Ana Paula Xavier, jornalista, professora e escritora de Rio Branco, tem hoje 38 anos e dedica boa parte da rotina a palestras e campanhas sobre o câncer de mama. Em entrevista ao ac24horas, em pleno Outubro Rosa, ela relembra o caminho que a transformou em uma das referências do Acre na conscientização sobre a doença. O diagnóstico veio aos 33 anos, sem histórico familiar de câncer de mama e em uma fase da vida marcada por trabalho, família e vida ativa.
A descoberta ocorreu em fevereiro de 2022, durante um banho. Ana Paula percebeu um caroço endurecido na mama esquerda, de aproximadamente dois centímetros. Ela procurou a ginecologista, que não identificou alteração no exame clínico. Mesmo assim, a jornalista insistiu na investigação e pediu uma ultrassonografia, que localizou o nódulo e levou à indicação de biópsia.
O resultado saiu em 16 de março de 2022. Ana Paula estava sozinha quando abriu o laudo pela internet e leu o diagnóstico de carcinoma ductal invasivo. Ela ligou para o marido, Nilton, que percebeu pelo tom de voz a gravidade da notícia e chegou em poucos minutos. “Naquele abraço, em meio ao silêncio e às lágrimas, começamos juntos a enfrentar a maior batalha das nossas vidas”, relata.
O tratamento incluiu cirurgia para retirada do tumor, seis sessões de quimioterapia, 18 sessões de radioterapia e terapia complementar com imunoterapia. Durante a quimioterapia, ela teve alterações no paladar, reações na pele, cansaço e perda dos cabelos. Ana Paula decidiu cortar os fios sozinha, no banheiro de casa, e passou a usar peruca. Segundo ela, manter os cuidados com unhas, maquiagem e aparência foi uma forma de continuar se reconhecendo durante o tratamento.
A jornalista afirma que a doença também alterou suas relações pessoais. Algumas pessoas que ela julgava próximas se afastaram, enquanto outras, com quem tinha menos convivência, tornaram-se fundamentais. A família foi o principal apoio. O marido a acompanhou em todas as etapas, a mãe, Francisca, deixou a própria rotina para cuidar da filha e da casa, e o filho, Gabriel, ainda pequeno na época do diagnóstico, foi apontado por ela como uma das maiores razões para querer viver. A fé também teve papel central. “Em muitos momentos, quando minhas forças pareciam acabar, era na oração que eu encontrava paz”, conta.

O fim da quimioterapia foi comemorado nas ruas da capital acreana. Nilton decorou a Kombi da família com balões e instalou uma faixa com a frase “Minha última quimioterapia, louve a Deus, buzine!”. O casal percorreu as ruas de Rio Branco, e moradores buzinaram e comemoraram a passagem do veículo. Ana Paula diz que chorou muito naquele dia.
Ainda durante o tratamento, a mãe a incentivou a escrever sobre o que vivia. Ana Paula resistiu no início, mas descobriu que registrar a experiência a ajudava a lidar com as emoções. O resultado foi o livro “A força da gratidão”, no qual ela relata a trajetória, os desafios enfrentados e o papel da fé e do apoio familiar. O objetivo, segundo ela, é mostrar a outras mulheres que existe vida depois de um diagnóstico de câncer.

Após as etapas mais intensas do tratamento, a jornalista passou a atuar como ativista. Ela realiza palestras em igrejas, instituições e eventos, além de participar de campanhas educativas. Seu foco é alcançar mulheres que acreditam estar distantes da doença por serem jovens ou por não terem casos na família, condição que ela mesma vivia. “Quando estou diante de uma plateia, não falo apenas como profissional da comunicação. Falo como uma mulher que já esteve sentada em uma sala de espera com medo de um resultado”, afirma.
A frase que resume essa trajetória, “só vive o propósito quem suporta o processo”, virou lema e foi registrada na pele. É a primeira tatuagem de Ana Paula.

Em fevereiro de 2027, a jornalista completa cinco anos desde o período do diagnóstico e do início do tratamento. Ela segue em acompanhamento médico. Na consulta mais recente, o oncologista deu notícias positivas e indicou a possibilidade de alta dessa etapa do acompanhamento em fevereiro, caso os exames continuem sem alterações. “Não romantizo o câncer. Sei o quanto essa doença é cruel”, declara. “Se pudesse escolher, jamais teria passado por tudo isso. Mas, já que vivi essa experiência, decidi que ela não seria em vão.”
O que é o Outubro Rosa
O Outubro Rosa é uma campanha internacional de conscientização sobre o câncer de mama, com foco na prevenção e no diagnóstico precoce. No Brasil, a primeira ação registrada ocorreu em 2002, quando o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, foi iluminado de rosa. A iniciativa se espalhou por cidades de todo o país, e o mês passou a ser reconhecido em lei federal, a Lei nº 13.733, de 2018.
Números e orientações
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres e representa cerca de 30% dos novos casos de câncer nessa população.

O Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rotina para mulheres de 50 a 69 anos, a cada dois anos, e o exame é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Sociedade Brasileira de Mastologia defende que a mamografia seja feita anualmente a partir dos 40 anos, mesmo sem sintomas. Mulheres com histórico familiar ou alterações genéticas devem procurar orientação médica sobre o início do rastreamento.
Entre os sinais de alerta estão nódulo na mama ou na axila, alterações na pele da mama, retração do mamilo e saída espontânea de secreção pelo mamilo. Qualquer mudança persistente deve ser avaliada por um profissional de saúde, independentemente da idade. A história de Ana Paula ilustra esse ponto. O nódulo foi percebido pela própria paciente, a investigação avançou porque ela insistiu em exames de imagem e o diagnóstico ocorreu aos 33 anos, fora da faixa etária prioritária do rastreamento.
“Cuidar da própria saúde é um ato de amor pela vida”, resume Ana Paula.
Rebeca Martins
Com informações do ac24horas




