Acreana baleada após recusar relacionamento apela por prótese ocular

Maria Gerliane da Medeiros da Paixão perdeu a visão de um olho após ser atingida por um disparo de espingarda efetuado por um vizinho que havia sido rejeitado por ela. O crime aconteceu na zona rural de Tarauacá, na região do Igarapé Sacado, interior do Acre. Anos depois da tragédia, ela finalmente se aproxima de uma nova etapa: a Secretaria Municipal de Saúde de Tarauacá iniciou os encaminhamentos para que ela receba uma prótese ocular pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O que aconteceu

Em entrevista ao jornalista Raimundo Accioly, do Blog do Accioly, Gerliane relembrou os fatos que antecederam o ataque. Segundo ela, o agressor era um vizinho comum, sem qualquer histórico de conflitos com a família. Dias antes do disparo, ele teria enviado um bilhete perguntando se ela toparia manter um relacionamento amoroso. A resposta foi não.

No dia do ataque, Gerliane já havia saído da propriedade do vizinho quando ele entrou em casa, pegou uma espingarda e atirou em direção ao seu rosto. Ela estava do outro lado da cerca quando foi atingida. “Eu já estava do outro lado da cerca quando ele pegou e atirou em mim”, relatou.

O disparo atingiu seu rosto e resultou na perda total da visão de um dos olhos. O caso se enquadra no padrão de violência de gênero — também conhecida como feminicídio tentado —, em que a recusa de uma mulher a um relacionamento é respondida com agressão física grave.

Gerliane revela que o episódio do disparo não foi o primeiro sinal de perigo. Antes do crime, ela já havia sido intimidada pelo mesmo homem, que costumava aparecer montado a cavalo nas estradas da comunidade com o intuito de assustá-la. Os sinais de comportamento ameaçador, no entanto, não foram suficientes para evitar a tragédia.

Desde o crime, Gerliane convive não apenas com a perda física da visão, mas também com feridas emocionais profundas. A vergonha diante do próprio rosto, a insegurança nos ambientes sociais e o medo constante do julgamento alheio fizeram com que ela colocasse sonhos em segundo plano e se afastasse de uma vida plena.

A ausência da prótese ocular — um dispositivo que substitui visualmente o olho perdido e tem impacto direto na autoestima e na reintegração social da pessoa — agravou esse isolamento ao longo dos anos.

O caminho para a prótese

A situação começou a mudar com a mobilização de pessoas dispostas a ajudar. Com o apoio da vereadora Janaína Furtado e do secretário municipal de Saúde, Romário Costa, Gerliane passou a ser acompanhada pela Secretaria de Saúde de Tarauacá, que deu início aos encaminhamentos necessários para a realização do procedimento pelo SUS.

A prótese ocular, nesse contexto, representa muito mais do que uma questão estética. Para Gerliane, é o símbolo de uma retomada: a chance de recuperar a autoestima, a confiança e a liberdade de viver sem que a violência sofrida continue sendo o centro da própria história.

Saimo Martins

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
X
Print

Siga nossas Redes Sociais