A era pop dos livros chegou para ficar

Sofia Carson e A Lista da Vida Nicole Rivelli/Netflix/Divulgação


V

ocê deveria sentir o que eu sinto quando alguém diz o seu nome”. O verso, que poderia ter sido escrito por Annie Ernaux em Paixão Simples (Fósforo, 2023), é de Olivia Rodrigo em “Stupid Song”,  faixa 2 de seu último álbum, You seem pretty sad for a girl so in love. A relação entre as duas se deve ao fato da música, que descreve o sentimento de se apaixonar perdidamente por alguém, ter sido inspirada no livro da escritora francesa que venceu o Nobel de Literatura em 2022.  Junto a nomes como Clarice Lispector e Joan Didion, ela faz parte da lista de autoras favoritas da artista pop de 23 anos —  e, como era de se esperar, desde que apareceu entre as referências do novo projeto, tem despertado a curiosidade de alguns fãs da cantora que ainda não a conheciam.

Basta olhar redes sociais literárias, como o Skoob, ou posts sobre o assunto para ver os comentários de jovens que começaram a se aventurar na escrita da francesa por influência de Olivia. Na mistura de mundo pop e literatura, o mesmo acontece com Dua Lipa e seu clube do livro criado em junho de 2022, o Service95. Indo na contramão do que é viral, a curadoria da artista é focada principalmente em obras de impacto social espalhadas ao redor do mundo. Na inauguração da Manifesto Library, biblioteca que abriu em Portugal em parceria com a livraria Lello, foi um título brasileiro, inclusive, o primeiro a ser colocado na prateleira: Olhos D’água (Pallas Editora, 2014), de Conceição Evaristo.

“A repercussão alcançou pessoas mais jovens, leitores de outros países [ela já está traduzida para o espanhol, italiano, francês, eslovaco, esloveno, asturiano e, em breve, para o inglês e para o grego] e públicos que talvez ainda não tivessem contato com a literatura brasileira contemporânea ou com a obra de Conceição”, conta Mariana Warth, da Pallas Editora.

Em Portugal, a publicação da autora é pela Orfeu Negro, cuja edição foi usada na Manifesto Library. Carla Oliveira, editora de lá, comenta o impacto positivo de uma artista estrangeira estar em contato com a obra de Conceição Evaristo, mesmo antes da tradução para o inglês. “Significa que este livro tem percorrido um longo caminho, atravessando fronteiras linguísticas e culturais, e esta entrada na cultura pop e nos seus meios de transmissão é prova disso”.

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Embora ainda não tenha números exatos que reflitam o impacto da indicação nas vendas, Carla já destaca as centenas de compras do título no Festival BABELL — que aconteceu em junho, na cidade do Porto, na mesma época da abertura da Manifesto Library — e sua chegada à 2ª edição portuguesa. “Em um país pequeno como Portugal já é representativo”, pontua. Já no Brasil, Mariana afirma que Olhos D’água segue como um dos títulos mais vendidos da autora.

Livros sob os holofotes

Sofia Carson e A Lista da VidaNicole Rivelli/Netflix/Divulgação

Eles voltaram a ser centro de conversas e talvez isso não esteja restrito à sua bolha. Dados exclusivos do Reddit indicam, do ano passado para cá, um aumento significativo de discussões sobre o assunto: r/readingsuggestions cresceu mais de 500% em visualizações globalmente e r/bookdiscussions mais de 1200%. E é a geração Z, com sua forte presença online, que tem sido uma das principais responsáveis pelo aumento de interesse nos livros nas redes sociais.

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Marina Roale, da Consumoteca, explica que a busca por pertencimento é inerente à toda geração, mas em uma que cresceu interagindo por telas, o compartilhamento de referências culturais funciona como uma cola social. “A capacidade de narrar quem você é, o que consome e quais são suas referências quase se tornou um KPI informal da juventude. Nesse contexto, os livros oferecem mais do que entretenimento: ajudam a construir repertório, alimentam conversas e fornecem elementos para essa construção de identidade”, explica.

Ela também reflete que a aproximação de figuras pop faz com que até quem era distante da literatura tenha um interesse maior neste universo. “Quando uma artista admirada recomenda um livro, ela reduz a distância entre o jovem e autores que poderiam parecer inacessíveis. Mais do que indicar uma leitura, ela legitima um repertório. Isso também revela uma mudança interessante: hoje, cultura pop e literatura não ocupam lugares opostos, uma pode funcionar como porta de entrada para a outra”.

Rafaela Pechansky, publisher da TAG Experiências Literárias — o maior clube de assinatura de livros do Brasil —  reforça a perspectiva destacando que as celebridades estão ajudando a tornar a leitura algo sexy e cool novamente. Com o primeiro romance de Annie Ernaux, Armários Vazios, na TAG curadoria de julho [parceria com a Fósforo], ela comemora o fato de uma figura jovem e conhecida como Olivia Rodrigo ler a francesa e popularizar seu nome entre os mais jovens. “Tira um pouco desse lugar assustador para quem tem vinte e poucos anos”.

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A curadoria de Dua Lipa, segundo Rafaela, também já virou referência no meio editorial, inclusive em eventos renomados como a Feira de Frankfurt, que acontecerá em outubro. “Muitas listas nos e-mails vêm assim: ‘estilo livro que foi incluído no clube da Dua Lipa’… Ela já é uma referência nesse sentido e é muito positiva essa aproximação”, comenta, reforçando ainda como seria importante se artistas pop brasileiras também criassem clubes do livro para dialogarem com os mais jovens.

Headliners Br: influencers literários

Enquanto isso não acontece por aqui, quem ocupa essa figura são os influencers literários do BookTok e Bookstagram, que Rafaela afirma serem quase como divas pop para os seguidores. Thais Fabijam, a Tatá Book Show, é uma delas. Com mais de 100 mil seguidores, somando as duas redes sociais, ela compartilha dicas de livros desde 2021 — pandemia, período em que, assim como muita gente, se reaproximou da leitura — e criou até um clube do livro para discutir sua seleção de obras escritas por mulheres.

Aos 29 anos, Tatá se considera “zillenial” — meio do caminho entre as gerações millennial e Z — e reflete que o interesse dos jovens por autores fora do nicho de best-sellers populares também tem a ver com o fato de estarem crescendo e buscando novos desafios. “Essa geração está envelhecendo e, com isso, traz essa necessidade de querer entender outras culturas. Vejo muita gente falando que ama ler uma fantasia, um romance, mas que precisa de algo a mais porque já consumiu muito esse outro tipo de conteúdo”, conta.

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Ao pensar na aproximação de artistas do mundo literário, a influencer vê com bons olhos esse novo momento. De olho nas indicações do Service95 Book Club, conta que até escolheu um dos títulos do seu clube do livro por lá: Mau Hábito (Amarcord, 2024), de Alana Portero. Para ela, se posicionar e proliferar o tão falado “capital cultural”, como faz Dua Lipa, é uma das funções mais importantes de ser uma celebridade. “Elas influenciam, em todos os âmbitos, e é por isso que devem se posicionar. É o que buscamos nos artistas hoje em dia”, finaliza.

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