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xiste uma cena de Heartstopper que Alice Oseman gostaria de ter visto ganhar vida fora dos quadrinhos. Ela está no sexto volume da história e mostra Nick e Charlie dividindo uma conversa emotiva no balanço do jardim da casa de Nick. O problema é que quando a autora escreveu o filme que encerra a adaptação, aquele momento ainda nem existia em sua cabeça.
“Quando escrevi o filme, eu ainda nem tinha criado essa cena. Ela nem existia na minha cabeça naquele momento. Não havia nenhuma possibilidade de ela entrar na adaptação”, contou Alice à CAPRICHO, antes de completar: “Mas é gostoso imaginar como seria, e essa cena sempre vai existir nos quadrinhos. Espero que isso seja suficiente.”
Mais de dez anos depois de criar Nick e Charlie, Alice está fechando um ciclo com Heartstopper enquanto acompanha o tamanho que a história alcançou. Em passagem pelo Brasil, a autora conversou com a CH nesta quarta-feira (9), no Rio de Janeiro, onde participou da inauguração do Estação Bienal, projeto itinerante da Bienal do Livro Rio em parceria com a Companhia das Letras. O encontro, realizado no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, reuniu fãs para um bate-papo e sessão de autógrafos.
Poucos dias depois de participar da Bienal do Livro de São Paulo, Alice falou sobre a despedida de Heartstopper, as histórias de fãs que mais a emocionaram, a construção da trajetória de Elle, os futuros de Kit Connor e Joe Locke e se outras obras suas ainda podem chegar às telas.
Nem Alice conseguiu acompanhar tudo o que aconteceu
Heartstopper faz parte da vida profissional de Alice há mais de uma década, mas boa parte de sua transformação em fenômeno global aconteceu em poucos anos. A chegada da adaptação à Netflix em 2022 colocou seus personagens diante de um público ainda maior. Acompanhar essa mudança emocionalmente nem sempre foi simples.
“Tem sido tudo muito intenso e muito empolgante, especialmente quando Heartstopper realmente explodiu com o lançamento da série. Foi um período bastante avassalador”, admitiu.
Em meio à dimensão que a história ganhou, Alice diz que uma coisa permaneceu igual: a relação com quem acompanha seu trabalho. “Os leitores e o público de Heartstopper sempre foram muito gentis, alegres e simplesmente pessoas maravilhosas de conversar. Isso nunca mudou, e fico muito feliz por isso.”
Quando Heartstopper cria amizades na vida real
Depois de tantos anos de encontros com leitores, é natural que Alice tenha acumulado histórias de pessoas que se reconheceram em seus personagens. Ela já ouviu relatos relacionados à descoberta da sexualidade e identidade de gênero, à saúde mental e até de pais que passaram a compreender melhor os próprios filhos depois de conhecer Heartstopper.
Mas alguns dos relatos que mais a emocionam são bem mais simples: pessoas que se conheceram por causa da história.
Uma das coisas mais bonitas que escuto às vezes é que a história ajudou pessoas a fazer novos amigos e encontrar grupos de amizade.
Alice Oseman, autora de Heartstopper
Alice se lembra de um encontro recente em que um grupo se aproximou para dizer que seus integrantes eram de países diferentes e tinham acabado de se conhecer por causa de Heartstopper. A amizade, inclusive, já tinha rendido um grupo de conversa.
Elle não poderia viver em uma bolha
O universo de Heartstopper pode oferecer aos personagens o acolhimento que tantas pessoas gostariam de encontrar fora da ficção, mas Alice não quis transformar isso em uma bolha distante da realidade. É especialmente evidente na trajetória de Elle, vivida por Yasmin Finney.
“Estamos vivendo um período em que a transfobia está muito presente, muito barulhenta, está em todos os lugares. Pessoas trans estão sendo discriminadas por governos em tantos países, e essa é uma situação extremamente assustadora para uma pessoa trans jovem como a Elle”, afirmou.
Para Alice, ignorar esse contexto faria com que a experiência da personagem parecesse menos verdadeira. “Senti que era muito importante mostrar isso em Heartstopper e representar essa realidade, porque acho que ainda é algo que não vemos muito na televisão. E simplesmente parecia muito realista para ela e para o que estaria vivendo naquele momento.”
A própria Yasmin participou da construção de cenas como o tão marcante desabafo no quarto de Charlie antes da Parada do Orgulho LGBTQIA+ em Heartstopper Para Sempre. Alice contou que conversou bastante com a atriz para desenvolver os diálogos de Elle e encontrar uma maneira verdadeira de representar “o tipo de medo e ansiedade” que uma jovem trans poderia sentir diante desse cenário.
E existe vida depois de Heartstopper?
Para Kit Connor e Joe Locke, definitivamente. Desde que se tornaram Nick e Charlie, os dois atores passaram a acumular projetos bem diferentes dos personagens que os apresentaram para boa parte do público, algo que Alice acompanha com entusiasmo.
“Nós obviamente gostamos muito deles e sabemos o quanto são talentosos. Os dois foram absolutamente incríveis em Heartstopper, então é claro que queremos vê-los fazendo todo tipo de coisa diferente, papéis incríveis e personagens completamente diferentes”, disse. “É muito empolgante acompanhar os caminhos que a vida está abrindo para eles.”
Já quem espera que outra história do universo criado por Alice ganhe uma adaptação imediatamente depois de Heartstopper vai precisar controlar a ansiedade. “Não há nada sendo desenvolvido no momento. Nenhuma outra adaptação está em andamento”, afirmou.
Isso não significa, porém, que a porta esteja fechada para sempre. “Nunca diga nunca, né? Talvez fosse muito divertido. Ainda não comecei a pensar em nada desse tipo, então teremos que ver quais oportunidades aparecem.”
O conselho de Alice Oseman? Não tenha medo de ser “cringe”
Depois de transformar uma história que começou na internet em livros e uma adaptação assistida no mundo inteiro, Alice poderia dar uma longa lista de regras para quem quer escrever. Seu principal conselho, porém, vai na direção oposta: pensar menos no mercado e mais naquilo que você realmente quer criar.
Não se preocupe tanto em conseguir publicar ou com o que está fazendo sucesso, o que está na moda. Desde que você esteja se divertindo e ame aquilo que está escrevendo, essa paixão vai aparecer no que você está criando.
Alice Oseman, autora de Heartstopper
“Acho que, hoje em dia, muitas pessoas ficam muito inseguras em compartilhar algo de uma maneira sincera, genuína. As pessoas têm medo de parecer ‘cringe’ ou de serem intensas demais”, continuou.
Para ela, criar também exige passar por cima desse medo. “Pode ser assustador se expor dessa forma, mas você simplesmente precisa fazer isso. E é divertido.”
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