SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O governo da França anunciou uma nova noite de toques de recolher nesta terça-feira (20) em cidades afetadas pela onda de violência dos protestos no último fim de semana, enquanto os tribunais começaram a julgar os detidos durante os distúrbios.
As autoridades tentam retomar o controle da situação e demonstrar que aprenderam com as falhas de segurança que deixaram áreas de Paris, Marselha, Lyon e outras cidades vulneráveis a confrontos, incêndios e saques.
O caos de sábado (17) está entre os episódios mais graves de violência nas ruas da França nos últimos anos. Imagens de edifícios públicos incendiados e lojas saqueadas circularam pelo mundo, levando países como Estados Unidos, China e Alemanha a recomendar vigilância redobrada a seus cidadãos em território francês.
As autoridades foram criticadas por mobilizar um efetivo policial insuficiente para conter os distúrbios. Na segunda (19), foram decretadas restrições de circulação no período da noite em bairros de Paris, Lyon, Bordeaux, Lille e Nice.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou, em publicação na rede social X, que os toques de recolher poderão ser ampliados “onde a situação exigir” e que as medidas contribuíram para a tranquilidade desta madrugada.
Na capital, a presença policial e o sobrevoo de helicópteros marcaram a noite. As restrições não devem afetar a partida da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Barcelona, disputada nesta terça em Paris, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
O toque de recolher oferece ao governo uma trégua após semanas de manifestações que pressionaram a polícia e as autoridades públicas. Os protestos começaram com mobilizações de estudantes do ensino médio contra a queda da qualidade do ensino e a deterioração das escolas, mas se ampliaram e passaram a refletir a insatisfação com a alta dos preços e a piora dos serviços públicos.
A crise também aprofundou a tensão política no país, a cerca de seis meses da eleição presidencial que definirá o sucessor de Emmanuel Macron, que não pode concorrer à reeleição. Candidatos da ultradireita e da ultraesquerda lideram a disputa pelo pleito.
A Justiça começou a processar os detidos durante os protestos. Das mais de 2.500 pessoas detidas, 123 estão presas, seja à espera de julgamento ou já cumprindo as primeiras condenações, informou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, à rádio Europe 1.
Vários dos detidos à margem das manifestações, antes da escalada de violência de sábado, compareceram à Justiça na segunda-feira. Os envolvidos nos episódios mais graves serão ouvidos a partir desta terça-feira.
Um dos primeiros condenados foi Manuel, trabalhador temporário de 21 anos que viajou do centro da França até Paris para comemorar o aniversário com a namorada. Ele afirmou que a viagem ocorreu por impulso e que pretendia realizar um churrasco. Em uma revista antes da manifestação, porém, os policiais encontraram em sua bolsa garrafas de vidro, trapos e um isqueiro -materiais que, segundo o promotor, poderiam servir para fabricar um coquetel Molotov.
Dois vídeos recuperados de celulares colocaram em dúvida a versão do jovem. As gravações mostram Manuel tentando lançar artefatos incendiários. Segundo a acusação, ele também havia perguntado ao ChatGPT, dias antes, “Como se proteger de um coquetel Molotov?”. Sem antecedentes criminais, foi condenado a dois meses de prisão, pena que deverá cumprir imediatamente.
As autoridades atribuem parte dos distúrbios a pequenos grupos de extrema esquerda que atacariam símbolos do Estado. Os saques, por sua vez, são atribuídos a criminosos oportunistas.
Para identificar os responsáveis, a polícia passou a analisar vídeos publicados nas redes sociais e imagens de câmeras de segurança. Na segunda-feira, Lecornu ironizou os suspeitos que teriam participado dos saques sem cobrir o rosto, chamando-os de “gênios”.
O toque de recolher dá ao governo uma trégua após semanas de protestos que esgotaram a polícia e as autoridades públicas. Mas novos atos estão previstos para o próximo sábado.
O principal sindicato estudantil francês, a Unef, prometeu manter a pressão sobre Macron e seu governo para exigir mudanças no sistema educacional. Separadamente, o movimento Coletes Amarelos convocou protesto em diferentes locais contra a disparada dos preços dos combustíveis.
O grupo, que perdeu força consideravelmente nos últimos anos, surgiu em 2018, durante o primeiro mandato de Macron, em reação aos planos de aumentar os impostos sobre a gasolina. Bloqueios semanais de vias e episódios de violência nas ruas continuaram por meses.
Os principais sindicatos trabalhistas franceses, entre eles a CGT, uma das forças tradicionalmente mais influentes na organização de grandes manifestações, não aderiram aos apelos para novos protestos no sábado.
O governo agora tenta impedir que a insatisfação social se transforme novamente em uma onda de violência. Embora as restrições noturnas tenham reduzido a tensão imediata, a convocação de novas manifestações mantém a pressão sobre as autoridades.




