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e você confia em mim, por que não me passa sua senha?” Uma cobrança como essa pode aparecer disfarçada de prova de amor, confiança e até fidelidade, né? Assim como a exigência de responder às mensagens na hora ou compartilhar a localização o tempo todo. O problema é que essas atitudes podem fazer parte de uma dinâmica de controle — e nem sempre são reconhecidas dessa forma por quem está vivendo a relação.
Esse é um dos pontos de alerta de uma análise publicada no Journal of Online Trust and Safety, ligado à Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Assinado pela pesquisadora Nina Jane Patel, o artigo reúne entrevistas com dez especialistas de organizações que trabalham com prevenção da violência e apoio a vítimas em dez países, incluindo o Brasil. A CAPRICHO teve acesso exclusivo aos dados.
“O que mais chama a atenção é que a tecnologia se tornou mais uma ferramenta dentro de uma dinâmica maior de violência psicológica e controle”, pontua Bia Diniz, fundadora e presidente da ONG Cruzando Histórias e uma das especialistas ouvidas no estudo à CAPRICHO. ” A pessoa pode sair de casa, terminar a relação ou bloquear um número e, ainda assim, continuar sendo acessada, monitorada ou intimidada por outros perfis, contas ou pessoas intermediárias.”
Segundo os profissionais ouvidos, jovens de 16 a 24 anos têm dificuldade para identificar que esse tipo de atitude pode ser considerada abuso digital nos relacionamentos. O trabalho analisa as experiências relatadas pelos especialistas, sem medir quantos jovens passam por essas situações. As organizações participantes também integram o programa Abuso Não É Amor, da YSL Beauty.
Uma das principais questões levantadas é como a vigilância pode virar parte da rotina do casal. A cobrança para saber onde você está, quem curtiu sua foto ou com quem conversou vai sendo tratada como algo esperado de um namoro. Aos poucos, prestar contas de tudo pode parecer uma obrigação.
É cada vez mais necessário falar sobre a construção de relacionamentos saudáveis, especialmente com os jovens. Perguntar: você se sente segura? Você se sente tranquila? Você sente paz no seu relacionamento?
Bia Diniz, da ONG Cruzando Histórias.
Mas, importante lembrar: compartilhar algo por vontade própria é diferente de ceder por pressão, medo de uma briga ou ameaça. Quando a outra pessoa exige acesso às suas conversas, determina quem você pode seguir ou tenta controlar suas publicações, sua autonomia está sendo restringida e é preciso atenção, ok?
“Muitos comportamentos ainda são romantizados. O ciúme ainda é visto como prova de amor e existe uma confusão entre relacionamento e posse”, afirma Diniz. “Por isso, é cada vez mais necessário falar sobre a construção de relacionamentos saudáveis, especialmente com os jovens. Perguntar: você se sente segura? Você se sente tranquila? Você sente paz no seu relacionamento?”
A análise também aponta uma dificuldade de dar nome ao que acontece. Mesmo sentindo ansiedade com o monitoramento constante, jovens podem descrever esse comportamento como “ciúme”, “proteção” ou um jeito “intenso” de gostar. Essas interpretações dificultam perceber a violência.
Outro ponto envolve as referências aprendidas em casa. Segundo o artigo, o monitoramento por pais e responsáveis pode ajudar a naturalizar a ideia de que quem ama precisa ter acesso a tudo. Mais tarde, essa lógica pode aparecer no namoro, com a entrega de senhas sendo cobrada como demonstração de confiança.
No Brasil, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violência contra mulheres no ambiente digital entre janeiro e maio de 2026.
“Essas conversas ainda são muito recentes. As gerações mais velhas — e eu me incluo nisso — tiveram pouco ou quase nada desse diálogo com pessoas mais experientes, e essa troca poderia ter nos poupado de muitas situações. Aprender a falar sobre relacionamentos é algo em que todos nós precisamos colocar mais intenção”, direciona a especialista do Cruzando Histórias.
O controle digital também pode envolver pressão para bloquear amizades, cobranças insistentes por demora nas respostas e ameaças de exposição de conversas ou imagens íntimas. A inteligência artificial acrescenta outras possibilidades de agressão, como a criação de imagens íntimas falsas, chamadas de deepfakes, usadas para intimidar ou chantagear.
No Brasil, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violência contra mulheres no ambiente digital entre janeiro e maio de 2026, segundo o Ministério das Mulheres. O número representa um aumento de 188,6% em relação ao mesmo período de 2025. Os registros incluem diferentes formas de violência digital, não apenas situações entre casais ou envolvendo jovens.
Evite frases como ‘por que você não termina?’ ou ‘eu te avisei’. Isso pode aumentar a vergonha e o isolamento. É melhor dizer: ‘eu estou aqui’, ‘você não precisa decidir tudo agora’ ou ‘como eu posso te ajudar?
E dizer “é só bloquear” está longe de resolver tudo. A análise alerta que recomendar que a vítima simplesmente saia das redes pode ampliar seu isolamento e colocar sobre ela a responsabilidade de interromper a violência.
Se você se reconheceu em alguma dessas situações, vale conversar com uma pessoa de confiança e buscar apoio. “A primeira coisa é escutar, acreditar e colocar intenção em não julgar”, afirma Diniz. “Evite frases como ‘por que você não termina?’ ou ‘eu te avisei’. Isso pode aumentar a vergonha e o isolamento. É melhor dizer: ‘eu estou aqui’, ‘você não precisa decidir tudo agora’ ou ‘como eu posso te ajudar?’”, pontua a especialista.
“Também é importante respeitar o tempo da pessoa. Uma amiga pode ajudar a pensar em segurança, guardar provas em um local seguro, acompanhar na busca por ajuda e manter contato. O papel da rede não é tomar a decisão por ela. É ajudar para que ela recupere segurança, informação e autonomia para decidir.”
Para buscar orientação ou denunciar violência contra mulheres, o Ligue 180 oferece atendimento gratuito, 24 horas por dia. Uma pessoa de confiança também pode ajudar na procura por apoio. Em situações de emergência ou risco imediato, o canal é o 190, da Polícia Militar.




