Estas dúvidas podem fazer parte da descoberta da sua bissexualidade também

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m leitor de 16 anos enviou uma mensagem ao SOS Sexo da CAPRICHO, que pode representar o sentimento de muitos outros jovens que nos lêem por aqui. Ele diz que é bissexual – “ou pelo menos é assim que me identifico hoje”, observa –, mas vive cercado de dúvidas porque as pessoas que estão ao seu redor acabam invalidando sua sexualidade. 

Pedimos ajuda ao Psicólogo L(G)BTQIA+ Júnior Costa, pós-graduando em Gênero e Sexualidade, para responder as questões levantadas por este e tantos outros jovens sobre a pressão de definir quem é e do que gosta. Ele ressalta que, durante a adolescência, há uma série de mudanção não só no corpo; “muda também a forma como nos enxergamos, como nos relacionamos com os outros e como começamos a construir nossa própria identidade”.

“É uma fase em que passamos a nos perguntar quem somos, o que desejamos e como queremos viver nossas relações. Por isso, é natural que surjam dúvidas, inseguranças e até mudanças na maneira como compreendemos a nós mesmos”, explica. “Para pessoas LGBTQIA+, esse processo pode ser um pouco mais desafiador, porque crescemos em uma sociedade que, por muito tempo, apresentou a heterossexualidade como o único caminho possível e esperado”, acrescenta Júnior.

A seguir, o psicólogo destrincha questão por questão trazida no depoimento do jovem. Confira!

Leitor: Desde pequeno sempre senti atração por homens e também já me apaixonei e senti atração por mulheres. Hoje em dia, porém, percebo que sinto muito mais interesse por homens. Isso significa que eu continuo sendo bissexual ou isso poderia significar que eu sou gay? Existe algum momento em que a pessoa “deixa de ser bi” por sentir mais atração por um gênero do que pelo outro?

Psicólogo Júnior Costa:  Mesmo com todos os avanços conquistados pelo movimento LGBTQIA+, ainda recebemos muitas mensagens dizendo como deveríamos amar, agir ou nos comportar. Quando percebemos que nosso desejo não corresponde a esse modelo, é comum surgirem muitas perguntas. Uma delas é justamente: “Afinal, eu sou bi ou sou gay?”

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Existe uma ideia muito comum de que a orientação sexual seria algo totalmente pronta desde o nascimento, como se cada pessoa já viesse ao mundo “programada” para desejar apenas homens ou apenas mulheres. A psicanálise (que é onde baseio meus estudos sobre gênero e sexualidade) propõe uma compreensão um pouco diferente. Ela entende que a sexualidade humana vai se constituindo ao longo da vida, de maneira singular, por meio das nossas experiências, identificações, fantasias e, principalmente, de processos inconscientes. Isso não significa que a orientação sexual seja uma escolha ou algo que possa ser mudado pela vontade (importante destacar essa parte).

Significa apenas que ela faz parte da construção subjetiva de cada pessoa. Por isso, não existe um teste capaz de dizer quem é bissexual, gay, lésbica ou heterossexual. Os nomes que usamos para definir nossa orientação sexual servem para nomear uma experiência que vivemos, e não para encaixar todas as pessoas em regras rígidas.

No seu caso, sentir mais atração por homens hoje não faz com que você deixe automaticamente de ser bissexual. Um dos maiores mitos sobre a bissexualidade é imaginar que ela significa sentir exatamente 50% de atração por homens e 50% por mulheres. Na prática, isso não funciona assim. Algumas pessoas percebem desejos mais equilibrados, outras vivem momentos em que um gênero desperta mais interesse do que outro. Nenhuma dessas experiências torna alguém “mais” ou “menos” bissexual.

Se eu nunca me relacionar ou nunca fizer sexo com uma mulher, isso muda alguma coisa? A experiência prática define a orientação sexual ou basta a atração?

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A orientação sexual não é definida pela experiência prática. Você não precisa beijar, namorar ou fazer sexo com uma mulher para que a atração que ele sente por ela seja legítima. Muitas pessoas reconhecem sua orientação sexual antes mesmo do primeiro beijo ou da primeira relação sexual. Se hoje faz sentido para você se identificar como uma pessoa bissexual, tudo bem. E, se em outro momento da vida você perceber que faz mais sentido se reconhecer como um homem gay, tudo bem também. Isso não significa que você “escolheu mudar” sua orientação sexual.

Significa que, ao longo da vida, a forma como compreendemos, vivemos e nomeamos nossos desejos também pode ganhar novos sentidos. A sexualidade não é uma escolha, mas também não precisa ser entendida como algo completamente rígido ou imutável. O importante é que a forma como você se identifica faça sentido para você mesmo, e não para corresponder às expectativas das outras pessoas.

Também fico muito confuso porque vejo muitas pessoas dizendo que o jeito de falar, os trejeitos, a voz ou a personalidade fazem alguém ser “mais gay”, “passivo” ou “menos masculino”. Eu tenho um jeito de falar considerado mais afeminado pela sociedade: uso gírias como “mana”, “bixa”, “socorro”, gesticulo bastante e sou bem expressivo. Isso tem alguma relação com orientação sexual, papel sexual ou é só um estereótipo?

Também é importante diferenciar algumas coisas que costumam ser confundidas. O jeito de falar, os trejeitos, o tom da voz, as roupas que uma pessoa gosta de usar ou o fato de ser mais expressiva não determinam a orientação sexual de ninguém. Isso faz parte da forma como cada pessoa se expressa no mundo e não tem relação direta com o gênero das pessoas por quem ela sente atração.

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Tem mais uma questão que vem me incomodando bastante. Percebi que tenho uma preferência muito grande por homens considerados mais masculinos e acabo perdendo o interesse por homens mais afeminados ou femboys. Durante muito tempo achei que isso fosse apenas um gosto pessoal, mas hoje percebo que talvez exista um preconceito internalizado aí. Cresci com a ideia de que em um relacionamento entre dois homens precisava existir “o homem e a mulher da relação”, e hoje sei que isso não faz sentido, mas ainda estou tentando desconstruir esse pensamento. Como diferenciar uma preferência de um preconceito? É normal precisar desconstruir esse tipo de ideia?

Sobre sentir mais interesse por homens considerados masculinos, acho muito interessante que você tenha conseguido olhar para isso com curiosidade, em vez de apenas assumir que essa preferência nunca poderia ser questionada. Todos nós crescemos aprendendo ideias sobre masculinidade e feminilidade, e elas influenciam a forma como percebemos os outros e até aquilo que desejamos. Nem toda preferência é, por si só, um preconceito. Mas vale a pena se perguntar de onde ela vem.

Uma forma de diferenciar uma preferência de um preconceito internalizado é observar se o “esse não é meu tipo” vem acompanhado apenas de uma preferência pessoal ou também de uma desvalorização do outro. Por exemplo, sentir desconforto, vergonha ou acreditar que características consideradas socialmente femininas tornam um homem “menos homem” ou menos desejável. Muitas vezes, essas ideias aparecem de forma inconsciente, sustentadas pela crença de que, em um relacionamento entre dois homens, um precisaria ocupar o “papel do homem” e o outro o “papel da mulher”.

Hoje sabemos que essa lógica faz parte da heteronormatividade e não descreve a realidade das relações entre homens. O fato de você conseguir questionar esse pensamento mostra que está refletindo sobre si, e esse costuma ser o primeiro passo para se desconstruir. Esse processo leva tempo, especialmente porque essas ideias nos acompanham desde muito cedo. Não há nada de errado em ainda estar no meio dessa caminhada.

Nunca beijei ninguém e nunca tive uma experiência sexual. Quando perguntam se eu sou ativo, passivo ou versátil, eu respondo “versátil”, mas a verdade é que eu simplesmente não sei. É normal não fazer ideia do que gosta antes de viver essas experiências?

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Como você nunca teve uma experiência sexual, é completamente normal ainda não saber exatamente do que gosta. Você não precisa decidir isso antes de viver essas experiências, nem existe uma forma “correta” de exercer a sexualidade. O mais importante é as experiências sejam vividas de forma consensual, segura e respeitando os próprios desejos e limites. Esse é um processo de descoberta que acontece aos poucos, no seu próprio tempo.

Por fim, uma amiga quer me apresentar um menino. Fiquei animado, mas ao mesmo tempo muito inseguro. Tenho medo de ele não gostar de mim por causa do meu jeito de falar, dos meus trejeitos ou da minha aparência. Eu também percebo que costumo me moldar muito às pessoas para tentar agradar e tenho medo de decepcionar quem cria expectativas sobre mim. Como lidar com esse medo de não ser suficiente e aprender a me mostrar como realmente sou?

Em vários momentos, me parece que a sua preocupação não é apenas descobrir se é bi ou gay. Existe também um medo de não ser suficiente, de não corresponder às expectativas das outras pessoas e de precisar mudar o jeito para ser aceito. Infelizmente, esse é um sentimento muito comum entre pessoas LGBTQIA+, justamente porque crescemos ouvindo, direta ou indiretamente, que havia algo em nós que precisava ser diferente. Mas construir a própria identidade também significa descobrir que você não precisa deixar de ser quem é para merecer afeto.

Talvez você ainda não tenha todas as respostas sobre sua sexualidade, e tudo bem (a sexualidade humana é complexa e não se resume a respostas simples ou definitivas.). A adolescência também é um tempo de descoberta. Não existe problema em ainda estar conhecendo os próprios desejos,  preferências e a forma como cada um quer nomear sua orientação sexual. O mais importante é que essa resposta faça sentido para cada pessoa e não para as expectativas ou opiniões das outras pessoas.

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