Durante o ato de formalização do pedido de abertura do processo de tombamento do Sítio Histórico do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil, realizado nesta sexta-feira, 08, em Rio Branco, o promotor de Justiça Alekine Lopes dos Santos, do Ministério Público do Acre (MPAC), ressaltou a importância espiritual e cultural do espaço, afirmando que a preservação do local representa um compromisso não apenas com a comunidade acreana, mas com o Brasil e o mundo.
Em discurso emocionado, o promotor destacou que o momento simboliza o reconhecimento da dimensão histórica do Alto Santo e do legado deixado por Mestre Irineu. “A importância desse momento é para o Alto Santo e também para toda a comunidade acreana, a comunidade do Brasil e a comunidade do mundo. Porque nós sabemos que esse lugar aqui é um lugar histórico e talvez nós que estamos mais próximos, muitos de nós, alguns, não tenham a dimensão da historicidade desse local”, afirmou.
Alekine lembrou que, décadas atrás, pouco se falava sobre o Daime ou sobre a ayahuasca, hoje tema de estudos acadêmicos e debates científicos em diversas partes do mundo.
“Antigamente pouco se ouvia falar de Daime, pouco se ouvia falar de ayahuasca, que é um nome que se utiliza no meio acadêmico. Hoje em dia já se fala tanto que já se tem até estudos, leis e tudo a respeito do assunto. E o Mestre Irineu é um pioneiro desse trabalho porque, lá na década de 1930, ele viu que através desse chá poderia modificar a vida das pessoas, transformar comportamentos, entrar no coração das pessoas e modificar a maneira de agir e de ver o mundo”, declarou.
O promotor também destacou a participação fundamental de Madrinha Peregrina Gomes Serra na consolidação da doutrina. “A Madrinha Peregrina, com certeza, fez parte disso, porque estava ali do lado dele. Ele não teria feito todo esse trabalho aqui se ela não estivesse ali, dando apoio”, pontuou.
Em sua fala, Alekine também ressaltou o crescente reconhecimento científico sobre os efeitos terapêuticos da bebida. “É um chá que quem conhece sabe que só traz benefício, se utilizado da maneira correta, com responsabilidade, com alguém que conheça para ensinar. Hoje já se tem pesquisas mostrando o efeito que ele faz na saúde das pessoas, curando, por exemplo, depressão, e com resposta imediata, sem deixar nenhum tipo de dependência”, disse.
Ao citar sua própria experiência, o promotor afirmou integrar uma linha espiritual que também faz uso ritualístico da bebida. “Eu sou de uma linha também que usa o chá, já bebo esse chá há 35 anos, de forma frequente. É uma prova de que ele não deixa ninguém doido nem mata. Pelo contrário, ele faz o bem, é isso que a gente vê”, ressaltou.
Alekine afirmou ainda que a memória de Mestre Irineu tende a se fortalecer com o passar do tempo, o que torna ainda mais necessária a preservação do espaço histórico.“Esse lugar aqui é histórico porque, com o tempo, as pessoas vão querer saber onde o Mestre Irineu morava, como era o lugar em que ele vivia. E o Mestre Irineu é uma pessoa que não vai ser esquecida. Quanto mais o tempo passar, mais as pessoas vão lembrar dele. Ele está marcado na história da humanidade porque foi uma pessoa que iniciou esse trabalho”, afirmou.
Ao encerrar, o promotor destacou a responsabilidade coletiva pela preservação do patrimônio. “Nós que somos brasileiros, que somos acreanos, temos o direito de ter esse patrimônio aqui do nosso lado. Nós somos guardiões disso. Quando alguém chegar de outro lugar e quiser saber onde fica, a gente precisa ter guardado bem esse tesouro para as pessoas virem e conhecerem. Espero que possamos levar adiante esse trabalho e tornar essa área realmente histórica, tombada e reconhecida pelas instituições brasileiras. É um tesouro que chegou até nós e que cabe a cada um preservar”, concluiu.
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Lucas Vitor



