Acre vende o kg da castanha por menos de um quarto do preço obtido pelo Pará

O Acre respondeu por 71,5% de toda a castanha-do-brasil exportada pelo país em 2025, mas recebeu pelo produto um preço médio de US$ 3,45 por quilo, menos de um quarto dos US$ 15,69 obtidos pelo Pará, estado que exportou pouco mais de um quinto do volume acreano. A diferença está na forma como a castanha deixa o estado. Das 3.593,7 toneladas exportadas pelo Acre no ano passado, 3.374,7 saíram com casca, ao preço de US$ 2,78 por quilo, e apenas 219 toneladas foram vendidas sem casca, a US$ 13,68 por quilo.

Os números fazem parte do Estudo Econômico 2026 “Economia e vocações da Microrregião de Sena Madureira”, elaborado pela Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre (Fundape) para o Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre, com apoio do Sebrae.

O boletim, assinado pelo pesquisador Rubicleis G. Silva, Gabriel S. A. Brito e Weslley França dos Santos, cruza a pesquisa de campo do Mapa de Potencialidades do Acre com estatísticas oficiais do IBGE, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e de outros órgãos.

O destino das vendas reforça o quadro. Em 2025, o Peru absorveu 92,8% do volume exportado pelo Acre e a Bolívia ficou com 1,5%, o que soma 94,3% entre os dois países vizinhos, proporção superior à registrada em 2024.

O Peru pagou em média US$ 2,85 por quilo, enquanto Alemanha, Israel e Emirados Árabes Unidos pagaram entre US$ 15,40 e US$ 16,65 por quilo, em volumes pequenos. Segundo o estudo, a castanha acreana cruza a fronteira como matéria-prima e é beneficiada em outro território, circuito que corresponde ao relato de campo sobre a indústria instalada em Puerto Maldonado, no Peru.

A participação da castanha beneficiada na pauta também recuou. O produto sem casca havia alcançado 739,7 toneladas exportadas em 2024 e caiu para 6,1% do volume total em 2025, o que, para os pesquisadores, indica que o avanço observado no biênio anterior ainda não se consolidou.

Sena Madureira é o principal produtor de castanha do Vale do Purus. Em 2024, último ano disponível na pesquisa de Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura do IBGE, o município colheu 1.669 toneladas, o equivalente a 16,8% da produção acreana, com valor de R$ 9,5 milhões. O resultado coloca a cidade na quarta posição do estado, atrás de Xapuri, Brasiléia e Rio Branco. Entre 2014 e 2024, no entanto, a variação acumulada foi de apenas 7,4%, com oscilações amplas no período, como o pico de 2.645 toneladas em 2015 e a queda para 867 toneladas em 2017. Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus não registram produção de castanha em nenhum ano da série, por estarem fora do limite ecológico da castanheira no estado.

Em entrevista aos pesquisadores, um empresário do beneficiamento de castanha e café de Sena Madureira informou que a unidade instalada no município opera com 40 a 50 empregados e teria capacidade para um volume bem maior. Ele atribui a ociosidade à perda de matéria-prima para compradores peruanos e bolivianos que pagam à vista, adiantam recursos ao produtor na colocação e atuam fora do circuito tributário formal.

“A castanha do Acre é suficiente, tranquilamente, para gerar 5 mil empregos. Não gera 2 [mil]. […] Enquanto eu só posso pagar R$ 100, o boliviano vem aqui e paga R$ 140. Como é que eu vou concorrer com ele? Um cara que não paga imposto?”, afirmou o empresário.

Em reunião no Sindicato Rural de Sena Madureira, produtores apresentaram outras explicações para a estagnação do volume, entre elas a redução da polinização, atribuída localmente ao desaparecimento das abelhas de grande porte, a recomendação técnica de corte de cipós nas castanheiras, avaliada pelos presentes como contraproducente, o avanço da pecuária sobre antigos seringais e a abertura da estrada Transacreana, que passou a levar a castanha do Iaco diretamente para Rio Branco.

O estudo mostra ainda que o mercado interno não tem capacidade de absorver a produção. De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, a aquisição domiciliar de castanhas e nozes no Acre é de 0,004 quilo por habitante ao ano, o que corresponde a cerca de 4 toneladas anuais diante das 9.947 toneladas produzidas no estado em 2024. Para os autores, a retenção de valor não depende de vender mais no Acre, e sim de exportar o produto em forma mais processada.

Entre as propostas, o boletim recomenda mapear a oferta por colocação e por safra, dimensionar o volume que deixa a região por canais informais e avaliar instrumentos capazes de competir com o pagamento à vista dos compradores de fronteira, como adiantamento de safra, bonificação retroativa ao entregador e apoio logístico na colocação. A meta sugerida é elevar a participação da castanha beneficiada nas exportações do estado.

Os pesquisadores ressaltam que os dados de comércio exterior se referem ao estado do Acre, e não apenas a Sena Madureira, e medem somente o fluxo formal. Por isso, confirmam destino, forma e preço do produto exportado, mas não quantificam o circuito informal descrito em campo.

Rebeca Martins

Com informações do ac24horas

Compartilhe

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Print
LinkedIn

Siga nossas Redes Sociais

Leia também