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nome do barco da Tamara Klink é Sardinha. Quem deu esse nome foi sua avó, porque a sardinha é um peixe pequeno e ao qual, à primeira vista, ninguém dá muito valor. Só que as sardinhas conseguem atravessar grandes distâncias e nunca estão sozinhas: nadam sempre em cardumes.
Pensei muito nessa imagem quando decidi escrever sobre amor. Pensei nisso porque conversei com várias pessoas e chegamos num lugar-comum: a gente cresce achando que amor é uma coisa só. Aquela pessoa especial, o casal perfeito, a metade da laranja, o final feliz. Mas e o cardume? E as pessoas que aparecem quando o prédio está pegando fogo?
Você sabe de onde veio essa ideia da metade da laranja? Ela tem mais de dois mil anos. Em O Banquete, Platão conta que, antigamente, éramos seres duplicados: tínhamos quatro pernas, quatro braços, duas cabeças. Éramos tão fortes que Zeus, com medo de perder o poder, nos cortou pela metade. Desde então, cada um de nós viveria sentindo falta de algo, buscando supostamente a outra metade de si.
Ana Suy, psicanalista e escritora, usa a fábula em seu livro A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão para mostrar que essa é uma fantasia amorosa bastante comum: a de que encontrar o grande amor nos livraria de nós mesmos, nos preencheria, resolveria nossa falta. Mas ela lembra: no amor, o que se experimenta é o contrário. Quando amamos alguém, a falta tende a ser duplicada. A gente encontra a metade que fará falta a partir dali. Mira-se no amor e acerta-se na solidão.
Não se trata de pessimismo. É liberdade. Porque somos seres faltantes, e isso não é um problema. Ninguém salva ninguém. E assumir essa máxima pode ser justamente aquilo que nos anima na vida. Ana Suy lembra ainda que não queremos ser amadas apenas pela nossa presença, mas especialmente pela nossa falta. Existe algo muito bonito nisso.




