A estratégia digital utilizada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) durante a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou a ser reproduzida fora do Brasil. Na França e na Argentina, movimentos políticos criaram canais de mobilização inspirados no chamado “Exército do Lula”, que reuniu quase 11 milhões de seguidores no WhatsApp durante a disputa presidencial.
O fenômeno ganhou dimensão internacional depois do segundo turno, realizado no domingo (25). Na França, um deputado anunciou publicamente a intenção de utilizar métodos semelhantes aos empregados no Brasil. Na Espanha e no México, surgiram relatos de convites para que Janones compartilhe sua experiência com lideranças políticas.
A repercussão também chegou à imprensa internacional. O jornal espanhol El País publicou, na terça-feira (27), uma reportagem dedicada à atuação do parlamentar brasileiro, apresentando-o como o “general do WhatsApp” que ajudou a mobilizar apoiadores de Lula.
França cria grupo inspirado no Exército do Lula
Na França, apoiadores do movimento A França Insubmissa, ligado ao político Jean-Luc Mélenchon, criaram o “Les Soldats Insoumis”, expressão que significa “Soldados Insubmissos”.
O grupo reunia mais de 15 mil participantes no WhatsApp até terça-feira (27), além de manter atividades no Telegram e em outras redes sociais.
A organização utiliza uma dinâmica semelhante à do canal brasileiro, com pedidos para compartilhar publicações, impulsionar hashtags e convidar novos integrantes.
A experiência também despertou a atenção do partido A França Insubmissa, que criou um canal oficial chamado “L’équipe de Mélenchon”.
Em um vídeo dirigido aos apoiadores, o deputado francês Antoine Léaument fez referência direta à mobilização brasileira.
“Nós vimos bem o que aconteceu no Brasil e não se preocupem, vamos aplicar um método que funcione”, afirmou o parlamentar, segundo a Rádio França Internacional (RFI).
A França realizará eleições presidenciais em abril de 2027, e os grupos surgem em meio à preparação dos movimentos políticos para a disputa.
A historiadora Silvia Capanema, professora da Universidade Sorbonne Paris Nord e integrante do partido A França Insubmissa, confirmou a existência de iniciativas inspiradas no modelo brasileiro.
“Tem algumas iniciativas circulando na França inspiradas diretamente pela experiência brasileira”, afirmou à RFI.
A pesquisadora, entretanto, ressaltou que as condições políticas francesas são diferentes das brasileiras e que o modelo não pode ser simplesmente reproduzido sem adaptações.
Argentina já reúne mais de 32 mil apoiadores
Na Argentina, simpatizantes do kirchnerismo criaram uma iniciativa chamada “Exército do Peronismo”, que também faz referência à mobilização organizada por Janones.
O movimento utiliza redes sociais e aplicativos de mensagens para reunir apoiadores e divulgar conteúdos políticos.
Até terça-feira (27), o canal argentino no WhatsApp contabilizava mais de 32 mil seguidores, segundo dados apresentados pela RFI.
A criação do grupo representa outro exemplo concreto da circulação internacional do modelo de organização digital utilizado durante a campanha presidencial brasileira.
Janones recebeu convite para atuar na Espanha?
Na Espanha, aliados de Janones confirmaram à imprensa brasileira que o deputado recebeu um convite para colaborar com a campanha do primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).
A informação foi divulgada na terça-feira (27), em meio à preparação para as eleições gerais espanholas, previstas para 29 de novembro.
Ainda não há confirmação pública de um acordo formal entre Janones e o PSOE nem anúncio de viagem ou participação efetiva do deputado na campanha.
O interesse pela experiência brasileira ocorre em um momento de intensa disputa política na Espanha, onde os socialistas enfrentam a oposição do Partido Popular e do Vox.
México também procura Janones após eleição brasileira
O nome do deputado também chegou ao México, governado pela presidente Claudia Sheinbaum.
Uma reportagem publicada na terça-feira (27) revelou uma mensagem atribuída a Efraín Guadarrama, apresentado como integrante da equipe do Ministério das Relações Exteriores mexicano.
“Hoje de manhã a presidenta Claudia Sheinbaum pediu que eu lhe transmitisse um convite para visitar o México, quando as agendas permitirem”, diz o texto atribuído ao representante.
A visita teria como objetivo discutir experiências de mobilização política e comunicação digital.
Até o momento, não foi divulgada uma data para a viagem nem uma confirmação independente do convite pelos canais oficiais da Presidência mexicana.
Como Janones reuniu quase 11 milhões de seguidores?
A dimensão da mobilização brasileira chamou a atenção de veículos internacionais.
Em reportagem publicada na terça-feira (27), a Al Jazeera informou que o canal Exército do Lula tinha aproximadamente 60 mil seguidores após o primeiro turno e chegou perto de 11 milhões até o dia da votação decisiva.
O crescimento ocorreu em cerca de três semanas, período em que Janones passou a organizar ações digitais e distribuir tarefas aos participantes.
Entre as orientações estavam compartilhar vídeos, divulgar conteúdos da campanha, comentar publicações e convidar novos integrantes.
A Al Jazeera ouviu especialistas em comunicação política sobre a estratégia.
O professor Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destacou a dimensão inédita da iniciativa, embora a relação entre a mobilização digital e o resultado eleitoral não possa ser medida diretamente.
O jornal espanhol El País também examinou o crescimento do canal e a atuação de Janones durante a campanha, destacando a tentativa de alcançar eleitores fora dos grupos tradicionalmente ligados à esquerda.
Na noite da vitória, Lula agradeceu publicamente ao deputado e o chamou de “nosso general”.
“Ele teve um papel exponencial nesta campanha, de levantar a moral da nossa tropa todos os dias, de manhã, de tarde e de noite”, afirmou o presidente, em declaração reproduzida pela Al Jazeera.
Durante participação de live organizada pelo deputado federal André Janones (Rede), o criador do canal, Lula disse, em tom irônico, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “está preocupado” com esse exército.
Estadao Conteudo | 13:48 – 24/10/2026



