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penas 1,6 milhão de adolescentes entre 16 e 17 anos estão aptos a votar nas eleições deste ano, ou seja, menos de 30% dessa população. Sete em cada dez jovens que poderiam ter participado escolheram não participar. E eu entendo. Quando a política não olha para você, por que você olharia para ela? Mas hoje é 11 de outubro, o Dia das Meninas. E eu precisava escrever essa coluna.
Trabalho no Instituto Liberta, organização dedicada à proteção de crianças e adolescentes contra a violência sexual. E o que eu vejo todos os dias é que a política está no corpo de vocês – queiram ou não, votem ou não. Não é abstrato. É concreto. É o que acontece quando quem governa decide que crianças vítimas de estupro precisam enfrentar mais burocracia para acessar seus direitos.
Em junho deste ano, o Senado derrubou a resolução do Conanda que garantia um fluxo humanizado de atendimento para meninas vítimas de violência sexual. Em uma votação de 1 minuto e 40 segundos, com apenas sete senadores presentes. O direito ao aborto legal em casos de estupro continua existindo, mas o caminho para chegar até ele ficou mais difícil. Para uma menina de 11 anos. Para uma adolescente de 13.
Isso é política. No corpo das meninas.
A educadora e escritora Carolina Delboni escreveu uma frase que não saiu da minha cabeça: os jovens não abandonaram a política, a política os abandonou. É verdade. E os dados confirmam: 26% das meninas brasileiras entre 13 e 17 anos disseram já ter vivido alguma situação de violência sexual. Um quarto delas. E ainda assim, quem governa encontrou tempo para dificultar o atendimento dessas meninas, mas não para garantir que elas estivessem protegidas.
Existe mais uma coisa que precisa ser dita. Um dos candidatos a vice-presidente nesta eleição foi alvo de um pedido da Polícia Federal para abertura de investigação por suspeita de estupro de vulnerável contra uma adolescente que teria 13 anos à época. Houve a suspeita de que a violência teria resultado em gravidez. O candidato nega as acusações e o pedido de investigação foi arquivado pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, no último dia 6. Mas a pergunta que fica é simples: como uma chapa que se apresenta como defensora da família escolhe como vice alguém com uma denúncia tão grave de violência contra uma criança?
Não estou dizendo em quem votar. Estou dizendo o que observar.
Existe uma diferença entre quem defende a vida desde a concepção, mas dificulta o acesso ao aborto legal para uma menina estuprada, e quem trata saúde sexual e reprodutiva como direito. Existe uma diferença entre quem derrubou o Conanda e quem o defendeu. Entre quem acredita no ECA Digital e quem o ignora. Entre quem fala de proteção e quem realmente protege.
Essas diferenças têm consequências reais. No corpo das meninas. Na vida das adolescentes. No trabalho de quem, como eu, tenta chegar antes que a violência aconteça.
Dia 11 de outubro é o Dia das Meninas. Este ano, a data caiu no meio de uma eleição. E não foi por acaso que eu quis juntar os dois.
Se você tem 16 ou 17 anos e ainda não tirou seu título, guarde essa reflexão para as próximas eleições. E se você tem alguém em casa que vai votar no segundo turno, converse. Conte o que você sabe. Porque o que está em jogo não é abstrato.
É o corpo de vocês.
Com informações da Capricho




