S
im, é possível amar alguém e, ainda assim, perceber que o relacionamento precisa acabar. Diferente do que muitos contos de fada e comédias românticas nos fizeram acreditar, apenas o amor não é suficiente para que um casal dê certo. Olhar com consciência para isso ajuda a construir relações mais realistas e sólidas.
A psicóloga de casais Helena Emerich diz que, nos relacionamento, nos comportamos soemelhante a artistas de circo, que equilibram vários pratinhos ao mesmo tempo. Para o espetáculo acontecer, todos eles precisam permanecer em equilíbrio.
“Muitos casais terminam ainda se amando. Isso porque, apesar de se gostarem, não conseguiram equilibrar os outros “pratinhos” da rotina, da vida, dos desejos e dos pensamentos em relação ao futuro. São várias questões que precisam estar alinhadas”, explica.
Helena ressalta que a falta de amor é o que menos aparece quando as pessoas buscam terapia. “Geralmente, elas procuram ajuda tentando salvar o amor que ainda existe. Por isso, é importante olhar para o que está acontecendo e culminando na mudança do sentimento que eu tinha por aquela pessoa”, afirma.
A pedidos da CAPRICHO, a psicóloga destacou quatro situações mais comuns que culminam no fim de um relacionamento – inclusive, quando ainda há amor.
Falta de comunicação
Muitas vezes, começa a surgir uma sensação de apatia em relação àquela pessoa que antes despertava bons sentimentos. Um dos principais complicadores, segundo Helena, é a falta de escuta e de diálogo. “Quando eu não paro para escutar e não quero ouvir a outra pessoa, estou me fechando para a possibilidade de conhecer o mundo interno dela”, diz e explica que a comunicação são uma das formas mais íntimas de um casal se conectar, porque exigem que ambos se abram, sejam vulneráveis e consigam expressar o que precisam dentro do relacionamento.
Falta de reciprocidade
Helena ressalta que um dos maiores motivos de desgaste em relacionamento é quando uma das pessoas sente que está sustentando o relacionamento sozinha. “É como se toda a responsabilidade pela relação recaísse sobre apenas um dos parceiros, que acaba fazendo sozinho todo o trabalho emocional do relacionamento”, explica. A pessoa, então, pode se questionar: “Que sentido faz eu estar aqui sozinha nesse relacionamento? O que estou fazendo aqui se não tenho uma pessoa ao meu lado para oferecer apoio, cumplicidade e construir planos para o futuro?”
“Nós, enquanto seres humanos, buscamos previsibilidade. Quando estamos em um relacionamento que não oferece isso, o futuro se torna incerto. E, diante da incerteza, não sabemos o que esperar. Isso pode gerar medo e insegurança”, acrescenta a psicóloga.
Baixa capacidade de resolução de conflitos
A psicóloga explica que entramos nos relacionamentos muito movidos pela paixão, potencializando as qualidades da outra pessoa e minimizando os seus defeitos. Mas, à medida que nos aproximamos verdadeiramente, começamos a perceber que essa pessoa também tem falhas e vai cometer erros. Isso é normal, faz parte da condição humana. Ninguém é perfeito.
Mas é justamente aí que entra a capacidade do casal de lidar com as diferenças ou problemas de frente ou então “empurrar as situações com a barriga”. Quando o casal tem uma baixa capacidade de resolver conflitos, qualquer apontamento feito dentro da relação é visto como uma crítica pessoal, e as conversam acabam sempre terminando em silêncio, ataques ou desprezo.
“Com isso, a relação começa a abrir espaço para o ressentimento. A pessoa passa a sentir que não é vista, não é ouvida e que está tentando resolver um problema que nunca encontra uma solução”, aponta Helena.
Caminhos divergentes
Aqui não se trata de certo ou errado, mas do fato de que a vida de cada um pode tomar rumos diferentes, sem que exista mais um ponto de encontro entre os dois. “Imagine, por exemplo, que, para mim, seja um valor morar fora do país, estudar e aprender uma nova língua. Já para a outra pessoa, o momento de vida está voltado para construir uma família e ter filhos. Ou, então, uma pessoa quer ter filhos e a outra ainda não sabe se deseja isso”, exemplifica a psicóloga.
“Um relacionamento é uma construção em conjunto. Ele também envolve o desenvolvimento individual de cada pessoa, mas esse crescimento não pode acontecer de uma forma que acabe afastando o casal”, acrescenta.
Então, sim, é possível estar em um relacionamento maravilhoso, com uma pessoa incrível, mas, se os projetos de vida não estiverem alinhados, essa diferença pode, no futuro, levar ao término. Por isso, trabalhar os próprios desejos, vontades e objetivos é muito importante. Quanto mais clareza e segurança temos sobre aquilo que queremos para a nossa vida, mais fácil é construir um relacionamento saudável, baseado em escolhas conscientes.




