Contratos do NewJeans revelam como o controle abusivo ainda é comum no K-pop


U

ma investigação publicada pelo jornal estadunidense The New York Times nesta semana, revelou detalhes de contratos confidenciais assinados pelas integrantes do NewJeans com a ADOR, gravadora subsidiária da HYBE. Os documentos, apresentados quando as artistas ainda eram adolescentes, expõem cláusulas que vão muito além de compromissos profissionais e levantam questionamentos sobre a proteção dos direitos de jovens artistas na indústria do k-pop.

A reportagem teve acesso aos acordos firmados por Minji, Hanni, Danielle, Haerin e Hyein, que tinham entre 14 e 17 anos quando assinaram os contratos. Segundo a investigação, os documentos deixavam de lado garantias previstas no modelo recomendado pelo governo da Coreia do Sul, incluindo direitos básicos relacionados à saúde física e mental, ao descanso e à educação.

As revelações reacenderam o debate sobre as condições de trabalho impostas a artistas de K-pop e sobre o poder das grandes empresas de entretenimento na gestão da carreira e da vida pessoal de seus contratados.

View this post on Instagram
Continua após a publicidade

O que os contratos do NewJeans escondiam?

Um dos pontos mais preocupantes da investigação é a ausência de medidas específicas para proteger as integrantes enquanto menores de idade. A rotina de preparação para a estreia do NewJeans chamou a atenção. Antes do debut, em 2022, as integrantes passaram por treinamentos intensivos de canto, dança e idiomas. De acordo com relatos ouvidos pelo New York Times, os ensaios podiam se estender até as 2h da manhã. Hyein, a integrante mais nova, tinha apenas 12 anos durante parte desse período.

Os contratos ainda traziam regras bastante abrangentes sobre o comportamento das artistas. Entre as condutas que poderiam ser consideradas violações estavam uma suposta “atitude insincera”, a “negligência com a autogestão” e o envolvimento em “relacionamentos amorosos inadequados”. Também havia restrições à divulgação de informações que pudessem prejudicar a reputação da empresa.

Outro detalhe que gerou indignação foi a previsão de reembolso de despesas com procedimentos estéticos realizados durante o período de treinamento.

Continua após a publicidade

Uso de imagem e voz por inteligência artificial

Segundo a reportagem, os acordos também concediam à ADOR direitos de utilização e licenciamento dos nomes, fotografias, imagens, caligrafias e vozes das integrantes por tempo indeterminado. Isso incluiria a possibilidade de utilizar suas identidades em produtos digitais, como chatbots e clones de voz desenvolvidos com inteligência artificial (IA), mesmo depois do encerramento dos contratos, previsto para 2029.

Na prática, a preocupação está na possibilidade de a gravadora continuar explorando comercialmente elementos da identidade das artistas sem que elas tenham o mesmo controle sobre essas decisões após o término do vínculo profissional.

Os contratos também permitiriam que a empresa continuasse comercializando e relançando gravações do grupo, com alterações nos percentuais de royalties repassados às integrantes depois do encerramento da parceria.

Continua após a publicidade

A disputa com a ADOR

As condições financeiras dos acordos também foram questionadas por especialistas ouvidos pelo jornal. Uma das cláusulas previa penalidades elevadas em caso de rompimento antecipado do contrato, calculadas a partir da média de receita mensal do grupo durante os períodos lucrativos.

O assunto ganha ainda mais relevância diante da disputa judicial entre o NewJeans e a ADOR. Em novembro de 2024, as integrantes anunciaram que pretendiam encerrar seus contratos com a gravadora, alegando quebra de confiança e problemas na relação profissional. A empresa contestou a decisão e recorreu à Justiça para manter os vínculos contratuais.

Continua após a publicidade

Em 2025, a disputa ganhou novos capítulos, incluindo a tentativa das integrantes de seguir atividades independentes sob o nome NJZ. Em dezembro daquele ano, a ADOR anunciou a rescisão do contrato de Danielle e entrou com uma ação judicial contra a cantora, buscando uma indenização milionária. Segundo a investigação, a empresa também apontou supostas atividades individuais não autorizadas.

O caso ajuda a dimensionar o peso das penalidades previstas nos documentos e o impacto que uma disputa contratual pode ter na trajetória de artistas que começaram a carreira ainda muito jovens.

Min Hee Jin rebate acusações e aponta responsabilidade da HYBE

Após a repercussão da reportagem, Min Hee Jin, ex-CEO da ADOR e responsável pela criação do NewJeans, também se manifestou sobre o conteúdo dos contratos. Em comunicado divulgado na sexta-feira (6), sua equipe rebateu a tentativa da HYBE de atribuir a ela a responsabilidade pelos acordos e afirmou que a controladora tinha a palavra final sobre as decisões contratuais.

Continua após a publicidade

Segundo a declaração, a ADOR não possuía uma equipe jurídica independente na época. Por isso, a elaboração da primeira versão dos contratos e as revisões posteriores teriam sido conduzidas pelo departamento jurídico da própria HYBE. A equipe de Min também afirmou que a aprovação dos documentos dependia de diferentes instâncias da empresa, incluindo os departamentos jurídico e financeiro, o CEO da HYBE e o conselho administrativo da ADOR.

Outro argumento apresentado foi que, em janeiro de 2024, Min Hee Jin teria solicitado ao então CEO da HYBE, Park Ji-won, autonomia para assinar contratos importantes, incluindo acordos de exclusividade com artistas. Segundo sua equipe, o pedido foi recusado, o que demonstraria que a ADOR não tinha independência para tomar decisões dessa dimensão.

A ex-executiva também questionou a postura da companhia. Se os contratos não apresentavam problemas, por que a HYBE estaria tentando transferir a responsabilidade pela elaboração dos documentos? Para ela, participar das negociações e assinar os acordos não significa necessariamente ter autoridade para definir suas principais cláusulas.

O que diz a HYBE?

Em resposta às revelações, a HYBE e a ADOR também divulgaram um posicionamento oficial. As empresas afirmaram que os contratos foram negociados de boa-fé, com a participação das integrantes, de seus responsáveis e de representantes legais, e que estavam em conformidade com a legislação sul-coreana.

Sobre a ausência das proteções previstas no modelo contratual recomendado pelo governo, a empresa alegou que suas subsidiárias também firmavam acordos complementares específicos para adolescentes. Segundo a HYBE, esses documentos garantiam direitos como descanso, sono, educação e proteção à integridade física e emocional das artistas.

A companhia ainda contestou as críticas à fórmula de cálculo das multas rescisórias, afirmando que o efeito financeiro seria equivalente ao previsto no contrato padrão da indústria. Sobre o uso de imagem e voz por inteligência artificial, declarou que qualquer aplicação desse tipo dependeria do consentimento individual das artistas e que não tem planos de explorar suas identidades sem autorização.

A HYBE também reforçou que Min Hee Jin, então CEO da ADOR, participou das negociações e assinou os documentos, junto às integrantes e seus familiares. As versões apresentadas pelas duas partes colocam em evidência uma disputa sobre quem tinha, de fato, o poder de decisão na elaboração dos contratos.

O que o caso representa para o k-pop?

As revelações sobre o NewJeans vão além de mais um capítulo da longa disputa entre Min Hee Jin e a HYBE. Elas também levantam uma discussão importante sobre a estrutura da indústria do k-pop, especialmente quando envolve artistas que começam a trabalhar ainda na infância ou adolescência.

O sistema de treinamento sul-coreano é conhecido por sua preparação intensa, que pode envolver anos de aulas, avaliações, ensaios e regras de comportamento antes mesmo da estreia de um grupo. Embora esse modelo tenha contribuído para a projeção internacional do estilo, ele também é frequentemente questionado pelas condições de trabalho e pelo nível de controle exercido pelas empresas sobre seus artistas.

No caso do NewJeans, a investigação do The New York Times aponta para a dimensão que esse controle pode alcançar. Não apenas a rotina profissional das meninas, mas também sua liberdade pessoal, seus direitos financeiros e até a utilização de suas identidades depois do encerramento dos contratos. Para os fãs, as revelações também trazem uma nova perspectiva sobre o conflito que começou em 2024 e sobre as tentativas das integrantes de se desvincular da ADOR.

Publicidade

Com informações da Capricho

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Print
LinkedIn

Siga nossas Redes Sociais

Leia também