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hovia bastante em São Paulo e faltava pouco para Milo J subir ao palco da Audio. Mesmo assim, a fila do lado de fora da casa ainda estava lotada. Entre capas de chuva e taxistas perguntando de quem era o show, uma coisa ficava evidente antes mesmo do espetáculo começar: o argentino de 19 anos já construiu por aqui um público bem maior do que talvez parecesse para quem ainda não tinha entrado em sua bolha.
Lá dentro, na grade, uma criança acompanhada da mãe esperava pelo show e, mais tarde, conseguiu levar para casa a folha com a setlist. Perto dali, uma fã tinha ido vestida com um look inspirado em um dos integrantes da Agarrate Catalina, murga uruguaia que participou do Tiny Desk de Milo lançado em abril. Ao lado da CAPRICHO, dois jovens contavam que tinham vindo de Porto Alegre só para vê-lo; outro espectador dizia ter descoberto o cantor justamente pelo vídeo da NPR e, desde então, não parado mais de ouvi-lo.
Não era exatamente uma estreia tímida no Brasil. No sábado (12), Milo havia se apresentado no Palco Supernova do Rock in Rio. No dia seguinte, encarou a primeira de duas datas esgotadas na Audio, em São Paulo, dentro da programação do MUCHO! Ciudad Sonora. A segunda acontece nesta terça-feira (15), fechando uma sequência de três shows brasileiros em apenas quatro dias.
Quando Bajo de la Piel começou, a dimensão desse público ficou ainda mais clara. Bastaram as primeiras notas para que a plateia cantasse em um volume que se manteve durante praticamente toda a música. E não só nos refrões. Versos em espanhol e rimas rápidas eram acompanhados por boa parte da casa.
É uma resposta que chama atenção dentro de um mercado em que fenômenos da música em espanhol nem sempre encontram no Brasil a mesma proporção de público que conquistam em outros países. Em 2024, por exemplo, Karol G, já uma das maiores estrelas latinas do mundo, disse à Billboard Brasil que precisava “começar do zero” por aqui. Em fevereiro deste ano, o tamanho da exposição ainda fez diferença até para Bad Bunny: após seu show no intervalo do Super Bowl, as reproduções de seu catálogo no Spotify brasileiro cresceram 426%.
Do trap ao folclore latino-americano
Nascido em Morón, na província de Buenos Aires, Camilo Joaquín Villarruel começou a ganhar espaço na cena urbana ainda adolescente. Seu som parte do rap e do trap, mas há tempos deixou de caber somente nesses gêneros: folk, baladas e ritmos tradicionais argentinos passaram a ocupar cada vez mais espaço em sua música.
O Tiny Desk lançado pela NPR Music em 30 de abril talvez seja a representação mais evidente dessa mistura. Em pouco mais de 16 minutos, Milo aparece cercado por charango, tiple, violino, flauta, percussão e instrumentos de sopro andinos, além das vozes da Agarrate Catalina. O repertório ainda passa por músicas como Recordé, cuestiones, Niño e a própria Bajo de la Piel.
Essa mesma lógica cresce quando vai para o palco. Em vez de simplesmente reproduzir as bases dos discos, o show transforma as faixas com uma banda numerosa, arranjos vocais, cordas, sopros e percussões que colocam o trap lado a lado com sonoridades ligadas ao folclore argentino.
Jota.pê, que acompanhou a apresentação em São Paulo, contou à CAPRICHO que já ouvia Milo antes da recente explosão do argentino no Brasil. “Fui ouvir o disco e me viciei no disco inteiro. Com certeza vai ser uma das minhas grandes referências para os meus próximos trabalhos”, afirmou.
Para o brasileiro, a força do trabalho de Milo também está no que ele escolhe dizer. “Além de música boa, ele tem um texto incrível. Ele fala de questões muito sensíveis no mundo e na Argentina, que infelizmente é um país com um histórico racista muito grande”, destacou.
Parte desse discurso passa diretamente por identidade. Milo já se definiu publicamente como um artista marrom e usa o termo para reivindicar uma Argentina e uma América Latina que não se resumem à imagem branca frequentemente associada ao país. Essa discussão também atravessa sua música e a maneira como recupera referências culturais e sonoras de diferentes partes do continente.
Estamos olhando mais para os vizinhos?
É essa mistura que chama a atenção de Felipe Gonzalez, comunicador, produtor, curador cultural e um dos criadores do MUCHO!. Para ele, Milo representa muito do que o projeto tenta aproximar do público brasileiro.
“O Milo traz esse diálogo entre o folclore e as novas músicas urbanas do nosso continente, desde o trap, o rap, o folclore, o rock, o pop. Acho que ele consegue condensar isso de uma maneira muito fluida, muito natural”, disse à CAPRICHO.
Felipe também enxerga uma dimensão política nessa escolha. “O maior, melhor e mais potente discurso político que tem é a reivindicação da terra, das nossas raízes, do nosso folclore”, afirmou. “Quando alguém que está começando a carreira tem essa percepção, a gente vê o tamanho que o artista tem.”
Criado em 2017 para aproximar o público brasileiro da produção musical contemporânea da América Latina, o MUCHO! ampliou sua atuação neste ano com o Ciudad Sonora, uma programação de shows espalhados por diferentes casas de São Paulo.
E a fila na chuva talvez seja uma imagem simples, mas eficiente, para entender o momento. Milo ainda está fazendo seus primeiros shows por aqui. Mesmo assim, havia gente cruzando o país para vê-lo, reproduzindo figurino de seu Tiny Desk, levando crianças para a grade e cantando rimas inteiras de volta para o palco.
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