“pensei que iria morrer”, diz noiva à BBC

O casamento de Francisca Mesquita, de 39 anos, e Francisco Jader, de 35 anos, moradores de Rodrigues Alves, no Vale do Juruá, ganhou repercussão nacional e foi transformado em reportagem pela BBC News Brasil. Os dois se casaram dentro de uma sala de emergência de uma unidade de saúde do município, depois que a noiva passou mal durante a cerimônia coletiva do Projeto Cidadão, do Poder Judiciário do Acre.

A cerimônia coletiva, que reuniu 91 casais, acontecia no estádio Pedro Santana quando Francisca começou a passar mal ainda na fila. “Eu senti a parte esquerda do meu corpo dormente. Mediram minha pressão, estava 11 por 16, e disseram que iam me levar para o pronto-socorro”, relembra. Assustada, ela implorou para não ser retirada do local. “Falei que não, por favor, não me tire daqui, porque eu imaginava que, se eu saísse, o meu sonho não ia acontecer.”

Levada às pressas para a unidade de saúde do município, Francisca chegou a ser avaliada pela suspeita de um AVC. No auge do desespero, temia pela própria vida. “Eu imaginei que iria morrer no dia do meu casamento. Um momento que era pra ser de muita alegria acabou se transformando em desespero”, contou à BBC.

Enquanto isso, no estádio, a juíza Mirela Ribeiro conduzia a cerimônia dos demais casais. Ao fim da celebração, foi informada de que um dos casais havia deixado o evento por causa da emergência médica. Sem hesitar, decidiu levar o casamento até onde a noiva estava. “Perguntei como ela estava. Disseram que ela estava na unidade de saúde. Então falei, vamos para lá. Ela não vai deixar de concretizar o sonho dela nesse dia.”

No hospital, Francisca ainda não sabia que a magistrada havia se deslocado até ali para casá-la. A confirmação veio pela equipe médica. “O médico chegou e falou, Francisca, a doutora Mirela está aqui e quer entrar para realizar o seu casamento. Eu disse, doutor, está dependendo do senhor. Por favor, autoriza ela a entrar”, narrou a noiva.

Autorizada pela equipe de saúde, a juíza entrou na sala de emergência e conduziu a cerimônia ao lado dos familiares do casal. “A sogra saiu toda emocionada, não estava acreditando que estávamos ali. Perguntei se ela queria, se ele queria, porque, se quisessem, nós iríamos realizar o casamento ali com a maior boa vontade, com o maior amor. E foi o que aconteceu”, contou a magistrada.

A união chega após um período de dores para o casal, que está junto há seis anos. Nos últimos meses, os dois enfrentaram a perda da filha, que esperavam aos seis meses de gestação, e, na sequência, a descoberta de um câncer no colo do útero de Francisca, tratamento que ela segue realizando até hoje.

Para a juíza, a experiência ganhou um significado que ultrapassa o campo profissional. “Esse contato individual torna a gente cada vez mais humano. A magistratura é isso, você tem que ter o brilho, a vontade de ajudar o outro”, refletiu.

Do lado da noiva, o sentimento é de gratidão. “Carrego uma gratidão imensa por ela ter sido humana ao ponto de ir até uma sala de emergência para realizar o meu sonho”, disse Francisca.

Vídeo: BBC/Reprodução

Rebeca Martins

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