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urante muito tempo, DAY LIMNS encontrou na música uma forma de elaborar sentimentos. Em PUT@RIA & POE$IA, primeira mixtape de sua carreira, a cantora decidiu experimentar o caminho contrário: entrar no estúdio sem precisar sair de lá transformada.
“Parecia que eu precisava estar sofrendo mesmo, sangrando para sair tinta, para ter o que escrever”, conta à CAPRICHO. O novo projeto, que chega às plataformas nesta quinta-feira (27), nasceu justamente da tentativa de tornar essa relação mais leve. “Tenho aprendido que também existe profundidade na leveza.”
A liberdade também aparece na própria construção da mixtape. São 10 faixas e nada menos que 11 participações, incluindo Gloria Groove, Rael, Slipmami, Budah, Cynthia Luz, CJota, Kafé, Giana Mello, Elana Dara, Luiz Lins e Chris MC.
Produzido pelos Los Brasileros, o trabalho circula entre pop, rap, funk e R&B e começou sem a obrigação de formar um projeto fechado. Primeiro vieram as músicas e os encontros; só depois DAY percebeu que existia ali uma fotografia daquele momento de sua carreira.
E, por mais espontaneamente que tenham surgido, as faixas acabaram encontrando um ponto em comum nos relacionamentos vividos em uma época em que a internet deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ocupar praticamente todos os espaços da vida.
“A gente criou uma linguagem paralela que ninguém combinou oficialmente, mas todo mundo interpreta daquela forma”, diz DAY. Para ela, o excesso de informações também criou uma falsa sensação de proximidade.
A gente desaprendeu um pouco a tolerar o desconhecido. Tem tanta informação que, às vezes, essa informação sobre o outro se confunde com intimidade, mas não é intimidade de verdade.
DAY LIMNS
Entre referências aos anos 2000, colaborações que mudaram músicas inteiras e uma nova maneira de encarar a própria identidade artística, DAY também saiu de PUT@RIA & POE$IA menos interessada em responder qual tipo de artista deveria ser. “Em vez de descobrir que artista eu sou, posso achar muito mais interessante descobrir quantas artistas cabem em mim.”
Leia a entrevista completa com DAY LIMNS:
CAPRICHO: Você disse que, dessa vez, quis tirar da música esse lugar de “exorcizar demônios” e voltar a criar pelo prazer. O que estava acontecendo na sua relação com a música para você sentir que precisava recuperar essa leveza?
DAY LIMNS: Minha relação com a música estava muito em um lugar de terapia. Era um lugar que eu precisava ocupar para me analisar, me entender, conseguir me olhar de fora. E, ao mesmo tempo, isso criou uma relação meio curiosa com meu processo criativo, porque parecia que eu precisava estar sofrendo mesmo, sangrando para sair tinta, para ter o que escrever.
Talvez a música ainda ocupe esse lugar de elaboração para mim, porque acho impossível separar completamente as coisas. Mas hoje existe uma leveza maior. Estou mais desprendida desse desejo de precisar me curar através da música, de precisar me entender através dela ou simplesmente de precisar ser profunda o tempo inteiro. PUT@RIA & POE$IA veio justamente desse lugar de ir para o estúdio e pensar: “Quero fazer uma coisa que soe bem, que seja gostosa de fazer e que tenha a ver com o momento que estou vivendo”, sem precisar sair de lá curada, transformada ou tendo entendido alguma coisa sobre mim. Tenho aprendido que também existe profundidade na leveza.
CH: A mixtape nasceu sem a obrigação de virar um projeto fechado e só depois você percebeu que as músicas conversavam entre si. Qual foi a faixa ou o momento em que você olhou para tudo aquilo e pensou: “Ok, existe um projeto aqui”?
DAY: Não acho que tenha sido uma faixa específica. Acho que foi quando comecei a me dar conta da quantidade de colaborações que estavam nascendo nessas minhas idas ao estúdio. Eu estava fazendo música de um jeito muito livre, desapegado, chamando pessoas que admirava e as coisas iam acontecendo. Chegou uma hora em que olhei para tudo e pensei: “Cara, lançar tudo isso como single vai ser meio complicado”. A ideia de compilar veio primeiro de uma necessidade prática, sendo bem honesta.
Depois, olhando para as músicas juntas, fui percebendo que elas conversavam e que existia uma fotografia daquele momento. Eu amo colaborar, e isso acabou virando uma característica muito forte do próprio projeto. As músicas existiram primeiro e depois eu entendi o que elas eram juntas, que é o processo contrário do que geralmente faço quando estou construindo um projeto.
CH: Você fala bastante sobre como a tecnologia virou uma terceira presença nos relacionamentos. O que acha que a nossa geração desaprendeu sobre amar por causa das redes sociais? E o que ela aprendeu que gerações anteriores não tinham?
DAY: Não quero demonizar a tecnologia ou as redes sociais, porque acredito muito na integração das coisas e na possibilidade de uma coexistência saudável. O problema, para mim, é que tudo aconteceu rápido demais. Acho que a gente desaprendeu um pouco a tolerar o desconhecido. Tem tanta informação que, às vezes, essa informação sobre o outro se confunde com intimidade, mas não é intimidade de verdade.
Ao mesmo tempo, ganhamos coisas muito importantes. Minha vida mudou por causa da internet. A tecnologia cria formas de encontro que gerações anteriores não tinham. Hoje conseguimos encontrar pessoas completamente fora do nosso território geográfico, comunidades se formam, as pessoas encontram outras parecidas com elas e conseguem dar nome aos próprios desejos, sentimentos e identidades. Existe essa contradição: a mesma tecnologia que amplia absurdamente nossa possibilidade de encontro também ampliou a possibilidade de vigilância sobre o outro.
CH: Tem algo muito específico na ansiedade contemporânea de um “visualizado”, um follow, um unfollow ou alguém aparecer online e não responder. Qual comportamento digital você acha que mais bagunçou a maneira como a gente se relaciona?
DAY: Essa falsa sensação de intimidade e o excesso de informação que se confundem com um verdadeiro conhecimento até sobre o sentimento do outro. Hoje existe uma espécie de representação digital das relações. Um follow é interesse, um unfollow vira “eu te odeio”. Um like é “estou flertando com você”. Se eu não assisto aos seus stories, estou desinteressada. Se assisto rápido demais, estou desesperada.
Parece que a gente criou uma linguagem paralela que ninguém combinou oficialmente, mas todo mundo interpreta daquela forma. Começamos a tratar esses rastros digitais como se fossem provas concretas de algum tipo de sentimento. Às vezes até podem ser, mas às vezes não são absolutamente nada e nossa mente vai longe.
CH: São 11 participações em 10 músicas, então dividir espaço é praticamente parte da identidade da mixtape. Teve alguma colaboração que levou uma faixa para um lugar completamente diferente daquele que você imaginava?
DAY: Algumas, por motivos diferentes. Tem a música com o Rael, que subiu muito no meu conceito depois que ele entrou. Ele chegou com aquelas melodias e letras icônicas, do jeito que só ele consegue fazer. Lembro de ouvir e pensar: “Caralho, agora eu entendi essa música, agora ela foi para um lugar que eu realmente amo”. Eu gostava dela, achava ok, e, quando ele entrou, melhorou em 1.000%.
E também tem “1%”, com a Gloria [Groove]. Mudamos bastante a produção. Ela tinha uma carinha mais sad, mais fofa, e a GG sugeriu deixar o beat mais malicioso, mais safado, justamente para criar um contraste com a letra. Mudou completamente a personalidade da música, além do verso dela trazer ainda mais essa energia. A GG também teve uma participação muito importante na maneira como passei a enxergar o projeto.
CH: Você reuniu artistas que vêm de rap, funk, R&B e pop, de Gloria Groove e Rael a Slipmami, Budah e Luiz Lins. O que faz alguém ser “a pessoa certa” para entrar em uma faixa?
DAY: A base para mim foi admiração e vontade de colaborar com essas pessoas. Acho bonito porque a mixtape é sobre relações e também foi construída através de relações, que às vezes já existiam ou foram criadas a partir do próprio convite.
Tem um caso de que gosto muito, que é “Nada Sério”, com Luiz Lins. Essa música já era uma das minhas favoritas antes de eu definir quem seria o feat e eu tinha um certo apego com ela. Até que um dia o Luiz curtiu aleatoriamente alguma coisa minha no Instagram e me deu um estalo: “Meu Deus, é Luiz Lins. É ele, tem que ser ele”. Mandei, ele topou de pronto e tinha que ser ele, porque era uma faixa com uma lírica mais pensada, tinha um pouquinho de sofrência, mas uma sofrência mais elegante. Acho que a pessoa certa é muito mais uma sensação do que uma decisão estratégica.
CH: Como artista, colaborar também significa abrir mão de algum controle sobre uma música que começou com você. Houve alguma ideia de um convidado que mudou até sua própria leitura da faixa?
DAY: Tenho entendido cada vez mais que autoria não precisa significar domínio ou controle total. Isso é muito curioso vindo de mim, porque sou extremamente envolvida em tudo, para não dizer controladora. No conceito, no visual, na composição, na narrativa, quero saber de tudo, participar de tudo.
Mas, musicalmente, nessa mixtape eu estava muito desapegada. Realmente queria deixar o outro entrar, encontrar a própria vibe, puxar o fio da meada e descobrir o que aquela música despertava naquela pessoa. Volto ao Rael como um exemplo muito claro. Quando ele entrou, pensei: “Agora ela chegou”. O verso dele mudou minha própria percepção da faixa.
CH: A estética Y2K olha para uma época em que a internet ainda parecia uma novidade, enquanto o projeto fala de um presente em que ela praticamente organiza nossas relações. O que a DAY que cresceu nos anos 2000 imaginava que a internet seria? E o que mais te surpreende no que ela virou?
DAY: Sendo muito honesta, se você perguntasse para a DAY de 2006 como seria 2026, eu ia achar que estaríamos andando de carro voador. De certa forma, imaginava um futuro mais futurista, ironicamente, mais tecnológico visualmente. Acho que a coisa mais impressionante que aconteceu com a tecnologia foi quase o contrário. Em vez de ficar cada vez mais visível, ela ficou tão íntima da gente que desapareceu.
Hoje eu não sei onde termina a internet e começa minha vida, honestamente. Ela está no meu trabalho, nas minhas relações, na maneira como conheço alguém, como flerto, como consumo cultura, como me comunico, como construo minha própria identidade. Ela deixou de ser esse lugar que a gente visita e virou uma camada permanente da existência. Gosto de ter usado essa estética dos anos 2000 no projeto por causa disso. É praticamente usar a infância da internet para falar sobre nossa vida adulta dentro dela.
CH: Você já lançou projetos com uma preocupação maior com conceito, narrativa e unidade. Aqui, a regra foi justamente a liberdade. Depois de fazer PUT@RIA & POE$IA, tem alguma regra sobre quem a DAY “deveria ser” musicalmente que você percebeu que não quer mais seguir?
DAY: Acho que a regra da obrigação da coerência. Falo mais daquela ideia de que um artista precisa, de qualquer jeito, escolher uma versão de si e congelá-la. “DAY é rock.” “Não, DAY é pop.” “DAY é compositora de músicas tristes.” “DAY precisa ser profunda.” “DAY precisa trazer conceitos complexos.” Durante muito tempo, fiquei tentando responder qual dessas coisas eu era, como se existisse uma resposta certa sobre que artista eu sou e, quando encontrasse, precisasse proteger aquilo e ser coerente com essa versão.
Só que acho que minha coerência não precisa estar necessariamente no gênero, na estética ou no peso daquilo que estou dizendo. Acho que, em vez de descobrir que artista eu sou, posso achar muito mais interessante descobrir quantas artistas cabem em mim. PUT@RIA & POE$IA talvez tenha sido a primeira vez em muito tempo em que, em vez de tentar responder quem a DAY deveria ser, eu simplesmente deixei ser.
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