Não é “zueira”, é crime: O silêncio que alimenta a violência sexual online

 Marina Demidiuk/Getty Images

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m print chega ao grupo da turma. Alguém ri. Alguém salva. Alguém fica em silêncio sem saber muito bem por quê. Em segundos, uma imagem percorre dezenas de celulares. E ninguém pergunta se a pessoa na foto autorizou. Essa cena acontece todos os dias. Em grupos de jogos, no WhatsApp, em directs do Instagram. E ela tem um nome que a gente raramente usa: violência sexual virtual.

Dados da Safernet mostram que 6 em cada 10 denúncias de crimes virtuais são de violência sexual contra crianças e adolescentes – o Brasil detém a quinta pior posição em um ranking de países com mais denúncias de páginas com material de abuso sexual de crianças, segundo a rede internacional InHope.

Mas essa violência não acontece só no ambiente virtual. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 trouxe dados que precisam ser lidos e entendidos. Em 2025, 60,3% das vítimas de estupro no Brasil tinham até 13 anos. E 96,1% dos crimes foram praticados por familiares e conhecidos, não o estranho da rua, mas alguém de dentro de casa, da família, da vizinhança.

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Como novidade, o Anuário revelou pela primeira vez que 1 em cada 3 autores de crimes relacionados à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil é adolescente, tem entre 12 e 17 anos. Da mesma faixa etária das vítimas. Os pesquisadores têm um nome para isso: violência entre pares.

Não estou trazendo esse dado para assustar, nem para apontar dedos, mas porque revela algo que precisamos encarar: a violência sexual não acontece só entre adultos e crianças. Ela acontece entre adolescentes. No grupo do WhatsApp. No direct do Instagram. Nos jogos e chats online. E muitas vezes, quem pratica não sabe – ou finge não saber – que o que está fazendo é um crime. Compartilhar uma foto íntima de alguém sem permissão é crime. Pressionar alguém por nudes é crime. Filmar ou fotografar alguém sem consentimento é crime. Chantagear alguém com imagens íntimas, o que se chama de sextorsão, é crime.

E entre escolares de 13 a 17 anos, pesquisas mostram que o agressor mais comum nos casos de abuso sexual e estupro é o namorado, ex-namorado, ficante ou crush. Isso também tem nome: violência nos relacionamentos. E ela começa, muitas vezes, no que parece pequeno.

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Como psicanalista, escuto o quanto essas situações ficam no silêncio. A menina que não contou porque achou que ninguém ia acreditar. O adolescente que compartilhou um print sem pensar nas consequências. A amiga que viu e não soube o que fazer. O silêncio não protege ninguém; ele protege a violência. Por isso, antes de qualquer outra coisa: se algo assim aconteceu com você, não foi sua culpa. Se você viu acontecer com uma amiga, pode ajudar. Se você fez algo e só agora está entendendo que era errado, existe um caminho para isso também.

O Disque 100 funciona 24 horas, é gratuito e pode ser anônimo. É para denunciar, mas também para pedir orientação, para você, para uma amiga, para qualquer situação com a qual não sabe como lidar. A violência sexual entre adolescentes existe. Os dados mostram isso. E a melhor resposta que temos é falar em casa, na escola, entre amigas. Porque o silêncio é o único lugar em que essa violência cresce.

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