Carly Rae Jepsen faz da paixão um mundo à parte em ‘Day and Night’

Carly Rae Jepsen Divulgação/Divulgação


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star apaixonada pode dar vontade de fechar a porta e esquecer que o resto do mundo existe. Na música de Carly Rae Jepsen, também rende vontade de abrir as janelas, aumentar o som e transformar qualquer sentimento em um acontecimento.

Em Day and Night, que chega nesta sexta-feira (18), essas duas maneiras de viver o amor dividem espaço. Ao longo de 24 faixas, a cantora encontra inspiração tanto na rotina compartilhada quanto naquele desejo que parece grande demais para caber dentro de casa.

O álbum duplo acompanha uma fase marcada pelo casamento e pela maternidade, mas também explora as contradições de estar apaixonada. Há espaço para insegurança, saudade, ressentimento e para a dificuldade de aceitar que uma relação boa também pode despertar medo.

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A divisão organiza essas experiências em dois ambientes: Day se aproxima de instrumentos ao vivo e do pop psicodélico dos anos 1970; Night investe em sintetizadores e batidas eletrônicas. Os sentimentos, porém, circulam livremente entre os dois.

Day: entre o conforto e o frio na barriga

After All abre o projeto com leveza. O segundo single da era funciona como uma boa apresentação desse cenário solar. Ao lado de Habits of Creatures, ajuda a estabelecer uma ideia que atravessa o trabalho: repetir pequenos gestos com alguém pode ser tão apaixonante quanto a novidade de um primeiro encontro.

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É quando esse universo ganha proporções maiores que a primeira metade entrega seus melhores momentos. Versailles e On Wires formam a sequência mais forte do álbum. Na primeira, o arranjo cresce aos poucos antes de desacelerar e dar espaço a um refrão de entrega imediata. A fantasia de excessos em um palácio francês tem humor, sensualidade e uma vontade de sentir tudo intensamente, inclusive o que pode dar errado.

Burning Heart também entra nessa lista de acertos. Com um crescimento que convida a se jogar e um solo de saxofone que merece destaque, a faixa poderia acompanhar a cena decisiva de um filme coming-of-age. Existe ali uma conexão com a exuberância da bíblia pop EMOTION, agora atravessada pela ideia de construir um futuro a dois. A referência a Thelma & Louise acrescenta perigo à promessa romântica. Seguir juntos pode ser libertador, mas exige aceitar a possibilidade de perder o controle.

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Por isso, a mudança para Wild Child funciona tão bem. Depois de tamanha expansão, voz e violão aproximam a escuta de uma confissão. A canção sugere o medo de ferir alguém justamente porque aquela relação importa muito. Quem nunca já se perguntou se seria “too much” demais para outra pessoa?

Essa vulnerabilidade impede que Day fique preso a uma única imagem de romance. Good Fine Alright encontra graça e tristeza na insistência de alguém em dizer que está bem depois de um término. Já o clima de rock indie de Something Tragic acomoda o carinho e a raiva que podem existir ao mesmo tempo por um ex. São mudanças de perspectiva que dão movimento ao disco sem romper sua unidade.

O problema aparece quando a delicadeza deixa de produzir surpresa. Soft, Lonely Side of the Bed e Just a Little Walk on the Moon têm menos força para permanecer na memória e enfraquecem a reta final dessa primeira metade. Há detalhes interessantes nos arranjos, mas, depois de tantos momentos em que produção e emoção se impulsionam, algumas faixas parecem apenas prolongar o projeto.

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Night: euforia e saudade na pista

A chegada de Night renova o fôlego e leva o disco para a pista de dança. Never Let a Good Thing Die abre a porta para a festa, e músicas como Amalfi Coast e Patience Power Passion apostam na repetição para fazer você se jogar, enquanto as letras deixam escapar sentimentos que podem bater entre uma dança e outra.

O ponto de catarse é Don’t Leave Me on the Dance Floor, que aproxima essa metade da liberdade dançante de The Loveliest Time. O pedido para não ser abandonada ganha outra dimensão em meio à euforia. A pista vira um lugar onde um casal tenta suspender a briga, recuperar a proximidade e descobrir se ainda consegue dançar junto.

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Motivation, por sua vez, cresce dentro do conjunto. O single ganha mais sentido nesse ambiente de clube enquanto aborda a tensão entre pertencer a uma família e preservar a própria autonomia. No clipe, diferentes configurações familiares, com participações como a de Gigi Goode, ampliam essa conversa para a ideia de família escolhida — os vínculos de afeto e acolhimento construídos para além do parentesco, tão importantes para muitas pessoas LGBTQIA+. É uma escolha que também conversa com a relação de Carly com seus fãs.

A noite também tem suas pausas. You Don’t Know How It Feels diminui a intensidade sem abandonar a dança, e Near or Far explora um house mais contido, que ganha movimento depois do refrão e oferece uma das experiências mais interessantes do projeto. Já That’s Just Me se destaca pela delicadeza com que trata a separação: desejar a felicidade de alguém não torna mais fácil perceber que essa felicidade já não depende de você.

Ainda assim, a segunda metade também poderia ser mais enxuta. No Labels, I Love You soa genérica em um repertório que tantas vezes encontra personalidade nas estruturas mais simples do pop. No encerramento, Super Sage demora a envolver, mas seu crescimento final recupera parte da força e dá uma boa resolução à viagem.

Com menos faixas, Day and Night provavelmente teria mais impacto. Seus melhores momentos encontram caminhos diferentes para fazer o amor soar urgente e tornam mais perceptíveis os trechos em que o álbum perde força. Ainda assim, Carly continua surpreendendo pela capacidade de encontrar novas possibilidades no assunto que sempre moveu sua música. Há canções sobrando, mas também motivos suficientes para querer ficar mais um pouco no mundo que ela construiu.

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