Ashley Callingbull, vencedora do Miss Universo Canadá 2024, interrompeu a etapa final do concurso na última sexta-feira (8) para denunciar o que classificou como apropriação cultural de elementos tradicionais de povos indígenas em fantasias usadas por duas candidatas. A manifestação ocorreu diante do público, pouco antes do anúncio das 20 semifinalistas, e levou as participantes envolvidas a se desculparem posteriormente.
Callingbull, que é uma mulher Plains Cree da Nação Enoch Cree e foi a primeira indígena das Primeiras Nações a conquistar o título de Miss Universo Canadá, era uma das apresentadoras da competição. Segundo a CBC Indigenous, ela pediu para que a música fosse reduzida e interrompeu o diretor do concurso, Sonny Borelli, antes que ele anunciasse as classificadas.
“Eu queria reconhecer uma coisa”, iniciou Ashley. Em seguida, ela relembrou a importância de ter sido a primeira mulher indígena a conquistar a coroa. “Foi uma honra tão grande. Um dos maiores sonhos da minha vida era vir aqui e realizar isso”, afirmou.
A ex-miss então explicou o motivo da intervenção. “Às vezes, erros são cometidos. Durante esta semana, eu queria reconhecer isso. Durante a competição nacional, na competição de fantasias, houve apropriação cultural direcionada aos povos indígenas. E eu vi isso imediatamente. Eu não estava lá. Apenas vi em vídeo”, declarou.
Callingbull contou que, assim que tomou conhecimento dos figurinos, entrou em contato com Borelli e com a organização do Miss Universo Canadá. Segundo ela, a equipe ouviu suas preocupações e se mostrou disposta a rever a situação. “A minha primeira reação foi chamar o time do Miss Universo Canadá. E imediatamente eles responderam, imdediatamente me ouviram. Eles ouviram exatamente o que nós precisamos fazer para mudar isso, porque nós estamos vivendo em 2026 e já deveríamos saber disso. E como resposta, é importante nos educar, ouvir e entender, para seguir em frente de uma forma boa”, completou.
Assista ao trecho:
A situação ocorreu durante a etapa de fantasias nacionais, realizada em 4 de agosto, como parte das fases preliminares do concurso. De acordo com imagens da transmissão obtidas pela CBC Indigenous, Karisa Haverkamp entrou na passarela usando um cocar com penas nas cores turquesa, preto e branco, além de uma pequena marca de mão vermelha pintada no rosto.
Já Jasleen Kaily apareceu com um figurino de duas peças, franjas marrons nas pernas, duas tranças e mukluks, tipo de bota tradicional usada por diferentes comunidades indígenas. A roupa também trazia um recorte em formato de folha de bordo nas costas.
Veja:
Miss Universe Canada contestants forced to apologize after backlash for wearing indigenous costumes.
Two contestants from the beauty pageant have been made to apologize after they were accused of ‘racism’ and ‘cultural appropriation.’
“If any costume caused offence, hurt, or… pic.twitter.com/SrfM4ZjVyl
— Oli London (@OliLondonTV) August 13, 2026
Após a repercussão, as duas candidatas se manifestaram sobre os trajes. Karisa publicou um pedido de desculpas no Instagram e reconheceu que a fantasia poderia ter causado “dor e ofensa” à comunidade indígena.
“Reconheço e entendo que minha roupa para a fantasia nacional causou dor e ofensa às pessoas da comunidade indígena”, escreveu. Ela também afirmou que se orgulha da própria bisavó e de sua trajetória de resistência.


Jasleen, por sua vez, publicou uma mensagem que posteriormente expirou na rede social. Segundo a CBC Indigenous, ela afirmou que sua intenção “nunca foi desrespeitar ou deturpar a cultura indígena”.
Em entrevista à publicação, a candidata explicou que teve dificuldades para interpretar inicialmente a proposta da competição de fantasias. “O melhor a fazer é representar os povos indígenas porque eles estão no Canadá há mais tempo e, no fim das contas, esta é a terra deles”, afirmou.
Jasleen também disse que não recebeu orientações específicas sobre apropriação cultural. “Eles [Miss Universo Canadá] realmente não tinham diretrizes sobre apropriação ou qualquer coisa que pudéssemos ou não fazer”, declarou.


Em comunicado, a organização do Miss Universo Canadá reconheceu a repercussão dos figurinos e afirmou que não pretendia causar ofensa.
“Recebemos recentemente comentários sobre algumas das fantasias nacionais apresentadas em nossa competição. Queremos abordar isso de forma direta e sincera: se alguma fantasia causou ofensa, dor ou mal-entendido, saibam que essa nunca foi nossa intenção”, afirmou a organização.
O concurso também destacou que a etapa tem como objetivo celebrar “criatividade, herança e identidade”, mas reconheceu que cada figurino exige “cuidado profundo, respeito e avaliação contínua”.
A organização agradeceu ainda a Callingbull pela orientação sobre como lidar com o episódio e informou que pretende criar um Guia de Fantasias, com regras específicas para as próximas edições, a fim de evitar novos casos semelhantes.
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