Em tempos de IA, Bia Lobo escolhe criar com as próprias mãos e o coração

 Instagram/@bguilobo/ reprodução/Reprodução


V

ocê já se deparou com um vídeo da criadora de conteúdo Beatriz Lobo na sua For You? Cores, papéis recortados e desenhos se misturam para criar animações que parecem sair da tela — e talvez seja justamente aí que esteja o encanto de seus seguidores. Hoje, a inteligência artificial padroniza imagens em poucos segundos e, ainda assim, ela escolhe fazer diferente: coloca a mão na massa e deixa o processo aparecer. Mas por que será que ela escolhe o caminho mais longo?

Para Bia, é justamente aí que está a graça. A criadora trabalha diariamente com celular, computador e redes sociais e, por isso, encontrou nos trabalhos manuais uma maneira de se afastar um pouco das telas. O processo de criação passou a ocupar sua rotina não apenas como uma ferramenta de trabalho, mas também como uma forma de se divertir e cuidar de si.

“Eu acho que isso é muito gostoso de fazer e faz muito bem para a minha saúde mental”, conta. Segundo a influenciadora, as atividades manuais transformam sua forma de pensar e abrem espaço para novas ideias. Afinal, uma inspiração pode estar em qualquer lugar: um filme novo, um livro, um artista ou até em uma combinação de cores. Tudo pode virar referência para o próximo vídeo.

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É um processo que começa antes mesmo de colocar a primeira imagem no papel. Uma referência leva a outra e, depois de horas exercitando a criatividade, surgem novas possibilidades: “Às vezes eu estou no meio de uma ideia e me vem uma próxima para uma outra coisa, porque aquilo está me estimulando o tempo inteiro”, explica.

A criatividade também precisa de espaço

Já pensou que a criatividade não aparece de uma hora para outra? Na verdade, ela precisa ser exercitada com bastante frequência. Uma das práticas que a criadora recomenda é a escrita. Bia cita o livro O Caminho do Artista, de Julia Cameron, e o exercício das chamadas “páginas matinais”: escrever livremente logo ao acordar, colocando no papel os pensamentos que estão ocupando a cabeça.

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A proposta, segundo ela, é justamente criar espaço. Quando está tomada por pequenas tarefas do cotidiano (mensagens, trabalho, burocracias da casa), Bia percebe que sobra pouco espaço mental para criar. Escrever ajuda a organizar esses pensamentos e a abrir caminho para novas ideias.

Ela também costuma anotar tudo o que surge, mesmo quando ainda não sabe o que fazer com aquilo. Às vezes, uma ideia que parece incompleta ganha outro significado quando é retomada alguns dias depois. Música também entra nesse processo: quando sente um bloqueio criativo, colocar uma música ao fundo pode ajudá-la a entrar em um estado de concentração.

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E não existe uma fórmula única. Para Bia, exercitar a criatividade pode significar escrever, ouvir música ou até visitar um museu. Mas aqui vai uma dica da influenciadora: a inspiração pode estar mais próxima do que você imagina. É preciso estar atento ao que está ao seu redor. “Você tem que treinar ela como se fosse um músculo”, esclarece.

Isso também significa aceitar que existem períodos em que as ideias simplesmente não aparecem. Bia conta que já passou quase um mês sem sentir que estava tendo boas ideias e, em outros momentos, conseguiu escrever cinco roteiros em um único dia. O importante, para ela, é continuar em contato com o próprio lado criativo.

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O que a imperfeição tem a ver com tudo isso?

Parte da conexão que Bia percebe com seu público está justamente naquilo que poderia ser considerado um defeito. Em uma de suas primeiras animações de mix media, por exemplo, ela desenhou à mão cada frame. O resultado não ficou perfeitamente alinhado: há traços tortos, desenhos fora do lugar e frames diferentes entre si. E é exatamente isso que torna o vídeo reconhecível como algo feito por uma pessoa.

Para Bia, a possibilidade do erro é uma das coisas que diferenciam esse tipo de produção de conteúdos completamente automatizados. Não se trata de rejeitar a tecnologia: ela própria diz que utiliza inteligência artificial como recurso de pesquisa. A questão está na maneira como essas ferramentas são incorporadas ao processo criativo.

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Essa presença humana também aparece nas histórias que ela compartilha nas redes. Ao produzir um vídeo sobre voltar para a casa da mãe depois de morar sozinha, Bia utilizou registros reais de sua casa, do quarto antigo, da mãe e dos cachorros. São elementos pessoais que permitem que outras pessoas se reconheçam naquela experiência.

A criadora conta que existe uma grande recompensa para quem está criando: a sensação de ter feito algo que não poderia ter sido produzido exatamente da mesma maneira por outra pessoa.

Depois de passar horas diante do computador editando ou trabalhando em uma animação, ela descreve a sensação como um misto de alívio e realização. Quando viu pela primeira vez sua animação manual pronta, lembra de ter pensado: “Meu Deus, eu acabei de fazer a coisa mais legal do mundo”.

Nem todo hobby precisa virar conteúdo

Bia também valoriza o tempo offline, sabia? Pode ser uma aula, um esporte, um curso gratuito ou qualquer atividade que desperte curiosidade. A ideia é não necessariamente contar para todo mundo, mas ter um espaço que não dependa de curtidas, comentários ou aprovação externa: “Eu acho que você sempre tem aquele momento seu com você mesmo e você pode começar por aí”.

Isso permite viver aquela experiência com mais calma e menos comparação. Afinal, mesmo alguém que produz conteúdos criativos e inspira outras pessoas também pode se comparar (e muito). “Eu sou uma pessoa que eu me comparo horrores. Eu acho que se as pessoas abrem meu conteúdo, elas nunca vão assumir isso de mim”, conta a influenciadora, que faz questão de lembrar que o processo mostrado na internet nunca representa 100% do caminho: existe uma série de tentativas e erros que não aparecem no vídeo final.

Bia acredita que criatividade e aprendizado andam lado a lado. Estudar história, cinema, música, arte e cultura amplia as referências que podem aparecer depois em uma criação. Por isso, ela defende que nunca se perca a vontade de aprender. “Buscar repertório, nunca parar de estudar e de ter essa vontade de aprender”, aconselha.

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