Drag queens refletem sobre legado queer de ‘The Rocky Horror Picture Show’

The Rocky Horror Picture Show Michael Ochs Archives/Getty Images


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im Curry, ator britânico eternizado como o Dr. Frank-N-Furter de The Rocky Horror Picture Show, morreu em 25 de agosto, aos 80 anos, em sua casa em Los Angeles. Ao longo de quase seis décadas de carreira, ele também marcou o cinema e a televisão em produções como It: Uma Obra-Prima do Medo, Clue e Esqueceram de Mim 2, além de acumular três indicações ao Tony pelo trabalho nos palcos.

Mas foi de meia arrastão, salto, maquiagem carregada e corset que Curry criou uma das imagens mais reconhecíveis de sua carreira. Primeiro nos palcos, no musical The Rocky Horror Show, e depois no filme de 1975, o ator deu vida ao cientista Frank-N-Furter e ajudou a transformar uma produção que inicialmente teve pouco sucesso em um fenômeno cult que atravessaria décadas.

Mais de 50 anos depois, o impacto de Rocky Horror continua aparecendo na cultura pop e na formação de novas gerações de artistas LGBTQIA+. Em conversa com a CAPRICHO nos bastidores do Realness Festival, Chanel e Frimes relembraram a relação pessoal que construíram com o filme e falaram sobre o legado deixado por Curry.

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“Ele está sempre sendo descoberto pelas novas gerações”

Para Chanel, que conheceu Rocky Horror ainda criança, a força do trabalho de Curry está na capacidade de continuar encontrando novos públicos. “Para mim, o legado do Tim Curry, de Rocky Horror, é uma coisa meio eterna, sabe? É um filme que tem esse talento de nunca sair da discussão, de nunca sair da presença das pessoas. Ele está sempre sendo descoberto pelas novas gerações”, afirma.

Ela conta que devia ter entre 10 e 12 anos quando assistiu ao longa pela primeira vez e ainda entendia muito pouco sobre a própria identidade. O filme não trouxe exatamente respostas, mas apresentou a possibilidade de existir sem tentar diminuir aquilo que parecia diferente.

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“Ver o Frank-N-Furter e achar ele essa grande coisa esquisita, entender que eu sou essa grande coisa esquisita, me deu coragem, me deu fogo no rabo e me deu lemas que eu sigo para sempre”, relembra. “É um relacionamento muito especial que a gente cria com essa figura.”

Para Chanel, essa conexão ganha ainda mais peso quando se pensa na dificuldade que muitas pessoas queer têm de encontrar referências mais velhas com experiências parecidas com as suas.

“Quando a gente é queer, a gente tem muito pouca referência de como ser, principalmente referências de pessoas mais velhas que saibam como vai ser a nossa vida, porque a nossa família não entende a gente”, diz. “Então, esses mais velhos, esses anciões da cena, vão virando a nossa família, porque são eles que vão contextualizando para a gente como é viver sendo queer nesse mundo.”

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De fracasso nos cinemas a tradição queer

Lançado em 1975, The Rocky Horror Picture Show acompanha Brad e Janet, um casal que, depois de ter o carro quebrado durante uma tempestade, acaba buscando ajuda em um castelo bastante fora do comum. É ali que eles conhecem Frank-N-Furter e são apresentados a um universo de música, ficção científica, desejo e quebra de convenções.

A recepção inicial não indicava que o filme chegaria tão longe. Foi por meio das sessões noturnas, especialmente nos Estados Unidos, que Rocky Horror começou a desenvolver uma relação diferente com o público: fãs passaram a voltar inúmeras vezes às exibições, repetir falas, usar fantasias e reproduzir os personagens diante da tela.

Nasciam os chamados shadow casts, apresentações em que performers encenam o longa simultaneamente à sua exibição. A tradição ajudou a transformar o filme em um espaço de encontro e expressão para comunidades LGBTQIA+ e permanece viva até hoje.

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O reconhecimento institucional também chegou. Em 2005, The Rocky Horror Picture Show entrou para o National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, seleção destinada à preservação de obras consideradas relevantes para a história cinematográfica do país.

Chanel, inclusive, não acompanha essa tradição apenas como fã. Ela interpreta Frank-N-Furter no Sombrios Shadowcast, grupo brasileiro dedicado ao clássico, e já tem planos de voltar ao personagem. “Eu vou continuar performando em outubro. Não temos data certa ainda, mas voltamos com o Shadow Cast”, adianta. Segundo ela, estão previstas apresentações em Niterói, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

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“Lendas são eternas”

Frimes também coloca Rocky Horror entre as referências que ajudaram a construir sua identidade artística. “Eu sou uma girl meio alternativa, então esse filme realmente teve uma construção muito forte na minha carreira”, conta à CAPRICHO.

A influência, segundo ela, aparece até em seus trabalhos musicais. “Isso reflete nos meus videoclipes. Dá para perceber que eu sempre flerto com essa vibe do terror, dessa coisa mais sexual.”

Para a artista, apresentar o longa às novas gerações continua sendo importante justamente por oferecer uma perspectiva diferente sobre gênero, sexualidade, estética e liberdade. “Foi uma perda muito grande para a cultura pop no geral. Eu fiquei muito triste, de verdade, com essa partida”, diz. “Alguns ciclos acabam, mas lendas são eternas. E esse filme realmente marcou uma geração gigantesca, e eu espero que perpetue outras mais para sempre.”

Essa relação também já saiu da tela para os palcos. Recentemente, Frimes participou nos bastidores de uma montagem do musical no Maranhão feita por amigos. “Foi muito divertido ver o teatro cheio. Eu adoro teatro, então foi maravilhoso. Eu espero que eles continuem fazendo”, afirma.

É justamente nessa circulação constante entre cinema, teatro, festas, shadow casts, fantasias, videoclipes e novas descobertas que Rocky Horror continua existindo meio século depois. Frank-N-Furter foi apenas um dos muitos personagens da longa carreira de Tim Curry, mas se tornou uma figura maior do que o próprio filme.

Como resume Chanel, o trabalho que encontrou jovens queer há 50 anos continua chegando a quem ainda procura referências para entender as próprias possibilidades: “Era importante quando foi lançado, continua sendo importante agora e com certeza vai continuar sendo relevante.”

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