A tragédia ocorrida no Colégio São José, em Rio Branco, onde um adolescente tirou a vida de duas funcionárias, mergulhou a sociedade acreana em um estado de luto e perplexidade. O episódio não é um fato isolado na sociedade brasileira, mas o ápice de uma crise silenciosa que corrói as instituições de ensino: a incapacidade de lidar com a saúde mental e a dinâmica do bullying.
De acordo com o psiquiatra Içami Tiba, cujas lições sobre educação e limites tornam-se cada vez mais urgentes, a imposição de regras é, acima de tudo, uma prova de amor e responsabilidade parental. Em sua obra “Quem Ama, Educa”, o autor esclarece que o limite não se confunde com o autoritarismo; pelo contrário, ele é o alicerce da vida em sociedade, fundamentado no respeito mútuo e na convivência ética entre os cidadãos.
A despeito das investigações em curso sobre as motivações do crime, o histórico de violência nas escolas brasileiras revela um padrão preocupante: o agressor frequentemente emerge de um contexto familiar que negligenciou suas demandas emocionais. O bullying, longe de ser uma trivialidade infantil, configura-se como uma violência psicológica severa que, na ausência de mediação institucional, fomenta um ressentimento devastador.
Quando a instituição de ensino falha em mediar tensões, o ambiente escolar deixa de ser um local de aprendizado para se tornar um cenário de guerra na mente do jovem. No caso de Rio Branco, a agressão direcionada às funcionárias expõe uma ferida exposta: a erosão total da autoridade e o desrespeito àqueles que personificam o cuidado e a instrução, transformando o espaço de ensino em um ‘território inimigo’.
Para Içami, educar exige a coragem de impor limites, um conceito central em seu livro “Quem Ama, Educa”. Ele critica severamente a realidade dos “pais terceirizados” e das escolas que se limitam à transmissão de conteúdo técnico, alertando que o foco exclusivo no intelecto, em detrimento da formação cidadã, compromete o desenvolvimento saudável das novas gerações
Tiba argumentava que a ausência de limites no ambiente familiar ou escolar impede que o adolescente desenvolva resiliência diante das contrariedades, resultando em uma perigosa fragilidade emocional. Sem o repertório necessário para processar o “não”, o jovem transmuta sua baixa tolerância à frustração em episódios de violência, convertendo dor interna em riscos reais à integridade de outros cidadãos. Dessa forma, a escola precisa resgatar a autoridade moral. Isso não significa punição severa, mas presença ativa. O educador deve perceber a mudança de comportamento do aluno antes que o gatilho seja puxado.
É imperativo ressaltar que não se busca atenuar o injustificável: o ato é bárbaro e vitimou inocentes em razão de um sistema profundamente deficiente. Todavia, para evitar que tais tragédias se repitam, urge aplicar o conceito de Educação Sustentável proposto por Tiba, no qual família e escola abandonam o isolamento para atuarem em absoluta sinergia.
Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) mantenha sua validade jurídica, sua aplicação exige uma leitura sintonizada com as transformações da era digital. Em 1990, a “proteção integral”não contemplava riscos contemporâneos como o isolamento em redutos de radicalização online ou a exposição desenfreada às redes sociais. Nesse contexto, a ideia de impunidade pode atuar como um estímulo nocivo em psiques vulneráveis, tornando urgente que família e Estado recalibrem seus papéis. A base moral deve ser construída no lar, funcionando como um filtro essencial para que o jovem processe as adversidades externas sem converter frustração em barbárie.
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