Um estudante de medicina de Pernambuco denunciou ter sido vítima de racismo após publicar fotos de seu ensaio de formatura nas redes sociais. Nas imagens, João Lucas Brito, de 24 anos, aparece de jaleco, com óculos escuros prateados e segurando um livro do grupo Racionais MC’s. Ao g1, ele explicou o significado por trás das fotos e expôs as mensagens agressivas que recebeu.
“Aqui quem fala é Dr. João Lucas Brito, mais um sobrevivente: sei muito bem de onde eu venho e valorizo diariamente os que vieram antes de mim pra tornar esse sonho possível. Não ando só, pois do povo eu nasci e médico com o povo eu serei!”, dizia a legenda da publicação. O jovem ainda comemorou ser o primeiro médico da família.
Os ataques, no entanto, começaram logo depois. “Saudades de quando favelado não entrava em medicina… Bons tempos”, escreveu um perfil. Após outros internautas defenderem o estudante, o usuário voltou a atacá-lo: “Logo mais esse favelado vai estar matando com um carimbo do CRM [certificado do Conselho Regional de Medicina] na mão. Choro pela qualidade da minha classe”. Segundo o portal, o autor do comentário foi identificado como um médico de Brasília.
João nasceu e cresceu na Comunidade do Cardoso, no bairro da Madalena, no Recife, e afirmou que o termo usado para atacá-lo faz parte de sua identidade. “Na cabeça dele, ele achava que aquilo ali ia me atingir. Só que para mim não era um xingamento. Então na mente dele, me chamar de favelado era algo ruim. Só que para mim ser favelado é quem eu sou”, declarou. O jovem cursa o 11º período de medicina na Faculdade Pernambucana de Saúde, onde estuda com bolsa integral do ProUni.


Ele ainda contou que é fã dos Racionais MC’s desde criança, por isso usou o momento para homenagear os artistas. “Eu sempre escutava muitas músicas de Racionais. Pela comunidade Cardoso tocava Racionais, meus primos escutavam Racionais, minhas referências escutavam Racionais. Então, eu escutava Racionais, e eu usava muito a ideia do álbum de ‘Sobrevivendo no inferno’”, explicou. “Esse livro reúne as letras das músicas que sei de cor. Ele sempre ficava na minha prateleira e sempre pensei que, quando fosse tirar a foto de formatura, iria levá-lo comigo por representar muito para mim”, acrescentou.
Antes de chegar à universidade, João estudou com bolsa integral em uma escola particular. Ele contou que o benefício era concedido porque seu pai trabalhava no local como auxiliar de coordenação. “Eu tinha bolsa integral porque a única condição para isso era ser filho de funcionário, e meu pai é, até hoje, auxiliar de coordenação. Lá tive privilégios como ganhar livros de graça, praticar esportes sem pagar nada e contar com uma boa rede de apoio”, relembrou.
Já na faculdade, ele afirmou ter enfrentado preconceito de “alguns colegas específicos”, mas ressaltou que fez amigos no local. “Sempre me senti muito acolhido por professores, funcionários e outros alunos. Tive sorte porque, na minha turma, 10 dos 96 alunos eram do Prouni. Um deles teve nota mil no Enem. O nível é alto”, acrescentou.


Desta vez, João decidiu levar o caso às autoridades e registrou um boletim de ocorrência. A Polícia Civil investiga o caso como injúria praticada no ambiente virtual. O estudante também pretende procurar o Ministério Público de Pernambuco. “Para que essa situação não passe impune, porque a gente sofreu não só questões raciais, como questões de elitismo, questões também de xenofobia, questões também que envolvem as instituições públicas do nosso Estado, e isso é muito grave. Dessa vez não vou deixar passar porque sei que estou representando muita gente que sofreu calada”, declarou ao UOL.
Depois de concluir medicina, João irá ingressar no doutorado em Saúde Integral do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), por meio do programa MD-PhD. Sua pesquisa aborda disparidades étnico-raciais no Brasil: “É um estudo sobre as disparidades étnico-raciais dos nascidos vivos aqui no Brasil. Então, mesmo na minha pesquisa de doutorado, eu ainda continuo trazendo muito do que me representa. […] Não tem como eu ignorar de onde eu venho. Então, uma forma que eu vejo de trazer retorno para minha comunidade é não sendo objeto de estudo, mas, sim, sendo produtor daquele conhecimento”.
Atualmente, ele também cumpre estágio em uma clínica médica no Imip e pretende se especializar em psiquiatria para atuar em sua comunidade.
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