A
série Sintonia, que conta a história de Doni (Jottapê), Nando (Christian Malheiros) e Rita (Bruna Mascarenhas) e os desafios que enfrentam na periferia de São Paulo, ganha um novo desfecho com o spin-off Nando Entre Dois Mundos, que estreia nesta quarta-feira (12) na Netflix.
Nessa sequência, o personagem principal se vê diante de uma situação que pode mudar o rumo da sua vida e precisa decidir até onde está disposto a ir para proteger a própria família. Assim, a trama retoma um dos assuntos principais de Sintonia e deixa novo recado para jovens periféricos. “A mensagem que passamos é a de que o crime não compensa. Você pode até sair vivo, mas e o que você perdeu ao longo do caminho e quantas pessoas tiveram que sofrer para isso?“, afirma Christian Malheiros em entrevista à CAPRICHO.
O filme também apresenta uma nova fase para Scheyla (Júlia Yamaguchi), que ainda carrega as marcas de uma mulher que passou pelo sistema penitenciário e, agora, cria uma filha adolescente. “O que eu aprendi é que a mulher que sai do sistema prisional tem uma marca para o resto da vida, ainda mais na sociedade machista em que a gente vive. Essa marca aparece na quinta temporada e no filme também, que é uma força, mas que também traz um trauma”, reflete a atriz.
Já Duda Pimenta, que chega ao universo para interpretar Bruninha, a filha de Nando e Scheyla, vive os dilemas da adolescência enquanto lida com a ausência do pai. “A Bruninha tem uma coisa em comum comigo, porque ela tem saudade do pai, que é uma figura ausente nessa família. E o meu pai [na vida real] sempre foi ausente. Então, eu peguei essa raiva e essa dor que eu tinha na infância, mas, ao mesmo tempo, uma saudade, que a Bruninha tem, e isso me ajudou muito com a personagem.”
Em conversa com a CAPRICHO, os três atores falam sobre o reencontro com personagens que marcaram suas carreiras, o desafio de dar continuidade a essa história e o legado que ela transmite para o público de Sintonia.
CAPRICHO entrevista elenco de Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia
O retorno do trio original e a escolha de Nando
CH: Como foi reunir o trio original da série, com Jottapê e Bruna Mascarenhas, para fazer esse filme?
Christian Malheiros: A gente tem uma parceria e uma cumplicidade de muito tempo. Então, quando teve o anúncio do spin-off, foi uma celebração muito grande e, quando a gente soube que iríamos nos encontrar mais uma vez para viver essa amizade, que acabou virando nossa amizade na vida, foi só alegria. Esses são os meus parceiros de jornada no Sintonia e era impossível não tê-los no spin-off.
CH: Teve algum momento divertido que vocês compartilharam nas gravações?
Christian: Teve uma cena maravilhosa em que todo mundo se reúne na sala e a gente começa a compartilhar coisas da vida. Só que acho que a gente esqueceu que estava gravando e começamos a compartilhar coisas da própria vida que a gente viveu fazendo Sintonia [risos]. E, depois, ficamos confusos: Calma aí, isso tem na série? Isso foi o que a gente viveu? O que é realidade e o que é ficção? E era uma cena de improviso para falar sobre coisas que marcaram os personagens. Mas a gente convive tanto com esses personagens que chega um momento em que a gente não sabe se aquilo foi cena ou se era vida real.
CH: O que esse filme revela sobre o Nando que o público talvez não tivesse acessado antes?
Christian: O público está acostumado a ver o Nando na corda bamba. Essa é uma grande questão que deixa as pessoas nesse sentimento de o Nando não pode morrer, o Nando não pode cair. Ele precisa sofrer as consequências, mas ele não pode se dar mal. E esse filme traz um amadurecimento, que é quando o Nando toma uma decisão, que é o momento que todo mundo espera. E esse é o presente que a gente dá para o público, né? O Nando que, independente das das consequências, toma uma decisão de qual dos mundos ele quer ficar e quer se dedicar. Então, o filme traz isso, que é uma coisa nova, porque na série o público está acostumado a ver o Nando tentando equilibrar pratinhos.
CH: Considerando a história do Nando nesse filme, que se relaciona com a família, como ela se conecta com jovens periféricos?
Christian: Ela se conecta muito. Se conectou comigo. Eu que sou uma pessoa de periferia e eu faço para a minha galera, para os jovens pretos e pretas, pessoas que vivem na periferia e estão tentando sobreviver de alguma forma. A trajetória do trio protagonista da série, e que a gente acaba tendo esse reencontro no filme, é a história de pessoas que estão querendo existir na vida e querem se manter, viver. Essa trajetória do Nando é a de um cara que não teve muitas escolhas, que não pôde experimentar muito da vida como os outros protagonistas puderam, mas mesmo assim precisa fazer uma escolha. E é muito isso que a gente vê hoje em dia nas periferias, e o jovem brasileiro sempre tem que lutar para existir. A gente mostra nesse filme que, às vezes, um caminho errado pode trazer consequências, então é um aprendizado. Eu entrego esse filme com o meu coração em paz de que a lição que eu queria passar para os jovens, de que o crime não compensa, foi feita com com com louvor. Você pode até sair vivo depois do crime, mas e o que você perdeu ao longo do caminho e quantas pessoas tiveram que sofrer para isso? Esse é o foco principal. E que também é possível sonhar. Nunca deixe de sonhar e nunca deixe de correr atrás. Vai ser mais difícil para quem é da periferia, mas você não pode deixar de sonhar jamais.
A conexão entre Scheyla e Bruninha
CH: Duda, como foi para você se conectar com a sua personagem, a Bruna, e entrar em uma história que já era querida pelas pessoas?
Duda Pimenta: Foi uma grande honra dar continuidade à Bruninha. Eu não queria trazer uma personagem tão diferente da que já existia na série. Como ela é uma adolescente, sabemos que adolescentes são pessoas complicadas, né? E ela tem uma coisa em comum comigo, porque ela tem saudade do pai, que é uma figura ausente nessa família. E o meu pai [na vida real] sempre foi ausente. Então, eu peguei essa raiva e essa dor que eu tinha na infância, mas, ao mesmo tempo, uma saudade, que a Bruninha tem, e isso me ajudou muito com a personagem. A Júlia me ajudou demais e sempre me tratou mesmo como se eu fosse a filha dela. Então, foi muito gostoso e eu estou muito feliz de fazer parte da família Sintonia. Isso é muito importante para mim e para a minha trajetória.
CH: Por que você acha que outros adolescentes podem se identificar com a Bruninha?
Duda: Minha mãe sempre falou que adolescente faz besteira. E a Bruninha apronta bastante, né? Mas eu também acho que muitos adolescentes vão se identificar porque eu sinto que ela sofre bastante e tem dificuldade de expor o que está sentindo. Aos poucos, ela vai se abrindo mais com com a família, e é uma mensagem que as pessoas vão se identificar, porque é um filme que fala muito sobre família. Então, eu sinto que das pessoas da minha geração vão se identificar bastante.
CH: Como foi construir essa relação de mãe e filha nos bastidores?
Júlia: Ao mesmo tempo em que a Duda trazia essa essa preocupação de não fazer algo descolado do que já tinha, a gente também tinha uma expectativa de quem seria a nossa filha, porque até então eram crianças, com quem trabalhamos muito o improviso. Quando chega uma personagem com tanta força, tem que reestruturar a nossa relação. A Duda foi muito madura e teve muita escuta. Ela perguntava, ouvia, entendia as opiniões, e isso foi maravilhoso. A gente tinha várias candidatas e, no final, elas tinham que que atuar comigo, e essa força meio do pai, do Nando, essa força da Bruninha, as meninas eram super novas e muitas delas não vinham com tanta coragem. E, aí, eu falei: “Duda, pode vir, vem pra cima”. E ela foi. E, depois, ela também teve que cantar e, na hora que ela abriu a boca, eu falei: “É ela”.
CH: Na quarta temporada da série, o arco da Scheyla vinha com uma carga de responsabilidade ao retratar a realidade de mulheres no sistema penitenciário brasileiro. Agora, você dá vida a uma mãe que também pode representar outras mulheres brasileiras. A partir disso, como foi construir a personagem nesse filme?
Júlia: O roteiro deu uma uma oportunidade imensa de mostrar várias camadas. Eu estudei muito na quarta temporada, por conta da realidade que eu não tinha tido contato, que é o sistema carcerário feminino. Eu visitei dois presídios, tive uma consultora que era egressa do sistema, e uma coisa que eu aprendi é que a mulher que sai do sistema prisional tem uma marca para o resto da vida, ainda mais em uma sociedade machista que a gente vive. Essa marca foi carregada na quinta temporada e no filme também, que é uma maturidade, que é uma força, mas que também traz um trauma. É uma pessoa que tem que estar sempre em alerta.
O que fica depois do filme
CH: Como ator, qual é a maior lição que esse personagem deixa para você?
Christian: A ser forte. É um personagem que me exigiu muita força não só para fazê-lo, mas na vida também, de aguentar rojões que eu nem imaginava que eu poderia aguentar e que ele aguentou. Então, essa força do personagem fica para mim, de você correr atrás, fazer o corre acontecer, de que você pode mudar de rota a qualquer momento e de que você pode até estar errado, mas você vai tentar chegar no mais justo possível.
CH: Qual é a reflexão final que o filme desperta em quem assiste?
Duda: O filme fala muito sobre nossas escolhas e como elas impactam as nossas vidas. É um filme que faz a gente pensar muito sobre isso, mas também pensar naquilo que a gente ama, no que é mais importante, que é a nossa base, que é a nossa família.
Júlia: Não existe o certo ou errado, a pessoa que é boa ou má, bandido e o mocinho. Não. O filme traz muitas profundidades e é bem fiel à realidade, sem romantizar.
Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia já está disponível na Netflix.




