‘Por Você’ dá a resposta perfeita à polêmica da nova música de Ana Castela

Bia Santana em 'Por Você' Globo/Divulgação

“Ela não estava fazendo nada de errado. Ela só estava vivendo.” A fala de Suelen (Bia Santana) sobre a amiga Tamara (Emilly Amaral), baleada durante a gravidez, resumiu o conflito que marcou Por Você nesta terça-feira (22). Em um capítulo que terminou com os jovens da comunidade dançando ao som de Rap da Felicidade, a novela mostrou como o pedido do refrão está presente na vida de suas personagens (e de tantos jovens que se reconhecem neles).

A música conhecida na voz de Cidinho e Doca entrou em debate em agosto desse ano, quando Ana Castela, Rincon e DJ Boss lançaram Não é Pressa, é Pressão. A faixa aproveita a melodia e a estrutura do refrão, mas substitui o desejo de andar tranquilamente na favela por referências a uma Dodge Ram, à festa de Barretos e à bebida. As críticas à releitura se concentraram na total perda de nuances na versão sertaneja.

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Agora, a música volta em outro contexto. Antes de ser atingida, Tamara conversa sobre o nome da filha, Helena, e comemora as primeiras roupinhas que conseguiu comprar para a bebê. Até então, tudo tinha vindo de doação. São detalhes que permitem conhecer suas expectativas e tornam tudo ainda mais brutal. Havia um futuro sendo imaginado naquela conversa entre mulheres.

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Mais tarde, quando Suelen insiste que a amiga “só estava vivendo”, lembra que ela deveria poder fazer tudo aquilo sem correr o risco de ser baleada. A discussão ganha força quando Dalila (Lívia Silva) chama o ocorrido de tragédia e ouve uma pergunta: “Tragédia é o que acontece sempre com as mesmas pessoas, no mesmo lugar?”

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Mesmo depois de Tamara e Helena serem salvas, o medo continua com Suelen. Ao ver uma pipa no céu, ela se lembra do instante anterior ao disparo e estranha que a vida ao redor tenha seguido. “Sei lá, parece que tudo continuou como se nada tivesse acontecido. Não é doido isso?”, pergunta a Dalila.

A amiga fala sobre continuar sorrindo, soltando pipa e acreditando na vida apesar da dor. “É exatamente isso que faz a gente ser humano. Continuar acreditando na vida, apesar de tudo. Isso ninguém vai tirar da gente.”

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A conversa prepara a entrada da música. Dalila propõe que as duas gravem um vídeo, outros jovens se juntam à dança pela comunidade e a sequência termina com todos cantando em coro. Depois de um capítulo em que circular pelo bairro significou estar exposto à violência, a novela mostra aqueles personagens ocupando as mesmas ruas para se divertir.

É nesse encontro entre a história e a letra que a escolha da trilha é perfeita. O desejo de andar tranquilamente pela favela é de Suelen, Dalila, Tamara, Peixe e de tantos jovens que assistem a novela e se reconhecem nesses personagens. A coreografia preserva algo que também faz parte do funk: a possibilidade de dançar uma música que fala de problemas sociais. A alegria de estar entre amigos não apaga a indignação de Suelen. As duas cabem na mesma cena.

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A sequência é uma ótima resposta à discussão em torno da versão de Ana Castela. O que acontece com uma canção de denúncia social quando a experiência que deu sentido a ela desaparece da letra? Por Você recupera esse contexto ao acompanhar jovens que querem namorar, sair com os amigos e voltar para casa em segurança. Antes de ser associada à compra de uma caminhonete, a felicidade daquele refrão já tinha endereço e condição: poder viver em paz na favela onde se nasceu.

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