Governo dos EUA determinou que Flávio Bolsonaro fizesse alteração em carta de pronunciamento, dizem colunistas

Flávio Bolsonaro, EUA, Donald Trump
Donald Trump afirmou, após as eleições, que tem uma boa relação com Lula. (Foto: Getty)

O governo dos Estados Unidos determinou ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial, que  ele retirasse de sua carta de pronunciamento o trecho em que se declarava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. A informação foi divulgada pela colunista Mariana Sanches, do UOL, por Valdo Cruz, comentarista de política e economia da GloboNews, e por Patrícia Vasconcellos, colunista do SBT News.

Segundo os relatos, a formulação gerou preocupação em Washington por poder sugerir que os norte-americanos reconheciam o parlamentar como presidente eleito, o que poderia comprometer as relações diplomáticas com o governo brasileiro.

A informação foi publicada inicialmente pela colunista Mariana Sanches, do UOL, e confirmada por diplomatas que acompanharam os acontecimentos. Segundo assessores do Departamento de Estado americano ouvidos pelo comentarista, a declaração poderia ser interpretada como um sinal de que os Estados Unidos haviam acolhido a autoproclamação de Flávio Bolsonaro. Esse entendimento, por sua vez, poderia ser visto como um rompimento diplomático com o governo brasileiro.

Aliados do senador afirmaram que a alteração foi apenas um ajuste no texto divulgado inicialmente. Diplomatas ouvidos por Valdo Cruz, no entanto, disseram que a mudança ocorreu após o governo do presidente Donald Trump tomar conhecimento do conteúdo da carta.

A administração americana autorizou a entrada de Flávio nos Estados Unidos e a concessão de visto humanitário para ele e seus familiares. Segundo os relatos, porém, receber o senador no país não significava reconhecê-lo como presidente eleito. Essa possibilidade não estaria nos planos do governo Trump.

Apesar das críticas ao processo eleitoral brasileiro e das suspeitas levantadas sobre a votação, Trump tem elogiado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e declarado que gosta do petista.

Flávio Bolsonaro, EUA, Donald Trump.
Donald Trump afirmou, após as eleições, que tem uma boa relação com Lula. (Foto: Getty)

A coluna de Patrícia Vasconcellos, do SBT News, também relatou o incômodo nos bastidores de Washington. Segundo a jornalista, um integrante da administração Trump teria comentado que apresentar-se como “presidente de fato” do Brasil não era algo desejado pelo governo norte-americano. A presença da família Bolsonaro em território americano vinha sendo discutida internamente diante da necessidade de equilibrar o caso com a relação bilateral entre os dois países.

Questionado diretamente sobre a declaração de Flávio, Trump evitou comentar o conteúdo da carta. “Bem, não vou comentar isso, mas sei que demos autorização para que ele entrasse no país, então vamos ver. Mas não vou me envolver”, afirmou.

O presidente americano também voltou a criticar o tratamento dado à família Bolsonaro. “Foi uma eleição muito estranha, isso é certo. Achei que eles foram tratados de maneira muito injusta”, disse. Trump acrescentou que não tomou partido na disputa eleitoral, mas que se manifesta quando considera que algo está errado.

O que mudou na carta de Flávio Bolsonaro?

Na primeira versão do documento, divulgada na quarta-feira (28), Flávio afirmou que se dirigia ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. O senador também questionou o resultado da eleição, alegou fraude sem apresentar provas e declarou que passaria a liderar a oposição a partir dos Estados Unidos.

Pouco depois, a publicação inicial foi apagada e substituída por uma nova versão. No texto atualizado, as expressões “verdadeiro presidente eleito” e “presidente eleito” deram lugar a “líder do Brasil” e “líder”.

Na carta, Flávio agradeceu a Trump e ao presidente da Argentina, Javier Milei, e afirmou estar em território americano com a família e “em segurança”. O senador também declarou que não havia fugido do Brasil e que pretendia se dirigir regularmente aos brasileiros nos próximos dias, além de apresentar uma estratégia para mobilizar a oposição e o que descreveu como o “imenso apoio popular” do grupo.

Outra mudança presente foi o brasão utilizado na primeira versão. O brasão do primeiro arquivo trazia a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, acompanhada da data de 15 de novembro de 1889. A imagem foi substituída no segundo documento compartilhado pelos aliados do senador nos Estados Unidos, pelo atual brasão da república federativa brasileira.

Flávio Bolsonaro carta, EUA
No brasão, “Brazil” aparecia escrito com “Z”. (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

O documento também contestou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou em duas horas o período de votação no domingo (25). A extensão do horário havia sido solicitada tanto pela coligação de Lula quanto pela campanha de Flávio Bolsonaro, diante de problemas no transporte público de eleitores e de condições climáticas adversas.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pouco mais de 34 mil votos foram registrados depois das 17h. Lula encerrou a disputa com uma vantagem de 4,43 milhões de votos sobre Flávio. O tribunal confirmou a vitória do petista e afirmou que o processo eleitoral ocorreu com segurança e transparência, sem fraudes ou inconsistências capazes de comprometer o resultado.

O PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado proclamado pelo TSE, embora tenha defendido que os questionamentos apresentados fossem esclarecidos pela Justiça.

Coletiva de Flávio Bolsonaro nos EUA foi cancelada

A imprensa brasileira e estrangeira aguardava uma manifestação de Flávio sobre seus planos nos Estados Unidos. Uma entrevista coletiva que havia sido planejada para esta quinta-feira (29), em Miami, chegou a ser anunciada, mas acabou cancelada durante a tarde de quarta-feira (28).

Após a confirmação do cancelamento, uma declaração de três páginas foi enviada a veículos de comunicação brasileiros e estrangeiros, em versões traduzidas para diferentes idiomas. Foi nesse documento que a formulação sobre o senador ser o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” apareceu inicialmente e, minutos depois, foi substituída pela referência a ele como “líder do Brasil”.

Com informações do Portal Hugo Gloss

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