SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sean Combs pagou US$ 100 mil -cerca de R$ 500 mil- para obter e impedir a divulgação de uma gravação em que agarrava a então namorada, Cassie Ventura, jogava-a no chão, dava dois chutes e a arrastava por um corredor de hotel em Los Angeles.
Quem recebeu o dinheiro foi Eddy Garcia, um dos seguranças do estabelecimento, para dividi-lo com outros dois colegas.
A jornalista Cheyenne Roundtree reconstitui o episódio em “Bad Boy for Life: A Ascensão e a Queda de Sean ‘Diddy’ Combs”, que chega ao Brasil pela BestSeller.
Garcia entregou um pendrive com as imagens e esperou enquanto o empresário passava maços de dinheiro por uma máquina contadora de cédulas.
Assinou também um acordo de confidencialidade que previa multa de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5 milhões. Na saída, recebeu uma recomendação de Combs. “Ele disse para eu não fazer nenhuma compra grande”, relata o segurança no livro.
Era março de 2016. As imagens só chegariam ao público oito anos depois, divulgadas pela CNN.
Jornalista da Rolling Stone, Roundtree descreve à reportagem o esforço para impedir que o vídeo fosse divulgado. A chefe de gabinete do empresário procurou acesso à gravação, enquanto um segurança e amigo de Combs acompanhava a situação de Cassie.
“Ele não tinha dado seu número a ninguém, mas o telefone toca e, de repente, é Diddy tentando combinar como ver e comprar aquelas imagens”, diz Roundtree sobre Garcia.
Conhecido também como Puff Daddy e P. Diddy, o rapper e empresário da gravadora Bad Boy construiu uma carreira em que música, negócios e exposição pública se reforçavam. O livro acompanha esse percurso e reúne relatos de agressões anteriores à consolidação de sua celebridade.
Combs também fez das festas parte dessa imagem pública. Suas célebres “White Parties”, realizadas em lugares como os Hamptons, reuniam nomes como Leonardo DiCaprio, Beyoncé, Mariah Carey e Martha Stewart. Eram eventos sociais de grande exposição, distintos dos “freak-offs”, encontros sexuais privados que apareceriam mais tarde no centro das acusações contra ele.
“Esse temperamento e essa raiva sempre estiveram presentes. Acho que o poder e a fama apenas ofereceram uma camada adicional de proteção.”
Para reconstituir a trajetória, a autora combina entrevistas com pessoas próximas a Combs, reportagens anteriores, processos e depoimentos judiciais. O relacionamento com Cassie ocupa o centro de dois capítulos. Ali, a vida profissional da cantora se confunde com a intimidade do casal e com o dinheiro de que ela dependia.
Cassie tinha 19 anos quando assinou, em 2006, um contrato que previa dez álbuns com a Bad Boy. Lançou apenas um. O envolvimento amoroso começou no ano seguinte, segundo o livro, e durou cerca de uma década. Combs era 17 anos mais velho e tinha poder para decidir os rumos da carreira que ela tentava construir.
Roundtree cita também o apartamento que ele lhe deu de aniversário. O presente, afirma, tornou-se um elemento da dependência financeira. Romper a relação significava enfrentar o homem que era, ao mesmo tempo, seu namorado, seu patrão e seu provedor.
“Ela já havia contado que tentou ir embora e começar novos relacionamentos, mas acabava sendo trazida de volta ao ciclo. Todos esses fatores tornavam muito difícil sair”, diz a jornalista.
O livro descreve os encontros que Combs chamava de “freak-offs”, nos quais Cassie fazia sexo com acompanhantes masculinos contratados.
A participação da cantora nesses episódios esteve no centro do julgamento. O ponto era saber se ela participava voluntariamente ou se Combs a levava a fazê-lo por meio de violência, ameaças e outras formas de coerção.
A defesa apresentou textos em que ela manifestava vontade de participar. Questionada sobre como conciliou esse material com os relatos de coerção, Roundtree afirma que as mensagens precisam ser lidas no contexto de uma relação longa, na qual havia também afeto.
“Ela falava com frequência sobre querer ter uma relação sexual com o parceiro que amava. Diddy, e só ele”, diz. Segundo a autora, Cassie explicou que houve ocasiões em que aceitou participar por amá-lo, mas que não desejava fazer sexo com outros homens.
Uma troca reproduzida no livro mostra a dificuldade de interpretar essas conversas isoladamente. Antes da agressão no hotel, Cassie se preparava para a estreia do filme “O Par Perfeito”.
Disse a Combs que queria um “freak-off”, mas temia ficar debilitada para o evento no cinema. Ao explicar a mensagem, afirmou que tentava agradá-lo para evitar uma briga que prejudicasse a estreia.
Depois da agressão, os dois compareceram juntos ao tapete vermelho. Segundo a reconstituição de Roundtree, Cassie usou maquiagem para disfarçar o olho roxo e as marcas no corpo. Ainda assim, um dos machucados permanecia visível no braço.
O julgamento terminou com uma distinção entre as acusações que a promotoria apresentou e os crimes pelos quais Combs foi condenado. Em julho de 2025, o júri o absolveu de tráfico sexual e conspiração para associação criminosa, mas o considerou culpado de dois crimes de transporte para fins de prostituição.
Para essa condenação, não era necessário provar que as mulheres haviam sido coagidas, mas que Combs organizara viagens interestaduais para encontros sexuais pagos. Em outubro daquele ano, a pena foi fixada em 50 meses de prisão.
“Ele foi considerado culpado de facilitar atos de prostituição, não de forçar alguém a participar de sexo”, diz Roundtree.
Na avaliação da jornalista, a acusação teve dificuldade para articular as experiências de duas ex-namoradas e a tese de que Combs comandava uma organização criminosa. Uma das mulheres descrevia coerção sexual em uma relação marcada por violência; a outra relatava uma dinâmica diferente.
“Quando se pensa em crime organizado nos Estados Unidos, vem a imagem de grandes chefes e de uma organização enorme”, afirma. No tribunal, diz, o público via um executivo musical, sua chefe de gabinete e jovens funcionários encarregados de preparar quartos. Para ela, essa distância dificultou a apresentação do caso.
Roundtree também procurou pessoas que conheceram Combs antes da fama. Queria entender como ele se tornou o homem que investigava. Ao ser questionada sobre acusações que conseguiu corroborar para além dos processos, porém, a autora não aponta um novo crime demonstrado por sua apuração.
Ela menciona o receio que encontrou entre os entrevistados e que, segundo diz, já existia nos anos 1990. “Havia medo de represálias ou de ser impedido de trabalhar. Isso era constante naquela época e continua até hoje.”
BAD BOY FOR LIFE: A ASCENSÃO E A QUEDA DE SEAN “DIDDY” COMBS
– Preço R$ 74,90 (390 págs.)
– Autoria Cheyenne Roundtree
– Editora BestSeller
– Tradução Alessandra Bonrruquer, Rita Paschoalin e Marcelo Vieira




