum ao tratar o amor não como tempestade, mas como calmaria. É delicada e acaba justamente quando você começa a entrar nela. Sugar Rush tem uma interpretação vocal deliciosamente teatral e uma energia de cabaré decadente, bordel vintage, luz vermelha e alguém absolutamente prestes a tomar uma decisão questionável (elogio). É uma das poucas faixas em que o disco parece largar a própria elegância por alguns minutos e simplesmente se divertir.

Oh Mother, com o The TwoCity Chorus, encontra personalidade por outro caminho, abraçando completamente o gospel. A figura materna vira símbolo de proteção diante de uma traição e se expande para falar também das famílias construídas dentro da comunidade queer. O conceito é interessante, mas o melhor momento vem mesmo quando o coro toma conta da música e transforma a dor individual em algo coletivo.

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Constant Companion também está entre os destaques, usando imagens de faroeste para falar de uma parceria tão absoluta que existe até a disposição de “enterrar os corpos” ao lado daquela pessoa (mais romântica que isso?). Guitarras e cordas ajudam a construir essa fantasia cinematográfica, que o clipe leva diretamente para um western queer.

Hold On e To Be Free fecham o disco retomando a busca por segurança que atravessa Hazel Eyes. A primeira soa como uma carta de incentivo sobre atravessar as barreiras que construímos para nos proteger. To Be Free faz o contrário: termina tudo de forma crua, com voz e guitarra.

Talvez Hazel Eyes seja um disco mais fácil de respeitar do que de amar. Existe aqui uma coesão que Gloria, por exemplo, não tinha. Do começo ao fim, sabemos exatamente dentro de qual universo estamos: tons terrosos, instrumentos orgânicos, corais, Nova York, amor, vulnerabilidade e a sensação de ter encontrado um lar em outra pessoa. Sam chegou a contar em diversas entrevistas que criou uma paleta visual em marrom e sépia e estabeleceu que qualquer música precisava caber naquele mesmo mundo para entrar no álbum. Dá para ouvir esse cuidado.

Mas Gloria, mesmo mais bagunçado, era um disco melhor. Tinha picos mais altos, músicas com identidades mais fortes e momentos que pareciam existir independentemente do conceito geral. Hazel Eyes é muito mais redondo, só que essa uniformidade cobra seu preço: depois de tantos violões, cordas, crescimentos dramáticos e coros, algumas faixas começam a se confundir.

Hazel Eyes, My Guy, Sugar Rush e Constant Companion são as que mais escapam desse efeito. To Be Free e Hold On cumprem bem seus papéis. O restante varia entre o agradável e o esquecível. Depois de anos em que a carreira pareceu alternar entre atender expectativas, disputar hits e reagir ao olhar do público, Sam soa aqui como alguém que simplesmente decidiu fazer as músicas que queria cantar naquele momento sem precisar se provar.

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