Acre precisa encarar impasses ambientais no Congresso, diz Assuero

Foto: Jardy Lopes/ac24horas

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre (FAEAC), Assuero Doca Veronez, afirmou que o Acre reúne atualmente as condições sanitárias necessárias para exportar carne bovina a qualquer mercado do mundo. A declaração foi feita durante entrevista concedida ao ac24horas, em parceria com o AC24Agro e o Ecos da Notícia, na cobertura especial da primeira noite da 51ª Expoacre 2026, realizada no Parque de Exposições Wildy Viana, em Rio Branco.

Segundo Veronez, o avanço da pecuária acreana é resultado de anos de investimentos na defesa sanitária, conduzidos pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), produtores rurais e Governo do Estado.

“Hoje estamos habilitados para qualquer mercado mundial. Foi um trabalho de muitos anos na questão sanitária. Conseguimos o reconhecimento como área livre de febre aftosa e isso abriu as portas para a carne acreana no mercado internacional”, afirmou.

Acre exporta carne para cerca de 20 países

O presidente da FAEAC explicou que, antes de autorizar a importação, cada país realiza missões técnicas para avaliar frigoríficos, propriedades rurais e a qualidade do rebanho.

Segundo ele, atualmente o Acre já exporta carne para aproximadamente 20 países, entre eles nações da Ásia, Oriente Médio, América do Sul e América Central.“A tendência é ampliar ainda mais esses mercados. Países como Indonésia e Egito já compram carne brasileira, e o Acre está inserido nesse processo de expansão das exportações.”

Tarifas internacionais e mercado chinês

Durante a entrevista, Veronez comentou os impactos das mudanças no comércio internacional, especialmente em relação às tarifas impostas pelos Estados Unidos e à dependência do mercado chinês.

Ele destacou que a China continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira, respondendo por cerca de metade das exportações nacionais do setor.

Segundo o dirigente, qualquer alteração na demanda chinesa ou nas regras de importação reflete diretamente nos preços pagos aos produtores e, consequentemente, ao consumidor.“Qualquer mudança no mercado internacional interfere no preço da arroba do boi e isso chega até o consumidor, que sente no valor da carne vendida nos açougues.”

Veronez também mencionou as restrições impostas pela União Europeia relacionadas ao uso de antibióticos na produção animal, ressaltando que o Governo Federal trabalha para manter as negociações comerciais com o bloco europeu.

Foto: Jardy Lopes/ac24horas

Defesa dos produtos produzidos no Acre

Outro tema abordado pelo presidente da FAEAC foi a necessidade de fortalecer a economia local por meio da valorização dos produtos acreanos.

Segundo ele, incentivar o consumo de produtos fabricados no estado fortalece toda a cadeia produtiva, gerando emprego, renda e desenvolvimento.“Quando você compra um produto feito no Acre, fortalece a indústria local, o comércio e toda a economia. Muitas vezes o consumidor escolhe uma marca de fora sem conhecer produtos daqui que têm a mesma qualidade ou até superior”, explicou.

Veronez citou como exemplo o crescimento da cafeicultura acreana, que vem conquistando reconhecimento nacional pela produção de cafés especiais.“Não deixe de comprar um produto daqui para beneficiar uma empresa de outro estado. Precisamos prestigiar aquilo que é produzido no Acre.”

Embargos ambientais preocupam setor produtivo

Assuero Veronez também classificou a questão ambiental como um dos maiores desafios enfrentados atualmente pelos produtores rurais do estado.

Segundo ele, milhares de propriedades encontram-se sob embargo ambiental em decorrência de desmatamentos realizados após 2008, quando entrou em vigor o marco estabelecido pelo Código Florestal.

O dirigente afirmou que muitos produtores enfrentam dificuldades para obter crédito rural e comercializar a produção.“Esse é um dos temas mais preocupantes para o setor. A questão ambiental está sendo tratada de forma muito pesada e milhares de produtores vivem hoje uma situação de insegurança.”

De acordo com Veronez, caso toda a área embargada precise ser integralmente recomposta com vegetação nativa, haverá impactos significativos sobre a atividade agropecuária no estado.

Foto: Jardy Lopes/ac24horas

Ele defendeu a construção de soluções que conciliem a preservação ambiental com a permanência das famílias no campo e a continuidade da produção rural.“Precisamos encontrar um caminho que preserve o meio ambiente, mas que também permita ao produtor continuar produzindo e sustentando sua família”, disse.

Veronez também comentou o papel da classe política na busca por soluções para os impasses envolvendo a legislação ambiental. Questionado sobre a atuação da bancada federal do Acre em defesa dos produtores rurais, Veronez afirmou que o tema depende de alterações na legislação federal e reconheceu que nem todos os parlamentares têm a mesma atuação sobre a pauta.

“Tem parlamentares que têm mais identidade com esse tipo de problema, outros nem tanto. Mas a solução passa por mudanças na legislação federal, e esse é o grande desafio”, afirmou.

Segundo o presidente da FAEAC, a dificuldade está em conquistar apoio de parlamentares de outras regiões do país para temas específicos da Amazônia.“Você acha que deputados e senadores do Sul e do Sudeste querem se envolver nessa questão amazônica? Na maioria das vezes, não querem. Por isso, precisamos construir um trabalho de articulação muito forte em Brasília”, disse.

Veronez revelou que já existem propostas legislativas em discussão para alterar pontos do Código Florestal, entre elas a mudança da data de referência utilizada para os embargos ambientais, atualmente fixada em 2008.

“Já existe um projeto de lei tratando dessa questão, propondo que essa data seja atualizada para 2020. Precisamos encontrar uma solução para esse problema”, explicou.

Por fim, o dirigente afirmou que as entidades representativas do setor produtivo pretendem intensificar, a partir de 2027, o diálogo com o Congresso Nacional em busca de mudanças na legislação ambiental. “As nossas entidades já estão se organizando. A partir de janeiro do próximo ano teremos que fazer um trabalho muito forte junto ao Congresso para corrigir algumas medidas que, na nossa avaliação, foram adotadas de forma equivocada e hoje estão trazendo consequências para milhares de produtores rurais”, concluiu.

Saimo Martins

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Print
LinkedIn

Siga nossas Redes Sociais

Leia também