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maquiagem, antes de tudo, é linguagem. É expressão artística, mas também pode ser um grito silencioso vindo de dentro de nós. Porque, quando a gente pega pincéis, esponjas, cores e texturas, não estamos apenas aplicando produtos, mas, sim, desenhando sentimentos, traduzindo emoções e dizendo aquilo que, muitas vezes, nem cabe em palavras.
Nesse processo, a maquiagem funciona quase como uma varinha de condão. Ela permite criar, reinventar e, principalmente, revelar. Revelar partes de nós que, no cotidiano, acabam ficando escondidas.
A maquiagem também se configura como uma forma de resistência. A partir do século XX, ela passou a ser utilizada como um verdadeiro instrumento de ruptura, questionando padrões sociais e estéticos impostos.
Nos anos 1970, por exemplo, o movimento “punk” rompeu radicalmente com os ideais tradicionais de beleza. Com olhos borrados, maquiagem pesada e propositalmente “imperfeita”, além do uso predominante de cores escuras, essa estética não buscava agradar — mas provocar.
No Brasil, esse grito de rebeldia ecoava nas ruas da grande São Paulo e se espalhava por outras cidades. Ainda sob os resquícios da ditadura militar e da censura, esse movimento nascia, em grande parte, das periferias, como um ato contra o sistema. Era uma forma de contestação visível, um protesto inscrito no próprio rosto.
Em outra vertente, o “glam rock” também ressignificou o uso da maquiagem ao transformá-la em extensão da arte, ficando conhecido como a “era do glitter”. Artistas utilizavam rostos coloridos, brilhos e traços gráficos marcantes, rompendo, inclusive, com padrões de gênero e transcendendo a ideia de feminino e masculino.
As performances de Ney Matogrosso são um testemunho vivo disso, ao juntar tantas artes e, até hoje, provoca reflexões sobre a heteronormatividade e o controle de corpos. Em “Homem com H”, o artista brasileiro ironiza justamente a ideia do que a sociedade define como “ser homem”.
A música ganha ainda mais força quando a gente lembra da sociedade em que vive: um lugar que insiste em definir o que é bonito e o que não é, que bombardeia a gente de perguntas, padrões e limita formas de existir. Talvez, em vez de tentar encaixar pessoas em regras e expectativas, devêssemos pensar mais sobre empatia, autenticidade e sobre como viver bem consigo mesmo.
A maquiagem, quando olhada com outros olhos, vai na direção contrária disso tudo. Ela não é mais sobre seguir padrões — é sobre quebrá-los. E, nesse processo, até o produto físico da maquiagem pode ajudar na construção do nosso ser interior, funcionando como forma de expressão, descoberta e afirmação de quem somos.
E daí vem um convite: está na hora de abandonar discursos como “fica mais bonita sem maquiagem”, “sol do meio-dia e você assim?” ou “vai pra onde desse jeito?” e começar a valorizar a criatividade da nossa galera jovem, apoiando uns aos outros.
Em uma sociedade que se compara constantemente com influenciadores de realidades distantes, talvez seja necessário buscar referências mais próximas da nossa vivência, para que a inspiração seja saudável e não um problema. Incentivar maquiagem não é incentivar padrões irreais ou a ideia de “esconder imperfeições”. É entender que, pra muita gente, esse é um ato de resistência.
Não precisamos ter medo de ir para a escola, faculdade, almoços em família ou aparecer nas redes sociais de tal jeito. Podemos usar qualquer maquiagem, com um único requisito: se sentir bem.
No fim das contas, galera, a maquiagem não esconde. Ela revela: histórias, sentimentos e, acima de tudo, a liberdade de ser.
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