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uem já tentou comprar ingresso para um show muito disputado no Brasil conhece o roteiro: milhares de pessoas na fila virtual, ingressos que desaparecem rapidamente, suspeitas de bots, entradas reaparecendo por preços muito maiores em sites de revenda e taxas que fazem o valor da compra aumentar no caminho até o pagamento.
Nesta segunda-feira (31), essa discussão chegou oficialmente ao Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto com novas regras para a comercialização de ingressos no Brasil, com foco na proteção do consumidor e no combate ao chamado cambismo digital.
A cerimônia aconteceu em Brasília e também colocou sob os holofotes uma mobilização que vem sendo feita por quem conhece muito bem os problemas desse mercado: os fandoms.
A assinatura acontece depois de meses de discussão sobre as dificuldades enfrentadas por consumidores na compra de ingressos. Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) levou o assunto à Comissão de Defesa do Consumidor e pediu que os próprios fãs participassem do debate.
E aconteceu: durante o evento de hoje, representantes do Portal BTS, BTS Brasil, BTS Project Brasil, Taylor Swift Brasil, Update Taylor Swift, Harry Styles Brasil, Chappell Roan Brasil, Beyoncé Brasil e Olivia Rodrigo Brasil estavam presentes.
Também foram chamados representantes de órgãos de defesa do consumidor e de algumas das principais empresas responsáveis pela comercialização de ingressos no país.
Mas o que muda na compra de ingressos?
Bem, vamos lá. Como já te explicamos acima, o decreto assinado por Lula nesta segunda tem como objetivo aumentar a proteção do consumidor e enfrentar práticas relacionadas ao cambismo digital.
Mas um dos principais alvos são aqueles sistemas automatizados utilizados para adquirir grandes quantidades de ingressos. Os famosos bots conseguem realizar operações em uma velocidade e escala muito maiores do que uma pessoa comum, criando uma vantagem artificial durante vendas concorridas.
A partir de agora, as plataformas como Ticketmaster, Eventim e outras deverão adotar medidas para combater softwares, bots e outras ferramentas utilizadas para compras massivas de ingressos.
A revenda também entra na mira, viu? Plataformas que oferecem ingressos no mercado secundário terão de aumentar a transparência das informações disponibilizadas ao consumidor e adotar mecanismos para enfrentar práticas abusivas. É justamente nesse mercado que um ingresso originalmente vendido por algumas centenas de reais pode reaparecer pouco depois custando milhares.
O preço que você vê terá que ser o preço que você paga
Outra mudança importante está naquela etapa que todo fã conhece e detesta: você encontra um ingresso por determinado valor, entra na fila, escolhe o setor e, quando finalmente chega ao pagamento, descobre que o preço aumentou por causa das taxas. Quem nunca, né?
O decreto estabelece novas regras de transparência para a comercialização dos ingressos, reforçando a necessidade de que o consumidor tenha acesso às informações sobre o valor da compra sem ser surpreendido no final da operação.
Na prática, a ideia é combater a chamada precificação fragmentada, em que taxas e outros encargos aparecem progressivamente durante a compra. É uma mudança importante porque permite que o fã saiba desde o início quanto aquele ingresso realmente vai pesar no bolso, além de facilitar a comparação de preços.
Quando fandom vira participação política
A participação dos fãs nessa discussão também diz bastante sobre como os fandoms vêm ocupando espaços que vão muito além de streaming, mutirões e premiações.
Ao justificar a audiência pública sobre ingressos na Câmara, Erika Hilton destacou justamente problemas que se tornaram recorrentes na experiência dos fãs brasileiros, como instabilidade nas plataformas, longas filas virtuais, suspeitas de uso de bots, falta de transparência nas taxas e revenda especulativa. E não é a primeira vez que a deputada trabalha diretamente com essas comunidades.
Em 2024, fã-clubes de artistas como Taylor Swift, Beyoncé, Olivia Rodrigo, Billie Eilish, BLACKPINK, Lady Gaga e Anitta participaram de uma mobilização contra o chamado PL da Gravidez Infantil. Na ocasião, Erika agradeceu publicamente a colaboração das páginas e afirmou que mais de 40 mil e-mails haviam sido enviados a parlamentares durante a mobilização.
No caso dos ingressos, a conexão é ainda mais direta: são essas comunidades que conseguem documentar, venda após venda, problemas que poderiam parecer pontuais quando analisados isoladamente.
A mobilização não termina com o decreto
A assinatura presidencial representa uma mudança importante, mas não encerra a discussão sobre o mercado de ingressos no país. Existem projetos em tramitação no Congresso que tratam de questões relacionadas à venda e revenda de entradas, enquanto órgãos de defesa do consumidor também vêm aumentando a fiscalização do mercado secundário.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), por exemplo, já abriu procedimentos envolvendo plataformas de revenda diante de suspeitas de falta de transparência e outras práticas prejudiciais ao consumidor. O que começou com fãs indignados em filas virtuais, portanto, ganhou uma dimensão bem maior.
Quando fandoms reúnem relatos, transformam reclamações individuais em uma demanda coletiva e levam essa discussão até representantes políticos, ser fã também passa a significar participar de decisões que podem mudar a experiência de milhões de consumidores.




