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ocê já deve ter sido impactado por um vídeo no seu feed de alguém viajando sozinho, cozinhando para si mesmo, passeando sem companhia, exaltando momentos mais introspectivos e de autocuidado. Existe um movimento nas redes que exalta a capacidade de saber ficar bem sozinho e aproveitar a própria companhia – e isso pode ser muito positivo, mesmo.
O psicanalista Alexandre Maduenho, autor do livro A Van – Adolescência em Fuga*, diz que, principalmente diante da lógica das redes sociais em que vivemos, a nossa galera precisa de uma pausa, a sós, para elaborar e dar significado para o que sente e vive. “A privacidade para pensar sobre si mesmo, hoje em dia atacada quase ininterruptamente por uma enxurrada de estímulos virtuais, precisa ser preservada”, defende. “Ainda mais na adolescência em que há um intenso trabalho de construção e reconstrução identitária”, acrescenta.
Mas, ao ficar mais introspectivo, surge uma preocupação comum entre os jovens: será que realmente estou curtindo minha própria companhia ou, na verdade, estou me isolando? A linha entre essas duas situações pode parecer tênue, mas existe uma diferença fundamental entre elas.
Para responder, Alexandre esclarece que “gostar da própria companhia pressupõe ter interesses por si mesmo e pela própria experiência frente ao mundo”. Isso não significa não precisar ou não querer estar com outras pessoas. Pelo contrário, a partir do contato com o outro, você cria uma relação saudável consigo mesmo, como defendeu o psicanalista inglês Donald Winnicott, que desenvolveu o conceito da “capacidade de estar só”.
“Essa capacidade de estar só é conquistada pelo bebê e pelas crianças muito pequenas, primeiramente na presença de alguém confiável. É a partir dessa presença (que pode ser o pai, a mãe ou o cuidador) que a criança aprende a ficar bem sozinha”, explica Alexandre.
Em A gente mira no amor e acerta na solidão*, a psicanalista Ana Suy explica que “sentir-se só não é o mesmo que estar só”. A solidão pode ser um estado meditativo, de bem-estar e de contentamento consigo mesmo, mas, por vezes, ela “dá notícias do desamparo e da angústia com que chegamos ao mundo”.
Ela explica melhor essa ideia neste outro trecho: “Que estamos sozinhos debaixo de nossa pele é um fato. Que soframos por causa disso é outra coisa. Nossa cultura tende a colocar a solidão como patologia, na medida em que junta solidão e sentimento de solidão em uma mesma ideia. É fato que nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra, nossa vida se dá na relação com várias pessoas.”
É por isso também que alguém pode estar cercado de pessoas e, subjetivamente, estar retraído e isolado. Afinal, como escreveu Ana Suy, “que o amor restaure alguma nobreza à solidão não significa que o amor salve alguém da solidão”.
Como identificar o sofrimento na solidão?
Alexandre aponta que a pergunta importante a se fazer é se essa pessoa que tem estado só continua interessada pela vida. “Perguntar para onde foi o investimento, o desejo dessa pessoa. O desejo dela continua investido na vida? Há algo de criativo, desejante, acontecendo nesse estar só? Pois, se ‘estar curtindo a própria companhia’ passa a ser apenas rolar o feed do Instagram ou do TikTok como única forma de ocupar a solidão, aí, sim, temos um problema”, diz.
O psicanalista lembra que, em tempos de redes sociais, o conceito de socialização pode ficar um pouco confuso. Todo mundo está sujeito a cair na falsa sensação de que está em contato com muitos amigos nas redes sociais, por estar sempre online e acompanhando as publicações, mas, na verdade, não está em contato com ninguém de fato ou com profundidade. “Hiperconectividade não significa, necessariamente, hipervinculação ou hipercontato”, alerta.
“As redes podem nos convencer de que não precisaríamos de mais nada além de imagens, comprimindo a complexidade de uma experiência real, de uma troca real com o outro, em uma representação algorítmica. E, assim, infinitas postagens levam-nos à estranha sensação de estarmos, ao mesmo tempo, empanturrados e vazios”, reflete.
Por isso, vale perceber se existe um equilíbrio: você gosta de ficar sozinho(a) e, em outros momentos, aprecia a companhia de outras pessoas? “Esse pode ser um indício de que, embora em alguns momentos uma pessoa prefira ficar consigo mesma, ela faz isso predominantemente por escolha, não por um sofrimento intenso ou qualquer outra limitação que a impede de estar com os outros próximos”, explica Alexandre.
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