Acidente da Voepass: PF aponta orientação passada por cúpula da companhia aérea em grupo de WhatsApp

Tripulação reclamou dos problemas em grupo. (Foto: Reprodução/TV Globo)

A diretoria da Voepass teria orientado funcionários a não registrar imediatamente panes identificadas nas aeronaves da companhia, segundo relatório divulgado pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (6). De acordo com informações da Folha de São Paulo, a recomendação era feita em um grupo de WhatsApp que reunia integrantes da cúpula da empresa e sugeria que determinadas irregularidades só fossem comunicadas quando os aviões retornassem à base principal, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

A informação consta do documento que resultou no indiciamento de 16 pessoas pela queda do voo 2283, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). O acidente deixou 62 mortos. Segundo a PF, a existência do grupo foi mencionada pelo despachante operacional John Major Viana durante depoimento. Ele também está entre os indiciados.

Entre os participantes citados como membros do grupo de Whatsapp, estão José Luiz Felício Filho, então presidente da Voepass; William Schmidt Agatz, gerente do Centro de Controle Operacional (CCO); Eric Consoli, diretor técnico; e Raphael Limongi de Figueiredo, chefe do CCO.

Segundo o relatório, a diretoria questionava a equipe operacional sobre a possibilidade de “segurar” a liberação das aeronaves e orientava que determinadas irregularidades fossem reportadas apenas na chegada à base principal.

A PF afirma ainda que Felício tinha conhecimento dos problemas técnicos enfrentados pela frota. Em depoimento prestado na terça-feira (4), o executivo teria reconhecido que existia na empresa uma prática de evitar o registro de determinadas falhas no livro de bordo.

De acordo com o relatório, Felício afirmou ter sido alertado ao longo dos anos por diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre esse comportamento entre pilotos. Para os investigadores, a declaração “afasta qualquer alegação de desconhecimento superveniente do risco”.

Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2025, mostrou um trecho de uma conversa obtida no celular do copiloto, Humberto Alencar, que reitera a versão de que a empresa teria sido avisada dos problemas na aeronave semanas antes da queda. A polícia encontrou o aparelho entre os destroços.

Tripulação reclamou dos problemas em grupo. (Foto: Reprodução/TV Globo)

A investigação também aponta que um sistema automatizado de monitoramento de dados de voo, capaz de identificar a repetição de falhas no sistema de degelo, ainda não havia sido implementado quando ocorreu o acidente. Segundo a PF, o próprio presidente havia afirmado que a ferramenta estava “nos planos” da companhia.

A experiência de Felício como piloto da Voepass também foi considerada pelos investigadores. O relatório afirma que ele tinha conhecimento sobre a operação de aeronaves regionais e sobre a vulnerabilidade desse tipo de avião a condições de gelo. Em outro trecho, a PF destaca que o executivo teria reconhecido que o avião envolvido no acidente não deveria estar naquela situação e também não deveria ter sido liberado para aquela rota.

A investigação concluiu que o acidente não foi provocado por um único fator. Segundo os peritos, houve uma sucessão de falhas operacionais e de manutenção que permitiu que problemas conhecidos permanecessem sem solução.

O ATR 72-500 envolvido na tragédia foi enviado para uma rota na qual havia previsão de formação de gelo. Conforme a PF, a aeronave não era certificada para operar nessas condições e apresentava problemas conhecidos no sistema de degelo, circunstâncias que deveriam ter impedido o despacho.

O relatório aponta ainda a existência de uma cultura organizacional de omissão de registros de panes e de priorização da disponibilidade das aeronaves. Na avaliação dos investigadores, esse cenário contribuiu para que falhas recorrentes permanecessem sem correção até o voo que terminou na queda.

Procurada sobre o conteúdo do relatório e sobre a existência do grupo de WhatsApp, a Voepass reiterou a nota divulgada após a apresentação da investigação. A companhia afirmou que “a segurança operacional sempre foi sua prioridade” e declarou que, durante mais de 30 anos de atuação, adotou protocolos de segurança, manutenção e treinamento de tripulações.

Sobre o voo 2283, a empresa afirmou que os quatro tripulantes eram profissionais experientes, habilitados e certificados, com mais de 5 mil horas de voo somadas.

Tragédia aconteceu em agosto e matou 62 pessoas. (Foto: Reprodução/TV Globo)

A Voepass também declarou que os pilotos recebiam treinamento para lidar com condições de formação de gelo, incluindo procedimentos como mudança de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante. “A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente”, afirmou.

A Polícia Federal indiciou 16 pessoas. Quinze foram enquadradas no artigo 261 do Código Penal, que trata de colocar em risco uma aeronave ou dificultar a navegação aérea. O piloto Edson Serra Martins foi indiciado por falsidade ideológica, prevista no artigo 299. A empresa acrescentou que ainda não havia uma definição sobre a defesa individual de cada um dos 16 indiciados.

Foram indiciados:

Edson Serra Martins, piloto;
Luciano Alves de Macedo, piloto;
Oderlino de Campos Figueiredo, despachante operacional;
John Major Viana, despachante operacional;
Marcos Hiroyuki Sato, despachante operacional;
Alex de Souza Leandro, líder de manutenção;
William Schmidt Agatz, gerente do CCO;
Juliano Flores Pacheco, gerente do Centro de Controle de Manutenção;
Raphael Limongi de Figueiredo, chefe de controle operacional;
Marcel Sarquis Moura, diretor de operações;
Tiago Passucci Morani, inspetor-chefe;
Carlos Alberto Costa, diretor de manutenção;
Eric Consoli, diretor técnico;
Rafael Gimenez Rodrigues, chefe dos pilotos;
David da Costa Faria Neto, diretor de segurança operacional;
José Luiz Felício Filho, gestor responsável.


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