Alexandra Gurgel explica por que deixou o movimento body positive e revela decisão de emagrecer: “Sempre quis”

Alexandra confirmou que pretende emagrecer. (Foto: Reprodução/ Instagram)

A influenciadora Alexandra Gurgel, um dos principais nomes do body positive no Brasil e conhecida pelo perfil “Alexandrismos” confirmou que deixou o movimento. Em entrevista à DW divulgada nesta terça-feira (28), ela falou sobre os desafios de ser uma referência para o público. Ela também explicou por que só agora se sente segura para emagrecer e explicou sua mudança de conteúdo.

Segundo a jornalista, em algum momento a “militância se perdeu”, mesmo que siga acreditando no que pregava. “Tudo aconteceu muito rápido na minha vida. Eu comecei o meu canal no YouTube para encontrar semelhantes. Eu não conhecia a palavra gordofobia, não conhecia o body positive, não conhecia nada. Conheci junto com as pessoas. Até hoje assistem à maratona de body positive que eu fiz no YouTube. Há 10 anos, eu era só uma menina. E eu acredito muito em tudo o que eu falava e acredito muito em tudo o que aconteceu”, disse.

“Eu só acho que, como em todas as militâncias, no fim das contas, as coisas se perderam. Na pandemia, foi um momento em que eu cresci muito no Instagram com as pautas que aconteciam. Eu me tornei a pessoa que estava denunciando e também abraçando as pessoas, ao mesmo tempo em que também ganhei fama”, continuou. No auge do movimento, ela lançou livros, foi capa de revistas nacionais e deu palestras sobre a luta contra a gordofobia.

De acordo com ela, o body positive foi inflado pela pandemia: “Foi nesse período da pandemia que o body positive pegou uma força mundial e a gente virou uma comunidade de pessoas online que estavam em casa e se reconectando com o corpo. Eu sinto que o corpo livre abraçou a gente na pandemia de uma forma incrível. O body positive foi muito importante pra gente sobreviver a esse momento”.

Alexandra também admitiu que foi difícil se tornar uma referência no tema. “Eu passei por muitos desafios de ter que ser uma coisa que eu não era. E pra aceitar isso, tinha dinheiro. E você não se envaidece? Você acha que não vai se envaidecer com uma marca que vai te dar muito dinheiro pra falar de uma pauta muito legal pra um monte de gente? Claro que vai. E, de repente, falaram: ‘Ah, mas seria legal você estar em Paris’ ou ‘Acho que é legal você usar Dior’. E eu: ‘Nossa, eu posso comprar isso?’”, lembrou.

“Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida. Eu vendi cerca de 90% das minhas coisas porque eu quis, hoje tenho uma coisa ou outra. Eu parei de ir no circuito de eventos. Eu ia no Baile da Vogue, porque eu considerava que a minha presença seria uma representatividade. E, de fato, foi. Só que eu estava cansada de representar as pessoas. Eu acho que é isso. Eu cansei de ter que ser uma voz que sabe o que está falando. Eu quero me dar o direito de errar, mas militante não tem esse direito”, completou.

Hoje em dia, ela não se considera mais uma militante e confessou que a decisão tirou um fardo dela, mas também trouxe culpa: “É cansativo, porque eu, de fato, me preocupava. Eu achava que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz. Eu me senti culpada por um bom tempo quando eu saí disso”.

Questionada se quer emagrecer, a influenciadora foi enfática: “Eu quero emagrecer. Isso sempre foi uma questão, sempre quis emagrecer durante a minha vida toda. Eu parei de querer isso quando deixei de fazer dieta, porque pensei: vou parar de ferrar a minha cabeça. Eu não tinha alternativa, era: faça a dieta, faça isso e faça aquilo. Hoje, parece que a gente tem uma alternativa que nunca teve. Então, acredito que se isso pode me ajudar na questão com o meu corpo e na minha genética para que eu tenha uma vida melhor, por que não?”.

Ela também confirmou que pretende recorrer ao uso das canetas emagrecedoras. “No meu caso, emagrecer dentro do que foi ensinado pela cultura da magreza nunca funcionou. Por isso, se tiver uma caneta que se associe comigo, com meu estilo de vida, e que eu consiga ter uma qualidade de vida melhor, por que não? Quando a gente fala de se aceitar, do body positive, a gente não tá falando que tem uma vida feliz, a gente só quer ser aceito. Tem gente que [por causa da obesidade] não vai passar na catraca, tem gente que não vai conseguir fazer um exame ou uma cirurgia se não conseguir emagrecer. Então são alternativas que tornam a nossa vida mais viável”, afirmou.

Alexandra confirmou que pretende emagrecer. (Foto: Reprodução/ Instagram)

“Eu nunca tô batendo no peito e falando: vamos ser gordos. O que tô falando é: a gente é assim, então vamos nos aceitar, porque senão a gente vai se odiar para sempre. É o direito de ser feia. É disso que surgem os meus memes, mas é daí que também sai o meu lema”, acrescentou.

Durante a entrevista, Gurgel revelou se tem algum arrependimento sobre as coisas que falava com os seguidores. “Eu acho que a única coisa que eu não concordo, que eu trazia um entendimento errado, é que eu falava que obesidade não era doença. Mas eu falava que eu não queria ser vista como doente: não me chama de obesa, me chama de gorda. E até hoje não entendem isso, mas acho que eu poderia ter falado de outra maneira”, confessou.

“Eu falava que obesidade é uma palavra gordofóbica. E eu não acho mais isso hoje. É a única coisa que eu não acho mais, que eu discordo de mim do passado. E discordo do meu tom, mas eu era uma garota revoltada e tendo atenção pela primeira vez”, continuou.

“Eu acho que quando parei de ser militante, parei de me importar tanto com o que todo mundo falava e pensava. Eu nunca tive o direito de errar. Quando você é militante e erra, você vira o diabo na Terra, na mesma altura em que era a fada sensata. E isso é muito ruim”, opinou.

Alexandra também comentou sobre uma das principais críticas que rodeiam o tema: a de que influenciadores ganharam dinheiro com o movimento e saíram depois que ele enfraqueceu. “Sim, a gente ganhou muito dinheiro. Era isso que a gente fazia: as marcas vinham, queriam comunicar sobre o tema, então dava esse match. Parece que falar que ganha dinheiro com isso é errado, mas era o nosso trabalho”, explicou.

“Só que eu não fiquei milionária e mudei a minha vida. Eu tô trabalhando. Inclusive, muitas pessoas desse meio foram afetadas, justamente pela pauta mundial acabar por causa do reacionarismo. E todo mundo desse meio geral de militância, não só do body positive, ficou sem dinheiro. Todo mundo estava ganhando dinheiro. Eu fazia várias palestras em grandes empresas que hoje não fazem mais. Hoje em dia dizem que não têm mais verba destinada para a diversidade”, ressaltou.

Alexandra também abordou as críticas que ainda recebe. (Foto: Reprodução/ Instagram)

Por fim, ela contou como lida com as críticas, principalmente a respeito do emagrecimento. “É a mesma pressão e ódio que elas sofriam porque eram gordas demais. Eu acho que as pessoas nunca estão satisfeitas. Ou vão falar que você está ‘pelancuda’ ou que tem que fazer cirurgia ou que se entregaram ao padrão. E antes falavam que era apologia à obesidade”, pontuou.

“Quando você vê as pessoas gordas emagrecendo, aqueles que não entendem dessa pauta falam que o body positive acabou, mas não acabou. Na verdade, todo mundo queria só ter uma chance de viver, de aparecer, de ser livre. Por isso que era corpo livre, deixa a gente ser livre”, endossou ela.

A jornalista destacou ainda que está sendo acompanhada por um médico no processo de “emagrecer com consciência”: “Eu já vi vários resultados de amigos que me fizeram pensar assim: dá pra ter uma vida normal e resolver essa questão. Eu quero ter uma roupa melhor, eu não resolvi tudo. A gente não resolveu tudo. Quem é que não quer isso? Agora parece que a gente emagreceu e virou um monte de Gisele Bündchen. E a gente, na verdade, só está mais magro. A maioria ainda é lido como gordo socialmente”.

Alexandra também comentou como encara o movimento body positive atualmente. “Eu enxergo que ele ainda existe. Ele só talvez não esteja tão coordenado dentro de um discurso ou de um movimento de minoria. Ele é uma realidade. A gordofobia acabou? Claro que não. As pessoas continuam sendo gordofóbicas, mas eu acredito que hoje as pessoas entendem que existe um outro lugar”, observou.

“O que a gente ensinou, o que a gente praticou e o que a gente trouxe ainda existe. E se você for ver no TikTok, o body positive tem outro nome hoje. E as pessoas discutem essa pauta. Virou falar sobre você se sentir bem com você mesmo. É uma coisa mais liberal. Eu acredito que entrou num lugar muito menos de revolta, de ‘você precisa me aceitar’, e está muito mais para um lugar de: ‘a gente tem que considerar a diversidade’, complementou.

Alexandra Gurgel também contou como enxerga o body positive. (Foto: Reprodução/ Instagram)

Gurgel também abordou a mudança de seu conteúdo nas redes sociais. Hoje, ao invés das publicações sobre o body positive, ela conta histórias de relacionamentos nas redes. Segundo a influencer, no entanto, ela pagou o preço com a mudança. “Eu estaria muito melhor hoje se ainda estivesse falando da mesma pauta, pensando no que me fez crescer. Eu paguei um preço durante uns dois anos sem saber o que eu estava fazendo. Mas eu não desfaço, não cuspo no prato que eu comi, porque eu amo a minha história”, admitiu.

“O meu livro hoje [Pare de se odiar] hoje é um grande meme, e eu adoro. Eu virei meme com tantas coisas que eu falei, como pelo direito de ser feia. O povo LGBT, principalmente os gays, me amam nesse lugar de tia Xanda. E isso até me abriu para pensar: cara, vou contar histórias”, continuou.

Para ela, contar as histórias de relacionamentos trouxe um novo olhar. “Eu não tenho que falar sobre mim. Eu até conto minhas histórias raramente, mas eu conto mesmo as de outras pessoas. E aí deu muito certo e eu só faço isso hoje nas redes. Eu cresci 400 mil seguidores de dezembro para cá. Foi a primeira vez em anos, porque eu estava sem fazer conteúdo até então”, concluiu.


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