O julgamento do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a menina Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, em Niterói, no Rio de Janeiro, foi novamente adiado. A sessão, que estava prevista para quarta-feira (21), foi remarcada para 5 de maio de 2027, mais de seis anos após a morte da criança.
O caso voltou a ganhar repercussão nacional depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou o senador Flávio Bolsonaro (PL), durante o debate presidencial da Band, no domingo (18), sobre sua participação na defesa do policial.
Em 2024, Flávio integrou a equipe de advogados que apresentou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do militar pelo Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado, mas, até agora, o acusado não foi julgado.
Por que o julgamento do caso Ana Clara foi adiado?
A morte de Ana Clara ocorreu em 2 de fevereiro de 2021. Desde então, o processo passou por diferentes instâncias da Justiça, incluindo o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Em novembro de 2021, a 3ª Vara Criminal de Niterói determinou que Bruno Dias Delaroli fosse submetido a júri popular, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida.
A defesa contestou a decisão, mas o TJ-RJ manteve o encaminhamento ao júri em março de 2022.
Os advogados recorreram ao STJ. Em abril de 2024, a Quinta Turma rejeitou, por três votos a dois, um recurso que pretendia impedir o julgamento pelo Tribunal do Júri.
Em outubro daquele ano, a defesa apresentou outro habeas corpus ao STJ, rejeitado por unanimidade em abril de 2025.
O caso também chegou ao STF. A ministra Cármen Lúcia negou o recurso, e a Primeira Turma confirmou a decisão em junho de 2025.
Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a decisão de encaminhar o policial ao júri popular, sem possibilidade de novos recursos contra essa determinação.
Apesar disso, o julgamento ainda não aconteceu.
Inicialmente, a sessão estava prevista para 14 de abril de 2026, data em que Ana Clara completaria 11 anos. Posteriormente, foi transferida para 21 de outubro.
No fim de agosto, a família recebeu a informação de que o júri havia sido novamente remarcado, desta vez para 5 de maio de 2027.
Em entrevista à Agência Pública, Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, afirmou ter sido informada de que o adiamento ocorreu porque a juíza responsável teria outro compromisso na data anteriormente prevista.
A justificativa foi relatada pela mãe e não representa uma confirmação independente do motivo pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Participação de Flávio Bolsonaro na defesa do policial
O nome de Flávio Bolsonaro aparece entre os advogados de Bruno Dias Delaroli em um acórdão do STJ de abril de 2024.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o senador consta como o primeiro de cinco advogados relacionados no documento, com inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Distrito Federal.
O recurso apresentado pela defesa buscava reverter a decisão que havia determinado o julgamento do policial pelo Tribunal do Júri.
Os advogados argumentaram que o local do crime não havia sido preservado adequadamente, que parte da acusação se baseava em depoimentos indiretos e que não existiam provas de intenção de matar.
A Quinta Turma do STJ rejeitou o recurso por três votos a dois.
A maioria dos ministros não analisou o mérito das alegações porque entendeu que a defesa não havia contestado todos os fundamentos utilizados pelo TJ-RJ.
O acórdão consultado pela Folha não esclarece se Flávio Bolsonaro assinou pessoalmente as peças processuais.
Em um novo habeas corpus apresentado em outubro de 2024, o nome do senador já não constava entre os advogados responsáveis pela defesa.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre o caso?
A atuação do senador voltou ao debate público durante o encontro entre os candidatos à Presidência da República, realizado pela Band no domingo (18).
Lula questionou o adversário sobre sua participação na defesa do policial acusado de matar Ana Clara.
Flávio Bolsonaro defendeu o exercício da advocacia e argumentou que todo acusado tem direito à defesa.
A participação do senador no processo ocorreu na condição de advogado. O direito à ampla defesa e ao contraditório é assegurado pela Constituição Federal.
O advogado Paulo Klein, que também atuou na defesa de Delaroli, afirmou à Folha que os procedimentos adotados estavam de acordo com o exercício da advocacia.
Segundo o jornal, Klein declarou ter convicção da inocência do policial e afirmou que os atos praticados pela defesa, com apoio de Flávio Bolsonaro, estavam em conformidade com a atividade profissional.
O advogado posteriormente pediu que sua manifestação não fosse publicada, alegando que não pretendia entrar em um debate eleitoral.
O que aconteceu com Ana Clara?
Ana Clara Gomes Machado tinha 5 anos quando foi atingida por um disparo de fuzil, em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava perto de casa com o irmão mais novo, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
A menina foi socorrida e encaminhada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Bruno Dias Delaroli por homicídio qualificado, sustentando que o policial teria assumido o risco de provocar a morte ao efetuar disparos em uma área residencial.
Segundo a acusação, não havia confronto armado no momento do disparo que atingiu a criança.
A defesa contesta essa versão e nega que tenha sido comprovado que o tiro responsável pela morte de Ana Clara partiu da arma do policial.
Delaroli chegou a ser preso em flagrante, mas passou a responder ao processo em liberdade em novembro de 2021.
Na ocasião, a Justiça revogou sua prisão preventiva, com parecer favorável do Ministério Público, e determinou medidas cautelares, incluindo o afastamento do policiamento nas ruas e a suspensão do porte de arma.
O policial ainda não foi julgado e, portanto, não há condenação criminal definitiva pelo caso.
O que diz a mãe de Ana Clara sobre a demora do julgamento?
Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina, tem cobrado publicamente a realização do júri popular.
Em entrevista à Agência Pública, publicada na segunda-feira (19), ela relatou o impacto da morte da filha e os sucessivos adiamentos do julgamento.
“Disseram que foi adiado novamente porque a juíza terá outro compromisso no dia. Só tem ela de juíza? E precisava jogar para o meio do ano que vem?”, questionou.
Cristiane também afirmou que a repercussão do caso durante a campanha presidencial provocou ataques nas redes sociais.
Segundo a reportagem, ela passou a se sentir ameaçada na região onde mora, em Niterói, e se afastou temporariamente das plataformas digitais.
A mãe disse ainda que enfrentou dificuldades financeiras e precisou deixar a residência onde vivia.
Ao comentar a participação de Flávio Bolsonaro na defesa do policial, Cristiane afirmou que não questiona o direito de um acusado ter advogado, mas a tentativa de impedir a realização do júri.
“A pergunta que foi feita e está sendo feita pra ele é por que advogou pra esse cara? A minha filha não volta mais”, declarou, em entrevista reproduzida pelo Brasil de Fato.
Em outra manifestação, afirmou que espera uma decisão judicial sobre a morte da filha.
“Estou pedindo para que ele seja julgado. Não é só mais uma criança, eu não sou só mais uma mãe que chora. São 5 anos que levo isso comigo e eu não tenho resposta.”
Quando será o julgamento do policial acusado?
A nova data informada à família é 5 de maio de 2027.
O julgamento deverá ocorrer pelo Tribunal do Júri, em Niterói, onde os jurados serão responsáveis por avaliar as provas apresentadas pela acusação e pela defesa.
A decisão de levar Bruno Dias Delaroli ao júri foi mantida pelo TJ-RJ, pelo STJ e pelo STF.
O processo chegou a ter sessões previstas para abril e outubro de 2026, mas ambas foram adiadas.
A data de maio de 2027 foi relatada por Cristiane Gomes da Silva à Agência Pública e também divulgada em reportagens publicadas nesta semana.
Menina de 5 anos foi morta por um tiro de fuzil em 2021, enquanto brincava perto de casa, em Niterói. Flávio Bolsonaro integrou a defesa do policial acusado e tentou reverter a decisão que determinou seu julgamento. Cinco anos depois, o PM permanece em liberdade e ainda não foi julgado
Notícias ao Minuto | 06:20 – 20/10/2026




