Laura Dutra celebra personagens complexas e a força de novas gerações

Laura Dutra Joana Violeta Lima/Divulgação


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ntre momentos de criatividade e imaginação, Laura Dutra encontrou sua verdadeira paixão quando teve a oportunidade de atuar pela primeira vez. “Entendi que o meu lugar também poderia ser em cima do palco”, disse ela sobre a primeira personagem que interpretou, que tinha apenas uma cena, mas foi o suficiente para que ela se encontrasse na carreira de atriz.

Dividindo a trajetória entre projetos em Portugal e no Brasil, Dutra se prepara para unir um pouco de seus dois lados no remake português de Avenida Brasil. Em entrevista exclusiva à CAPRICHO, ela compartilhou a sensação de construir a própria versão de Rita/Nina, personagem eternizada por Débora Falabella em um dos maiores títulos da televisão brasileira. “Ela é uma atriz incrível. Sei que as nossas Ninas serão diferentes. É justamente isso que quero explorar. Espero que o público brasileiro também se divirta e se emocione com a nossa versão! Darei o meu melhor”, destacou.

“Cresci assistindo a Avenida Brasil com o meu irmão e sem dúvida, é uma das novelas mais marcantes para mim. Dar vida à Nina/Rita na versão portuguesa é um desafio enorme, que encaro com muito respeito, dedicação e vontade de fazer dar certo”, acrescentou Laura sobre a responsabilidade de encarar uma personagem tão complexa. “Não queremos nem podemos replicar o que já foi feito, mas sim adaptar essa história à realidade portuguesa e encontrar a nossa própria identidade, respeitando a obra”, completou.

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Em paralelo, a atriz vive outro momento de destaque com sua personagem em Vermelho Sangue. A série sobrenatural do Globoplay trouxe diferentes conflitos que conquistaram o público com nuances que geram não só identificação, como também criam debates que movimentam as redes sociais. É o caso de Celina, personagem ambígua que ganhou vida na interpretação de Laura.

A maior complexidade foi entender como construir camadas que fizessem o público amá-la e odiá-la ao mesmo tempo.

Laura Dutra

Ao lado de Alanis Guillen, Dutra também faz parte da construção do casal “Florina”, junção entre os nomes Flora e Celina. “Normalizar o amor entre duas mulheres em uma série vista por tantas jovens é muito importante. Acredito muito na força das novas gerações e fico muito feliz em saber que Florina se tornou uma voz de uma geração que luta diariamente contra a homofobia”, celebrou Laura.

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Confira a entrevista completa com Laura Dutra:

CAPRICHO: Você se lembra do momento que soube que atuação era o que queria para sua vida? Quando aquela faísca de certeza despertou em você?

Laura Dutra: Desde pequena adorava inventar e montar teatrinhos para apresentar à família durante as férias de verão. Aos 12 anos, implorei aos meus pais para me deixarem fazer um workshop de teatro perto da minha escola e foi aí que começou. Era um grupo de adultos e eu era a caçula, mas nunca me senti deslocada. Pelo contrário, sentia que aquele era o meu lugar. Gostei tanto da experiência que quando o workshop terminou comecei a “trabalhar” no teatro do encenador que nos deu esse curso. Fiz de tudo um pouco: limpava o palco, organizava as cadeiras, ajudava os atores nas trocas de roupa, participava da logística da produção e também picava os ingressos. A faísca surgiu quando tive a oportunidade de dar vida a uma personagem. Tinha apenas uma cena, mas foi aí que entendi que o meu lugar também poderia ser em cima do palco.

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Analisando sua trajetória, tem algum momento que se destaca quando você olha para trás?

Receber o prêmio de Atriz Revelação da Academia Portuguesa de Cinema pelo meu primeiro longa-metragem foi muito especial. O Sérgio Graciano, diretor de A Impossibilidade de Estar Só apostou em mim para co-protagonizar o filme mesmo sabendo que era a minha primeira experiência no cinema e sou muito grata por essa confiança. Receber esse reconhecimento tão no início do meu percurso me deu muita força para continuar a estudar e a crescer como atriz. E, mais recentemente, fazer a Celina em Vermelho Sangue foi outro momento muito marcante porque me abriu as portas ao mercado brasileiro, que era um sonho meu há muito tempo.

Você se lembra de algum momento em que rolou algum tipo de dúvida sobre o caminho que queria seguir, sobre seu próximo passo? Como você encarou isso?

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Sou privilegiada porque desde que comecei, nunca parei de trabalhar. Tenho plena consciência de que isso é raro na nossa profissão e sou muito grata por isso. Tenho colegas brilhantes que precisam ter outros trabalhos para pagar as contas e continuar lutando pelo sonho de serem atores. É uma profissão muito instável e, infelizmente, nem sempre o talento é suficiente para garantir oportunidades.

Por isso não tomo nada como garantido. Até hoje, todas as decisões que tomei foram muito pensadas e conversadas com as pessoas mais próximas de mim e não me arrependo de nenhuma. Claro que sempre vão existir dúvidas sobre projetos, papéis ou caminhos a seguir, mas ter uma rede de apoio em quem confio me ajuda muito a lidar com essas incertezas e a manter os pés no chão.

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Falando de Vermelho Sangue, a Celina é uma personagem muito amada, apesar de ser muito ambígua também. Como foi equilibrar esses aspectos da personalidade dela?

A Celina foi um enorme desafio. A maior complexidade foi entender como construir camadas que fizessem o público amá-la e odiá-la ao mesmo tempo. Para mim, esse é o objetivo de qualquer antagonista: o público sabe que ela é maliciosa, mas ainda assim, não consegue odiá-la. Fico feliz em sentir que consegui isso com a minha vampira. Ela é ambígua, difícil de decifrar, e isso desperta a curiosidade de quem assiste.

A Celina também não sabe muito bem como lidar com o amor, e acredito que muita gente se identifica com isso. A história dela com a Flora começa de uma forma inesperada, tanto para o público quanto para ela própria. A Celina não consegue controlar o que sente, mas continua tendo que tomar decisões para garantir a própria sobrevivência. O equilíbrio está justamente em não deixar que o público se esqueça de que, por trás da vulnerabilidade, existe uma vampira capaz de fazer escolhas cruéis.

Se, de alguma forma, a nossa história fizer alguém se sentir representado, acolhido ou mais livre para ser quem é, já terá valido a pena.

Laura Dutra

O relacionamento de Florina também fez muito barulho nas redes sociais. Muita gente se identifica com essas personagens em um nível mais profundo e pessoal. Como você se sente sendo porta-voz de relações que são tão importantes de serem mostradas nas telas?

Eu e a Alanis tivemos a oportunidade de mostrar que o amor não escolhe gênero, idade ou padrões. Acho brilhante a forma como Vermelho Sangue retrata essas relações, porque elas fazem parte da normalidade da história e não são tratadas como uma exceção. É assim que deveria ser na vida também. Normalizar o amor entre duas mulheres em uma série vista por tantas jovens é muito importante. Acredito muito na força das novas gerações e fico muito feliz em saber que Florina se tornou uma voz de uma geração que luta diariamente contra a homofobia. Se, de alguma forma, a nossa história fizer alguém se sentir representado, acolhido ou mais livre para ser quem é, já terá valido a pena.

Laura DutraJoana Violeta Lima/Divulgação

Quando você passa muito tempo interpretando uma personagem, ela cria uma certa raiz dentro de você. Mas teve algo seu que você sente que emprestou na construção da Celina?

Emprestei à Celina meu humor mais ácido. Sempre fui muito crítica em relação a papéis cômicos, porque acredito que reduzir uma personagem a uma única característica acaba sendo limitador. Na vida não somos só bons, maus ou engraçados o tempo todo, e são justamente essas contradições que nos tornam interessantes. Tento levar isso para todas as minhas personagens, e com a Celina não foi diferente. Ela acabou ganhando um lado cômico que não estava previsto no início, mas que funcionou muito bem.

A verdade é que a Celina também é resultado da liberdade que me deram para construí-la. A Patrícia Pedrosa, coordenadora do projeto, e as autoras Cláudia Sardinha e Rosane Svartman abriram espaço para explorarmos as personagens sem medo. Isso é muito enriquecedor para um ator. Sou muito grata às três por terem confiado em mim e permitido que a Celina se tornasse também um pouco minha.

O que você desejaria para o futuro dela se tivesse a chance?

No cenário mais idílico imagino a Celina e a Flora numa rave em Berlim, depois de sugarem o sangue de mais uns quatro ou cinco homens que foram idiotas com elas. Brincadeiras de parte, adoraria explorar uma possível redenção da Celina, com ela tentando conquistar o perdão da Flora e enfrentando todos os desafios de se tornar uma pessoa melhor. Todos os caminhos dariam uma história incrível. Mas, acima de tudo, quero que Florina viva por milênios! Que essas vampiras possam aproveitar a eternidade juntas.

Avenida Brasil se tornou uma das maiores produções da televisão brasileira e você vai viver uma das personagens mais marcantes na versão de Portugal. Como foi receber essa notícia?

Receber esse convite foi muito especial! Cresci assistindo a Avenida Brasil com o meu irmão e sem dúvida, é uma das novelas mais marcantes para mim. Dar vida à Nina/Rita na versão portuguesa é um desafio enorme, que encaro com muito respeito, dedicação e vontade de fazer dar certo.

A novela original, a produção e os atores que deram vida àquela história são incontornáveis. Não queremos nem podemos replicar o que já foi feito, mas sim adaptar essa história à realidade portuguesa e encontrar a nossa própria identidade, respeitando a obra. Admiro muito o trabalho da Débora Falabella, que é uma atriz incrível e sei que as nossas Ninas serão diferentes. É justamente isso que quero explorar. Espero que o público brasileiro também se divirta e se emocione com a nossa versão! Darei o meu melhor.

E como você está se preparando para interpretar uma personagem tão complexa? Tem algo especial que você gosta de fazer nas suas preparações para papéis específicos?

A descoberta da personagem é uma das partes do processo de que mais gosto. Investigar o passado, imaginar os gostos, os traumas e as camadas que fazem dela quem é. No caso da Nina, vai ser especialmente desafiador entender essa busca tão intensa por vingança, porque é um sentimento muito distante de mim. Não me considero uma pessoa vingativa, então estou muito curiosa para descobrir onde vou buscar toda essa raiva e essa sede de justiça contra a Carminha.

Uma coisa que gosto de fazer na preparação é construir a linha do tempo da vida de cada personagem, e com a Nina não será diferente. Quero me aprofundar em momentos como a morte do pai, o abandono da Carminha e a separação do Batata, porque acredito que entender essas feridas é essencial para compreender as escolhas dela. Estou muito ansiosa para começar esse processo e me sinto pronta para o desafio!

Laura DutraJoana Violeta Lima/Divulgação

O que você gosta de fazer no seu tempo livre? Para se desconectar um pouco?

Um dia de sol, um mergulho no mar e uma água de coco gelada curam muita coisa. Gosto de juntar os meus amigos seja em que situação for. O esporte também me ajuda a desconectar e fazer exercício me ajuda sempre.

Você também parece ter uma conexão muito forte com a moda. Você usa esse recurso como forma de expressão também? Pode falar um pouco da sua relação com isso?

Sempre gostei daquilo que foge do óbvio, que é diferente e tem algo especial. Acho que a moda vive muito disso, e é por isso que me identifico tanto com essa forma de expressão. Me considero uma artista em vários sentidos, e explorar a moda também me ajuda a abrir a cabeça, experimentar outras linguagens e sair um pouco da bolha da atuação. Adoro ver novos talentos surgindo e designers que não têm medo de arriscar, como é o caso do José Rocha, designer destas peças que usámos no editorial. Para mim, a moda também é uma forma de poder e liberdade.

Estamos obcecadas: Quais são as três coisas que você está obcecada no momento?

No momento, meu hiperfoco tem sido a política brasileira. A democracia está em pauta e não consigo tirar esse assunto da cabeça porque é algo que afeta não só o Brasil, mas o mundo inteiro. Estamos vivendo uma polarização crescente em vários países, e acredito que é importante nos posicionarmos. Defender a democracia deveria ser um compromisso de qualquer cidadão, independente de ser de esquerda ou de direita.

Também estou obcecada por um livro maravilhoso da jornalista feminista Nellie Bly, dez dias num hospício. Ela se infiltrou em um manicômio em 1887 e documentou as condições desumanas a que as pacientes eram submetidas. É uma história real e muito impactante, que me faz pensar sobre o poder, a liberdade e a forma como as mulheres foram e são tratadas.

E para terminar sem deixar o clima tão pesado, descobri que tenho um hiperfoco em bao! Aquele pãozinho asiático superfofo cozido no vapor, que parece um abraço em forma de comida. Recomendo a todos.

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Com informações da Capricho

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