Bruna Tavares celebra 10 anos de BT e fala sobre o futuro da beleza

Bruna Tavares inaugura BT Innovation Lab, novo laboratório de pesquisa de sua marca de beleza Foto: Bruna Tavares/Divulgação


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ez anos podem parecer pouco tempo, mas, quando olhamos para o universo da maquiagem, muita coisa mudou desde 2016. Foi a década em que os blogs deram lugar ao TikTok, tutoriais longos passaram a dividir espaço com vídeos de poucos segundos e palavras como subtom, acabamento e ativos cosméticos entraram definitivamente no vocabulário de quem ama e consome beleza.

Foi nesse cenário que Bruna Tavares, jornalista e criadora de conteúdo que já havia construído uma comunidade apaixonada por beleza, lançou a marca que leva seu nome e mostrou ao mercado que o Brasil tem muito a acrescentar nesse universo. Em entrevista exclusiva à CAPRICHO ela fala sobre sua trajetória – que começou lá no “Pausa para Feminices”, quem lembra? –  e afirma que tem passos audaciosos para a marca, como produzir uma nova fórmula de base na Itália.

Bruna Tavares inaugura BT Innovation Lab, novo laboratório de pesquisa de sua marca de belezaFoto: Bruna Tavares/Divulgação

 

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A BT cresceu junto com a própria indústria brasileira de maquiagem. Em uma década, foram mais de 300 produtos lançados, presença em cerca de 4 mil pontos de venda pelo Brasil e a chegada a todas as lojas da Sephora Brasil. Em 2024, a empresa passou a integrar o Grupo KISS New York e, no ano seguinte, inaugurou o BT Innovation Lab, centro de pesquisa e desenvolvimento dedicado à marca.

Mas existe outra forma de medir essa década que não aparece nos números. As adolescentes que aprenderam a se maquiar acompanhando Bruna na internet também cresceram. “Algumas começaram a me acompanhar com 13, 14, 15 anos e hoje têm 25, 30, são mães, profissionais, empreendedoras. E continuamos juntas”, conta Bruna em entrevista exclusiva à CAPRICHO. “Acho muito potente porque nós crescemos juntas. Eu também mudei. Minha relação com maquiagem, beleza, autoestima e até com a internet é completamente diferente daquela época.”

Para ela, conseguir acompanhar esse amadurecimento sem fingir que o tempo não passou é uma das partes mais especiais dessa história. “Eu não quero continuar falando com aquela menina como se ela ainda tivesse 15 anos. Quero continuar conversando com a mulher que ela se tornou e, ao mesmo tempo, conseguir conversar com uma nova menina que está descobrindo maquiagem agora.”

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De uma internet menos “performática” ao império das trends

Bruna Tavares inaugura BT Innovation Lab, novo laboratório de pesquisa de sua marca de belezaFoto: Bruna Tavares/Divulgação

Se Bruna mudou, a internet ao redor dela também. E existe uma coisa da época dos blogs da qual ela sente falta: uma rede “um pouco menos performática”. “Quando comecei, não existia essa obsessão tão grande por algoritmo, retenção, números, viralização. Claro que todo mundo queria audiência, mas havia mais espaço para experimentar. Eu podia fazer um post gigantesco sobre um batom simplesmente porque estava obcecada por aquela cor”, lembra.

Ela também sente falta de conteúdos que tinham tempo para existir. Um texto publicado em um blog poderia continuar sendo encontrado meses ou anos depois. “Hoje parece que tudo nasce com uma contagem regressiva para desaparecer.”

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Mas isso não significa romantizar aquela internet. Para Bruna, as redes atuais também democratizaram a produção de conteúdo e permitiram que muito mais vozes, especialistas, maquiadores e consumidores entrassem na conversa. Talvez a parte mais difícil seja descobrir como ouvir uma internet aceleradíssima sem deixar que ela determine todos os passos de uma marca. “Existe uma diferença enorme entre ouvir a internet e obedecer à internet”, afirma.

O chamado “anti-blush” é um exemplo citado por ela. A tendência não exige necessariamente a criação de um novo cosmético, mas propõe uma maneira diferente de usar o blush, com cores mais neutras e amarronzadas. Se uma marca já possui esses tons, por que lançar às pressas um produto novo apenas para colocar o nome da trend na embalagem?

“Quando aparece uma tendência, primeiro olho para dentro: eu já tenho algo que responde a esse comportamento? Muitas vezes tenho. E aí o trabalho é muito mais de comunicação, educação e curadoria do que de desenvolvimento. A internet é uma fonte incrível de informação. Mas tendência, para mim, é repertório. Não pode ser direção.

Essa lógica também aparece quando Bruna desenvolve um novo produto. Se pudesse escolher entre criar algo que viralize imediatamente ou que continue sendo usado daqui a cinco anos, ela ficaria com a segunda opção. “Viralização é maravilhosa e pode apresentar um produto para milhões de pessoas, mas não sustenta dez anos de marca. Produto sustenta.”

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Ela cita o BT Velvet, lançado há cerca de oito anos a partir de uma dificuldade que observava nos próprios tutoriais de maquiagem. Em vez de olhar apenas para aquilo que estava vendendo, a ideia foi identificar o que ainda estava faltando. “Meu processo é muito mais sobre identificar comportamento e gaps do que simplesmente reproduzir tendência. Às vezes uma trend confirma uma coisa que já estamos pesquisando. Ótimo. Mas eu não quero lançar um produto com data de validade cultural de três semanas.”

Maquiagem brasileira não precisa tentar “parecer importada”

Essa transformação não aconteceu apenas na BT. Para Bruna, a própria indústria nacional amadureceu e chegou a um momento em que o Brasil também pode ensinar ao mercado internacional. “O Brasil é um país extremamente sofisticado em beleza. Temos uma pluralidade enorme de peles, climas, hábitos, referências e formas de consumir maquiagem”, diz.

Ela destaca ainda características como criatividade, versatilidade, funcionalidade e sensorialidade. Para Bruna, o hábito brasileiro de misturar produtos, inventar novas formas de usá-los e adaptar a maquiagem às próprias necessidades também ajuda a movimentar a inovação.

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“Durante muito tempo olhamos para fora imaginando que inovação necessariamente vinha dos Estados Unidos, Europa ou Ásia. Eu continuo pesquisando esses mercados e aprendendo muito com eles, claro. Mas hoje também olho para o Brasil como uma fonte muito rica de inovação.”

E existe uma mudança de percepção que ela gostaria de ver acontecer: “Eu quero cada vez mais que a conversa deixe de ser ‘essa marca brasileira parece importada’ e passe a ser ‘essa marca brasileira tem alguma coisa que o mundo ainda não tem’.”

Talvez por isso a collab que Bruna ainda sonha em fazer seja justamente com outra marca internacional de maquiagem. Entre os nomes de sua wishlist estão MAC Cosmetics, uma de suas grandes referências durante a formação no mercado de beleza, e Rare Beauty, criada por Selena Gomez.

Bruna diz admirar especialmente a forma como a Rare construiu uma conversa que ultrapassa a maquiagem e cita o trabalho da empresa com saúde mental e experiência de uso dos produtos. Mas a colaboração dos sonhos teria uma condição: nada de simplesmente colocar dois logos lado a lado.

“Eu gostaria que as duas realmente desenvolvessem juntas. Misturar tecnologia, cultura, visão de produto, cores, fórmulas e entender o que nasce desse encontro. Passei muitos anos olhando para essas marcas como referências internacionais. Seria muito bonito chegar a um momento em que uma marca brasileira pudesse sentar à mesma mesa não apenas para aprender, mas para trocar”, deseja.

Diversidade não pode terminar na base

Um dos produtos que ajudam a contar a história desses dez anos é a BT Skin. Lançada em 2020 com 30 tonalidades, a base chegou em um momento em que ainda existia uma lacuna significativa de tons no mercado brasileiro. Bruna acredita que houve avanços desde então, mas chama atenção para algo importante: desenvolver uma cartela diversa não significa apenas aumentar a quantidade de cores.

“Desenvolver uma cartela realmente diversa envolve profundidade, subtom, saturação e entender como aquele pigmento se comporta em diferentes peles. O Brasil é extremamente plural e não dá para construir uma cartela simplesmente criando uma cor muito clara, uma muito escura e preenchendo matematicamente o espaço entre elas.”

E a discussão também precisa sair das bases, segundo ela. “Diversidade não pode terminar na base. Ela precisa atravessar o portfólio. Precisa estar no blush, no bronzer, no iluminador, nos produtos labiais, nas cores e nos acabamentos.”

Para Bruna, representatividade não é chegar a determinado número de tons e considerar o trabalho concluído. “É um exercício contínuo de olhar para o portfólio inteiro e perguntar: para quantas pessoas eu realmente estou desenvolvendo?”

Consumidores sabem mais. E isso é ótimo

Se as marcas mudaram, quem compra maquiagem também mudou. Ingredientes que antes apareciam quase exclusivamente nas conversas entre especialistas agora estão no TikTok. “As pessoas leem INCI, perguntam concentração, conhecem ativos, discutem peptídeos, pigmentos, subtons, acabamento, tecnologia e origem de matéria-prima”, observa Bruna.

Para ela, isso aumenta a responsabilidade das empresas. Não basta destacar um ingrediente interessante na embalagem e transformá-lo em uma promessa sem conseguir explicar qual é sua função real na fórmula. É justamente nesse ponto que sua formação original reaparece.

“Eu brinco que existe um pouco de jornalismo científico dentro da BT. Não quero apenas falar ‘esse produto é maravilhoso’. Quero explicar por que ele é bom, o que aquela tecnologia entrega, por que escolhemos determinado ingrediente e também não transformar ciência em uma promessa que ela não pode sustentar.”

Antes da marca, lembra Bruna, já existia conteúdo. Por isso, ela não enxerga comunicação apenas como marketing, mas como parte da própria identidade da empresa. “Quanto mais informado ele fica, mais exigente fica. E eu acho ótimo. Porque um consumidor mais exigente constrói uma indústria melhor.”

“Não transforme referência em régua”

É quando a conversa chega à autoestima que os dez anos da BT encontram outro significado. Desde o início, o símbolo escolhido para representar a marca foi um espelho. Para Bruna, ele representava o lugar onde a maquiagem acontece, mas também ideias como autoestima, autocuidado e reconexão.

Depois de uma década trabalhando diretamente com imagem, esse significado se aprofundou. “O espelho não deveria ser só um lugar onde a gente procura alguma coisa para corrigir. Eu quero que ele seja também um lugar de pausa. Aquele momento em que você para alguns minutos para você, se olha, se cuida, brinca com a própria imagem e se sente bem.”

Hoje, conta Bruna, existem inclusive pessoas que tatuaram o espelho da BT. E isso mudou a maneira como ela enxerga o próprio símbolo. “Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que eu aprendi sobre o espelho ao longo desses dez anos: eu escolhi um símbolo para representar a autoestima da marca e, em algum momento, ele deixou de ser só nosso e passou a representar histórias de outras pessoas também.”

Da nova base desenvolvida na Itália à BT de 2036

E os próximos dez anos já começaram. Entre as novidades está a coleção de Bridgerton em parceria com a Netflix. Bruna conta que esteve recentemente em Hollywood para apresentar os produtos às equipes da Netflix e da Shondaland e espera aprofundar a relação da BT com arte, cinema, teatro e cultura.

Essa história, na verdade, vem de antes. Bruna conta que aprendeu a se maquiar no teatro e que a marca já esteve presente em produções como Wicked, para a qual chegou a desenvolver a base verde usada por Elphaba, e Shrek. “Eu espero que BT em Hollywood seja realmente só o começo, porque tenho muitos planos e sonhos envolvendo cultura e arte.”

Outra novidade já está em desenvolvimento: uma nova base da BT. Bruna revela que o produto está sendo desenvolvido na Itália para que a empresa tenha acesso a tecnologias ainda indisponíveis no Brasil. É a primeira base completamente nova da marca em bastante tempo e, segundo ela, um dos projetos mais importantes e desafiadores em que trabalha atualmente.

“Se uma tecnologia que eu quero ainda não chegou até mim, eu vou atrás dela. Mas não quero simplesmente importar inovação. Meu pensamento seguinte já é: como começamos a construir caminhos para que esse conhecimento e essas tecnologias possam, no futuro, também ser implementados aqui?”

E onde tudo isso pode levar a BT? Daqui a dez anos, mais do que tamanho, Bruna espera continuar falando sobre relevância e sobre o impacto da BT na indústria brasileira. “Quero olhar para trás e perceber que a BT ajudou a fortalecer a indústria brasileira, abriu portas, formou profissionais, criou produtos que ficaram na memória das pessoas e mostrou que uma marca que nasceu num blog brasileiro poderia ocupar qualquer lugar do mundo.”

Se a primeira década começou diante de um espelho, a próxima parece mirar bem mais longe. Mas, para Bruna, o desafio continua sendo fazer isso sem perder de vista quem está refletido nele.

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