

O
que é preciso para ser uma pop girl? Para Lexie Liu, a resposta não está nas posições das paradas musicais, nos figurinos ou no tamanho de uma turnê. A cantora chinesa parte justamente dessa ideia para construir Pop Girls Club, EP que reúne colaborações com Yves, ex-integrante do LOONA, BAYLI e Isabella Lovestory. Mais do que reunir artistas de diferentes partes do mundo, o projeto propõe uma visão de pop em que não é necessário se encaixar em uma única definição.
“Acho que ser uma pop girl é um estado de espírito”, conta à CAPRICHO. “Tem menos a ver com status, com o que você conquistou ou com o tipo de trabalho que tem. É aquele estado de espírito em que você pode ter sua própria trilha sonora enquanto anda pela rua e se sente como uma pop girl.”
A definição também não está restrita a um gênero. Para Lexie, ela diz respeito à maneira como cada pessoa escolhe se expressar e transformar o próprio cotidiano em algo especial. Mas isso não significa estar constantemente confiante, muito menos ignorar as próprias inseguranças. “Você talvez não se sinta assim 24 horas por dia. Muitas vezes, à noite, está pensando nas suas inseguranças ou entrando em contato com sua sensibilidade. Acho que esse sentimento também é válido.”
Essa liberdade atravessa o novo trabalho, que coloca diferentes identidades artísticas dentro do universo de uma mesma música. A parceria com Yves, em especial, também abre espaço para uma conversa sobre os diferentes caminhos que artistas pop encontram na China e na Coreia do Sul.
Na visão de Lexie, a indústria coreana possui um sistema de formação de estrelas mais estruturado, com trajetórias já estabelecidas pelas quais os artistas precisam competir. Na China, por outro lado, ela percebe menos caminhos previamente definidos. “Definitivamente, há muito mais confusão e liberdade ao mesmo tempo. Acho que essa provavelmente seria a principal diferença.”
De Changsha para São Paulo: a influência do CSS
Se Pop Girls Club reúne diferentes vozes do pop atual, o trabalho anterior de Lexie, TEENAGE RAMBLE, lançado em 2025, ajuda a entender algumas das referências que construíram sua identidade musical. Britney Spears, Lady Gaga, Rihanna e Kesha dividem espaço com influências alternativas, incluindo uma banda brasileira que ocupa um lugar especial na história da cantora: o Cansei de Ser Sexy, ou simplesmente CSS.
Lexie conta que conheceu o grupo enquanto crescia em Changsha, na China. Naquela época, antes de as redes sociais facilitarem tanto o contato com músicas e referências internacionais, suas oportunidades de descobrir determinados artistas eram mais limitadas. Por isso, encontrar o trabalho de uma banda de São Paulo acabou sendo uma experiência marcante.
De alguma forma, o CSS simplesmente entrou no meu radar. Acho que eles têm uma energia tão expressiva que despertou algo dentro de mim. Me fez pensar que talvez eu também pudesse ser tão expressiva quanto eles em determinados momentos da vida
Lexie Liu
A cantora explica que, em sua experiência pessoal, cresceu em um ambiente no qual as pessoas costumavam ser mais reservadas ao demonstrar sentimentos. A atitude do CSS apresentou outra possibilidade de expressão. “Ter acesso àquela energia tão extrovertida, até um pouco maluca, mas também muito atraente, foi algo muito novo para mim. Aquela pequena dose de raiva, a alegria e a complexidade da maneira como eles se expressam foram as coisas que mais me atraíram.”
Entre suas favoritas está Alala, mas a influência vai além das músicas. Lexie também admira a maneira como o grupo construiu uma identidade própria sem, em sua percepção, tentar moldá-la para corresponder às expectativas do público internacional.
“Eles vieram de São Paulo, mas não estavam tentando se transformar em um produto brasileiro de exportação. Estavam simplesmente sendo eles mesmos. Nunca quiseram simplificar a própria identidade só para conseguir entrar na conversa, e acho que isso é algo que eu também valorizo.”
A relação com o Brasil não se limita às referências musicais. Lexie já esteve em Trancoso, na Bahia, e espera voltar ao país com um show. Embora ainda não tenha planos concretos, ela coloca o destino entre suas prioridades para uma possível turnê mundial. “Acho que seria o destino dos meus sonhos, porque sinto que o clima por aí vai ser muito divertido.” E sim, os brasileiros já estão fazendo a parte deles: a artista conta que encontra pedidos de “Come to Brazil” por todos os lados.
O pop dos anos 2000 e a busca por uma identidade própria
A estética Y2K também ocupa um espaço importante no universo de Lexie, mas a relação da artista com os anos 2000 não se resume à vontade de reproduzir roupas, penteados ou sonoridades daquela década. Existe algo mais pessoal na possibilidade de ocupar o lugar das estrelas que fizeram parte de sua formação.
“É muito legal finalmente ser a pessoa que transmite a mensagem que aquelas grandes artistas pop daquela época passaram para mim”, afirma. “Acho que é um momento de ciclo se fechando. Finalmente ser a pessoa que está dentro do iPod. Acho que esse é um lado meio narcisista da coisa.”
O outro lado está na fantasia pop que aquelas cantoras construíam. Lexie se lembra de artistas que abraçavam a intensidade das próprias emoções, apostavam em grandes momentos e não tinham medo do hiperfeminino ou até do artificial.
Aquele universo de fantasia me atraía porque era muito diferente da minha própria vida. Ele me fez perceber que existia alguma coisa maior do que a vida, e que essa coisa estava me chamando.
Lexie Liu
Essa curiosidade ajuda a explicar por que sua discografia já transitou por hip-hop, R&B, música eletrônica e hyperpop. Hoje, ela diz se divertir mais explorando as possibilidades de cada gênero do que tentando escapar de suas classificações. O que não significa querer produzir músicas que pertençam exclusivamente a uma delas.
“Eu realmente não gosto quando uma música minha se encaixa perfeitamente em um único gênero”, explica. “Estou sempre pensando: ‘Que estado emocional esse som vai criar? Que tipo de memória cultural ele carrega? E que versão de mim ele desperta?’”
Um futuro em que artistas asiáticos sejam apenas artistas pop
Ao construir uma carreira que transita entre diferentes gêneros, idiomas e referências culturais, Lexie também acompanha as transformações na maneira como artistas asiáticos são recebidos pelo público internacional. Ela considera a expansão do K-pop no mercado ocidental um sinal importante dessa mudança.
“Eles estão abrindo caminhos no sentido de mostrar como artistas asiáticos podem ser tão confiantes e arrasar nos palcos”, observa.
Para ela, existe hoje mais espaço para esses artistas apresentarem suas identidades sem necessariamente adaptá-las às expectativas de outros mercados. Mas Lexie gostaria de ver uma transformação ainda mais profunda na maneira como a música é classificada.
Acho que o futuro ideal seria aquele em que artistas asiáticos pudessem simplesmente ser reconhecidos como artistas pop, sem precisar ser sempre classificados como pop asiático.
Lexie Liu
A reflexão conversa com a proposta de Pop Girls Club: em vez de uma identidade universal à qual todas precisam se adequar, diferentes artistas encontram espaço para existir à sua própria maneira.
E a Lexie fora dos palcos? Ela garante que é bem menos produzida do que a imagem de uma estrela pop pode sugerir. “Na verdade, não gosto de usar maquiagem na maior parte do tempo! Acho que ficar bonita e se arrumar para encarar o mundo exige muito esforço e energia.”
+Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.




