‘Fui mesária em um 2º turno inédito e tumultuado nas eleições do Brasil’

 (Sofia Duarte/CAPRICHO)


F

ui convocada para ser mesária pela terceira vez nestas eleições gerais. Isso significa que, não havendo uma justificativa plausível para me abster, preciso trabalhar nos dois turnos das 7h às 17h, sem ganhar nada a não ser folgas no trabalho. Desta vez, fui presidente de mesa receptora de votos, o cargo considerado mais importante, que coloca sua assinatura em vários documentos e é responsável pela urna eletrônica no local de votação.

O domingo de segundo turno na minha seção, que já é considerada tranquila em uma escola estadual na cidade de São Paulo (SP), foi igualmente calmo. Um único número a ser digitado na urna evitou aglomerações, filas e possíveis constrangimentos, diferente do primeiro turno, em que a maior quantidade de cargos a serem votados gerou confusões (e esquecimento) de números.

Fiquei tocada pelos jovens levando avós, inclusive aqueles que têm mobilidade reduzida, para exercerem seu direito democrático. E também foi emocionante acompanhar esses mesmos idosos preocupados com o futuro dos que vieram depois deles.

O único momento mais tenso foi quando as urnas estavam prestes a serem fechadas. Pouco antes das 17h, uma senhora, ainda dentro da escola, esperava um motoboy trazer o documento com foto que tinha esquecido em casa. Não poderíamos encerrar os trabalhos antes de ela votar, uma vez que a eleitora já se encontrava nas dependências internas do colégio, e assim fizemos.

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Nesse momento, voluntários do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) nos orientaram a já agilizar os protocolos de encerramento, porque, assim que o documento chegasse para a última pessoa votar, ficaria mais fácil e rápido de entregar a urna.

Com tudo isso acontecendo, não estava atenta às notícias nas redes sociais, mas recebi uma mensagem da minha mãe dizendo que ambos os candidatos à presidência tinham pedido a prorrogação do horário de votação para às 19h. Cheguei até a comentar a situação com meus colegas mesários, porém não recebemos nenhuma instrução da organização da zona eleitoral.

Prosseguimos com o que pede o término da votação. Imprimimos os boletins de urna e outros papéis necessários, retiramos a mídia de resultados, assinamos tudo e estávamos prontos para entregar a urna na caixa. Isso era 17h05, quando recebi outra mensagem da minha mãe dizendo que, na ausência de ação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o Supremo Tribunal Federal (STF) – corte máxima do país – tinha determinado o adiamento do horário de votação. Pensei: “E agora?”.

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A fila para entregar as urnas não andava e fui me informar com os voluntários do TRE presentes. “O que está acontecendo? Quem chegar agora vai poder votar? Vai ter voto impresso?”. Apesar de terem cogitado, sim, o voto impresso para quem chegasse para votar após às 17h, a verdade é que ninguém tinha nenhuma informação concreta, apenas dúvidas. Era um fenômeno inédito.

Um breve contexto para você

O fechamento das urnas neste domingo (25) teve um impasse entre o STF e o TSE — e as duas campanhas haviam pedido mais tempo para votar, por motivos diferentes.

O PT apontou falta de transporte público, inicialmente em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia, e depois ampliou o pedido para todo o país. Já o PL alegou chuvas fortes, alagamentos e falta de energia em municípios de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Mas os pedidos ficaram parados na mão do TSE, que pediu “mais tempo para analisar”.

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Sem uma decisão do TSE, meia hora antes de fecharem as urnas, o ministro Cristiano Zanin, do STF, determinou a prorrogação da votação até às 19h, mas a ordem foi comunicada quando muitas seções já tinham fechado e o TSE começado a somar os votos, levando à interrupção temporária da apuração.

A orientação final, vinda do TSE, mesmo tardia, foi que permanecessem fechadas, só as seções ainda abertas poderiam continuar recebendo eleitores até as 19h, com a retomada da totalização e da divulgação dos resultados prevista para depois desse horário.

Assim, o Brasil escolheu quem vai comandar o país pelos próximos quatro anos: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25), após vencer Flávio Bolsonaro (PL), e conquistou seu quarto mandato como presidente.

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Ficamos aguardando sem saber o que aconteceria. Até que o ministro Kassio Nunes Marques, do TSE, declarou que a votação se estenderia apenas nas seções em que as urnas ainda estavam abertas, o que não era o caso de nenhuma seção da minha escola. Por isso, fomos todos liberados às 18h, e realmente quem chegasse depois do horário original não conseguiria votar.

O sentimento foi de desordem. Longe das notícias, imersa no local do tumulto, não entendia o que estava acontecendo. Só fui me informar quando cheguei em casa e, aí, assimilei os motivos de pedido de prorrogação. E também vi gente indignada com os mesários e voluntários das escolas, o que é injusto; recebemos ordens e não podemos responder pelas irresponsabilidades de pessoas e instituições que estão muito acima do nosso alcance.

Ser mesária é assumir um compromisso com o funcionamento da democracia, mas isso não significa ter respostas para tudo o que acontece ao redor dela. No domingo, cumprimos nossas funções seguindo as orientações que recebíamos, mesmo diante de uma situação excepcional que gerou dúvidas e informações desencontradas. Saí da escola com a sensação de que faltou clareza justamente para quem tenta fazer tudo funcionar da melhor maneira possível. 

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E é fundamental lembrar que a urna eletrônica e o método de votação brasileiro são pilares do nosso sistema democrático. Mas isso tudo envolve muito mais do que a contabilização de votos; implica também nas decisões políticas e institucionais que podem impactar o processo e até quem está na linha de frente para fazê-lo acontecer.

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Com informações da Capricho

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